INICIAR SESIÓNO verão em Salem tinha um ritmo próprio. Enquanto os turistas lotavam as ruas em busca de histórias de bruxas e mistérios coloniais, Abigail preferia o silêncio do jardim de sua casa. A residência dos Miller era um refúgio de dois andares com pintura clara e uma varanda onde o tempo parecia passar mais devagar, ditado pelo balanço da cadeira de madeira que seu pai, Daniel, tanto estimava.
Naquela manhã, porém, a calma habitual fora substituída por uma agitação elétrica. O ar-condicionado de janela lutava contra o mormaço da costa de Massachusetts, e o cheiro de café fresco se misturava ao aroma de protetor solar que já impregnava o corredor.
No andar de cima, Abby estava ajoelhada diante de sua mala. O ventilador de teto girava preguiçosamente, espalhando o frescor marítimo que entrava pela janela aberta. Suas mãos, salpicadas por sardas que o sol de julho fazia questão de realçar, organizavam pilhas de livros e roupas leves com uma precisão ansiosa.
— Abby, não esquece o protetor! — a voz de Eliza ecoou do andar de baixo. — Já guardei, mãe! — respondeu, tentando fechar o zíper que insistia em travar num volume de poesias.
Anthony surgiu na porta. Ele era a versão masculina da irmã: o mesmo cabelo ruivo indomável e os olhos castanhos expressivos. Aos quinze anos, ele já exibia ombros largos de quem passava tardes treinando futebol nos campos da escola.
— Tá se arrumando tanto pra quem? — ele perguntou, com um sorriso de canto, apoiado no batente.
— Pra ninguém, Anthony. É só o verão — ela rebateu, sentindo o rosto esquentar.
— Sei... será que o loirinho de olhos claros tem algo a ver com esse empenho?
Abby jogou uma almofada, que ele desviou com facilidade, rindo enquanto descia as escadas. A provocação, no entanto, ficou vibrando no quarto. Dois anos. Ela se perguntava se Gus, vivendo a vida agitada de Boston, ainda se lembrava da conexão que tiveram. Perguntava-se se ele ainda era o garoto que olhava para o céu como se buscasse respostas entre as estrelas.
— Tudo pronto! — Daniel anunciou, guardando a caixa de ferramentas e batendo as mãos na calça jeans. — Se não sairmos agora, vamos passar o resto do verão presos na Route 3.
A saída de Salem foi um caos organizado. Malas socadas no porta-malas, Anthony reclamando que não tinha espaço para as pernas e Eliza conferindo pela terceira vez se todas as janelas da casa estavam trancadas. Finalmente, o motor do SUV da família roncou, e a tranquilidade das ruas de paralelepípedos deu lugar à estrada aberta.
Lá fora, a paisagem de Massachusetts passava veloz. Daniel, em seu modo clássico de "pai em viagem", ligou o rádio em uma estação de rock clássico. O volume estava alto o suficiente para fazer os vidros vibrarem levemente.
— Sério, pai? — Anthony revirou os olhos, mas em poucos minutos já estava batucando no joelho ao ritmo da bateria.
— É tradição, garoto! — Daniel riu, ajustando os óculos escuros. — E para manter o foco, vamos ao jogo. Carros vermelhos contra carros azuis. Eu fico com os vermelhos. Anthony, você é o azul.
— Eu não tenho mais dez anos — o irmão de Abby protestou, mas bastou um Mustang azul ultrapassá-los para ele berrar: — Um a zero pra mim!
No banco de trás, Abby estava encostada na janela, observando o reflexo das árvores no vidro. O celular em sua mão vibrou. Uma notificação no topo da tela fez seu coração dar um salto descompassado: Gus.
Gus: Acabamos de passar pelo canal. Já estamos na casa. Quão perto vocês estão?
Abby não conseguiu conter o sorriso. Foi um riso contido, uma mistura de alívio e pura expectativa que iluminou seu rosto sardento. Ela começou a digitar, mas Anthony, sempre atento, inclinou-se para o lado.
— Ih, olha lá! Tá rindo pro celular — ele provocou, a voz projetada para que os pais ouvissem. — A ruivinha tá perdendo o fôlego com uma mensagem!
— Cala a boca, Anthony! — ela rebateu, escondendo a tela, mas o sorriso ainda estava lá.
Abby: Passando por Plymouth agora. Meu pai está nos forçando a contar as cores dos carros. Socorro.
A resposta veio quase instantaneamente:
Gus: Típico do Daniel. Avise a ele que ganhei dele no ano passado. Te vejo em trinta minutos?
Ela sentiu um calor que não vinha do sol de agosto. — O Gus disse que já chegou — comentou ela, tentando parecer casual para os pais.
— Ótimo! — Eliza disse do banco do passageiro, virando-se para trás com um sorriso. — Diga a ele que a torta de mirtilo sobreviveu à viagem.
— Vinte e dois vermelhos! — Daniel exclamou, ultrapassando um caminhão. — Ganhei de você, Anthony!
A estrada agora começava a se estreitar, ladeada por cercas de madeira e o brilho azul do oceano espreitando por trás das dunas. O cheiro de Salem tinha ficado para trás, substituído pela maresia intensa e selvagem de Cape Cod.
