FAZER LOGINO Verão dos Dezesseis…
A manhã em Salem possuía uma claridade vítrea, típica das cidades costeiras de Massachusetts quando o inverno finalmente desiste de lutar. O sol atravessava as janelas altas da sala de artes, projetando retângulos de luz dourada sobre as mesas de carvalho manchadas por décadas de tinta, grafite e sonhos juvenis.
Abby estava sentada na terceira fileira, isolada em seu próprio mundo. O lápis 2B movia-se com uma confiança que ela não sentia em outras áreas da vida. No papel, um farol solitário no alto de uma falésia ganhava forma; as gaivotas ao redor eram apenas sugestões de movimento, mas o traço era firme, quase arquitetônico. Ela estava tão imersa na textura das rochas que não percebeu a aproximação do Professor Thorne.
— Abigail Miller — disse ele, a voz rouca de café e anos de ensino, enquanto se apoiava no encosto da cadeira ao lado. — O seu domínio de perspectiva está se tornando algo perigoso.
Ela ergueu o rosto, assustada, os óculos de armação preta — agora uma versão mais moderna e ajustada — escorregando levemente enquanto ela sorria de forma tímida.
— Ah... obrigada, professor. Só estou tentando acertar a sombra da base.
— Sombra e luz são o coração de tudo, Abigail. Já parou para considerar seriamente a faculdade de Artes Visuais? A Rhode Island School of Design adoraria um portfólio com essa sensibilidade.
Abby sentiu o rosto aquecer, um rubor que sempre contrastava com suas sardas. — Ah... eu nunca pensei muito nisso como carreira. É só um hobby. Um jeito de... organizar os pensamentos.
— Grandes artistas começaram apenas tentando organizar os pensamentos — o professor pegou a folha com as pontas dos dedos, tratando-a como um artefato valioso. — Não subestime o que você tem nas mãos. Talento é um chamado, não apenas um passatempo.
Ela agradeceu com um aceno, mas quando ele se afastou, as palavras ficaram ecoando. A ideia de "carreira" parecia algo para adultos, algo distante, como o horizonte que ela desenhava. Mas ser validada por alguém que não fosse sua mãe ou Susan dava àqueles traços uma importância nova, quase assustadora.
O sinal para o intervalo tocou, um estrondo metálico que quebrou o transe artístico da sala. Abby guardou o material com cuidado, sentindo a ponta dos dedos suja de grafite. Ao chegar ao corredor, o caos habitual do segundo ano do ensino médio a envolveu. Antes mesmo de alcançar seu armário, uma mão de unhas perfeitamente pintadas de preto fechou a porta metálica à sua frente.
— Abby! — Melissa surgiu como um furacão.
Melissa era o oposto solar de Abby: pele morena, cabelos pretos que brilhavam como azeviche e uma energia que parecia impossível de conter em uma sala de aula. Eram amigas desde o fundamental, uma aliança baseada no fato de que Melissa falava por ambas e Abby desenhava os mapas dos projetos de história.
— Você está com aquela cara de "estou vivendo no século XIX desenhando faróis" de novo — Melissa cruzou os braços, os olhos negros brilhando com uma urgência conspiratória. — A gente precisa conversar sobre a sua vida social. Ou a falta dela.
— Eu tenho vida social, Mel. Eu falo com você todos os dias — Abby brincou, tentando passar pela amiga.
— Falar comigo não conta como "se enturmar". Sério, Abby, não dá para passar o resto do ensino médio escondida na biblioteca ou no ateliê. O mundo está acontecendo lá fora.
Melissa puxou o celular do bolso com a agilidade de um pistoleiro e desbloqueou a tela, aproximando-a do rosto de Abby. — Eu estava fazendo o meu dever cívico de stalker e fui fuçar o perfil do tal Gus...
O estômago de Abby deu um solavanco, uma sensação que ela não sentia desde o último verão em Cape Cod. — O Gus? Por que você estava olhando o perfil dele?
— Porque ele é o seu "amigo de verão" — Melissa fez aspas dramáticas com os dedos — e eu precisava ver se a mercadoria valia a pena. E, amiga... "vale a pena" é o eufemismo do século. Ele está um espetáculo.
Abby inclinou-se, o coração martelando contra as costelas. Na tela, Gus não era mais o garoto de traços incertos que ela conhecia. A foto o mostrava com o uniforme de futebol americano da escola de Boston. O capacete estava sob o braço, o cabelo loiro suado e bagunçado brilhando sob os refletores do estádio. Ele sorria para a câmera com uma confiança que beirava a arrogância, mas com aquele brilho nos olhos azuis que Abby reconheceria em qualquer lugar.
— Ele entrou para o time? — Abby murmurou, a voz falhando um pouco.
— Entrou e virou o queridinho, pelo visto. — Melissa deslizou para a próxima foto. Era uma imagem de treino, Gus sem camisa, o sol de Boston definindo os músculos dos braços e um abdômen que parecia esculpido em mármore. — Olha esse tanquinho, Abigail. Isso não é um abdômen, é uma infraestrutura de defesa nacional.
Abby sentiu o rosto arder violentamente. Ela desviou o olhar, mas a imagem parecia queimada em sua retina. — Ele... ele deve estar treinando muito. O pai dele sempre quis que ele fosse esportista.