As semanas passaram como um borrão cinzento para Gus Beaumont — um intervalo em que ele funcionou no modo automático, deixando-se arrastar pela correnteza das expectativas alheias. O Colégio de Boston fervilhava. O evento mais aguardado do ano finalmente chegara: o Baile de Formatura. Os corredores ecoavam conversas sobre limusines alugadas, cores de vestidos e apostas sobre quem levaria as coroas da noite.Josh transbordava uma empolgação que Gus já não conseguia imitar.— Cara, vai ser épico. Chantal e eu já combinamos tudo. O grupo vai estar completo, Gus. Nossa última grande noite antes de irmos para a universidade.Gus apenas assentiu. Observava o amigo e via ali o reflexo de quem costumava ser — alguém que acreditava, sem questionar, que sucesso social era o oxigênio da vida.Allysson, por sua vez, vivia seu momento de glória antecipada. Radiante, controlava cada detalhe da própria imagem, movida pela convicção de que aquela seria a noite em que ela e Gus seriam oficialmente cor
Duas semanas haviam se passado desde que o convite de Liam ficara suspenso no ar do corredor de Salem como uma promessa de leveza. Nesse intervalo, Abby Miller sentira o mundo mudar de compasso. Enquanto as notícias vindas de Boston falavam de um Gus ausente e de uma elite inquieta, Abby se permitira algo novo: prestar atenção apenas nas cores das tintas, no peso dos tecidos, no que realmente lhe pertencia.O dia do Baile de Formatura de Salem chegou sob um céu tingido de âmbar e o frenesi típico de quem está prestes a fechar um ciclo. No quarto de Abby, o caos era criativo. Pincéis se misturavam a estojos de maquiagem, e o cheiro de fixador de cabelo disputava espaço com a lavanda que vinha do jardim.Abby estava diante do espelho de corpo inteiro, os pés descalços afundados no tapete felpudo. Sobre a cama, dois caminhos distintos se apresentavam, materializados em cetim e tule.O primeiro era um vestido azul royal, profundo como as águas do Lago Blackwood à noite. Tinha uma fenda au
O quarto de Gus estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da cortina. O silêncio era tão espesso que ele conseguia ouvir o tique taque do relógio de pulso sobre a escrivaninha — um som que antes passava despercebido, mas que agora parecia martelar por dentro. Gus estava deitado de barriga para cima, os olhos presos a uma rachadura quase invisível no teto, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.Havia semanas que não abria as redes sociais. O celular, largado em algum canto do tapete, estava descarregado e morto. A ideia de encarar fragmentos de vidas editadas e ruídos digitais lhe parecia ofensiva. O mundo lá fora era barulhento demais para quem tentava sobreviver ao caos silencioso da própria casa.A visita da mãe à escola naquela tarde ainda ecoava. Ele revia o cansaço nos olhos dela enquanto falava com a diretora, na tentativa de sustentar uma postura firme enquanto os dedos tremiam na alça da bolsa. Um nó se formava em
A sala da diretoria do colégio de elite de Boston era revestida de carvalho escuro e silencioso o suficiente para que se ouvisse o tique-taque rítmico do relógio de parede. Gus Beaumont estava sentado na poltrona de couro, mas seu corpo parecia não pertencer àquele móvel. Usava um casaco de moletom preto, o capuz puxado sobre a cabeça como uma barreira erguida contra o mundo. Seus olhos azuis, antes vibrantes, agora lembravam vidro fosco, fixos em algum ponto indefinido do carpete.A porta se abriu com um estalo seco. Susan Beaumont entrou, a bolsa de grife pendurada no antebraço e a postura impecável. Seus olhos percorreram o filho, reconhecendo o “menino de ouro” escondido sob o capuz escuro. Uma sombra de angústia atravessou seu rosto antes de ela vestir, outra vez, a máscara da formalidade.— Está tudo bem? — perguntou, num tom de preocupação cuidadosamente ensaiado.Gus não respondeu. Não levantou a cabeça. Seu silêncio não era um protesto; era uma deserção.A diretora Holloway a
A residência dos Beaumont em Boston era uma obra-prima da arquitetura neoclássica, onde cada moldura de gesso e cada tapete persa exalavam herança, poder e permanência. Ainda assim, depois do retorno de Cape Cod, o apartamento parecera se transformar em um mausoléu de mármore. A rotina — esse mecanismo supostamente infalível — voltara a operar com precisão suíça: café servido às sete, compromissos de Robert revisados às oito, eventos beneficentes de Susan agendados com semanas de antecedência. Tudo funcionava. Tudo estava em ordem. E nada parecia vivo.Gus atravessava aquela normalidade como alguém que não deixava pegadas. Sentou-se à mesa, vestiu as camisas escolhidas pela mãe, mantinha a postura exigida pelo pai. Estava ali. Mas não estava presente. Seus olhos passavam pelas conversas sem fixar nada, e o silêncio que carregava não era distração — era escolha. Sentir havia se tornado caro demais.Susan o observava por trás do jornal aberto. Notava a rigidez nos ombros do filho, o c
A manhã na Floresta de Blackwood tinha um tom de despedida dourada. O sol filtrava-se entre os pinheiros, iluminando a clareira onde, dez dias antes, Abby Miller chegara como uma garota em busca de um esconderijo. Agora, enquanto dobrava a barraca com movimentos precisos e tranquilos, percebia que não encontrará um refúgio — encontrará uma versão de si mesma que já não precisava se desculpar por existir.— Você leva jeito para isso agora — disse a voz tranquila de Liam às suas costas.Abby ergueu o olhar e sorriu. Liam estava encostado em uma árvore, observando-a. Ele não carregava a urgência de Gus, nem a necessidade constante de ocupar o centro de tudo. Apenas estava ali, leve, inteiro.— Aprendi com o melhor monitor do acampamento — brincou Abby, fechando o zíper da bolsa da lona.— Foi o melhor verão da minha vida, Abby — disse Liam, sem drama, apenas com uma honestidade limpa. — E olha que já passei muitos verões nessas trilhas. Mas este... teve algo diferente.Ele se aproximou q