— Treinando e colecionando corações partidos, com certeza — Melissa guardou o celular, mas manteve o olhar fixo na amiga. — Escuta, o verão está chegando. Se eu fosse você, levava aquele vestido branco que compramos no outono. Aquele que você diz que é "muito curto", mas que fica perfeito em você. Porque o Gus de Boston não é mais o loirinho que contava estrelas.
As semanas passaram como um borrão cinzento para Gus Beaumont — um intervalo em que ele funcionou no modo automático, deixando-se arrastar pela correnteza das expectativas alheias. O Colégio de Boston fervilhava. O evento mais aguardado do ano finalmente chegara: o Baile de Formatura. Os corredores ecoavam conversas sobre limusines alugadas, cores de vestidos e apostas sobre quem levaria as coroas da noite.Josh transbordava uma empolgação que Gus já não conseguia imitar.— Cara, vai ser épico. Chantal e eu já combinamos tudo. O grupo vai estar completo, Gus. Nossa última grande noite antes de irmos para a universidade.Gus apenas assentiu. Observava o amigo e via ali o reflexo de quem costumava ser — alguém que acreditava, sem questionar, que sucesso social era o oxigênio da vida.Allysson, por sua vez, vivia seu momento de glória antecipada. Radiante, controlava cada detalhe da própria imagem, movida pela convicção de que aquela seria a noite em que ela e Gus seriam oficialmente cor
Duas semanas haviam se passado desde que o convite de Liam ficara suspenso no ar do corredor de Salem como uma promessa de leveza. Nesse intervalo, Abby Miller sentira o mundo mudar de compasso. Enquanto as notícias vindas de Boston falavam de um Gus ausente e de uma elite inquieta, Abby se permitira algo novo: prestar atenção apenas nas cores das tintas, no peso dos tecidos, no que realmente lhe pertencia.O dia do Baile de Formatura de Salem chegou sob um céu tingido de âmbar e o frenesi típico de quem está prestes a fechar um ciclo. No quarto de Abby, o caos era criativo. Pincéis se misturavam a estojos de maquiagem, e o cheiro de fixador de cabelo disputava espaço com a lavanda que vinha do jardim.Abby estava diante do espelho de corpo inteiro, os pés descalços afundados no tapete felpudo. Sobre a cama, dois caminhos distintos se apresentavam, materializados em cetim e tule.O primeiro era um vestido azul royal, profundo como as águas do Lago Blackwood à noite. Tinha uma fenda au
O quarto de Gus estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da cortina. O silêncio era tão espesso que ele conseguia ouvir o tique taque do relógio de pulso sobre a escrivaninha — um som que antes passava despercebido, mas que agora parecia martelar por dentro. Gus estava deitado de barriga para cima, os olhos presos a uma rachadura quase invisível no teto, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.Havia semanas que não abria as redes sociais. O celular, largado em algum canto do tapete, estava descarregado e morto. A ideia de encarar fragmentos de vidas editadas e ruídos digitais lhe parecia ofensiva. O mundo lá fora era barulhento demais para quem tentava sobreviver ao caos silencioso da própria casa.A visita da mãe à escola naquela tarde ainda ecoava. Ele revia o cansaço nos olhos dela enquanto falava com a diretora, na tentativa de sustentar uma postura firme enquanto os dedos tremiam na alça da bolsa. Um nó se formava em
A sala da diretoria do colégio de elite de Boston era revestida de carvalho escuro e silencioso o suficiente para que se ouvisse o tique-taque rítmico do relógio de parede. Gus Beaumont estava sentado na poltrona de couro, mas seu corpo parecia não pertencer àquele móvel. Usava um casaco de moletom preto, o capuz puxado sobre a cabeça como uma barreira erguida contra o mundo. Seus olhos azuis, antes vibrantes, agora lembravam vidro fosco, fixos em algum ponto indefinido do carpete.A porta se abriu com um estalo seco. Susan Beaumont entrou, a bolsa de grife pendurada no antebraço e a postura impecável. Seus olhos percorreram o filho, reconhecendo o “menino de ouro” escondido sob o capuz escuro. Uma sombra de angústia atravessou seu rosto antes de ela vestir, outra vez, a máscara da formalidade.— Está tudo bem? — perguntou, num tom de preocupação cuidadosamente ensaiado.Gus não respondeu. Não levantou a cabeça. Seu silêncio não era um protesto; era uma deserção.A diretora Holloway a
A residência dos Beaumont em Boston era uma obra-prima da arquitetura neoclássica, onde cada moldura de gesso e cada tapete persa exalavam herança, poder e permanência. Ainda assim, depois do retorno de Cape Cod, o apartamento parecera se transformar em um mausoléu de mármore. A rotina — esse mecanismo supostamente infalível — voltara a operar com precisão suíça: café servido às sete, compromissos de Robert revisados às oito, eventos beneficentes de Susan agendados com semanas de antecedência. Tudo funcionava. Tudo estava em ordem. E nada parecia vivo.Gus atravessava aquela normalidade como alguém que não deixava pegadas. Sentou-se à mesa, vestiu as camisas escolhidas pela mãe, mantinha a postura exigida pelo pai. Estava ali. Mas não estava presente. Seus olhos passavam pelas conversas sem fixar nada, e o silêncio que carregava não era distração — era escolha. Sentir havia se tornado caro demais.Susan o observava por trás do jornal aberto. Notava a rigidez nos ombros do filho, o c
A manhã na Floresta de Blackwood tinha um tom de despedida dourada. O sol filtrava-se entre os pinheiros, iluminando a clareira onde, dez dias antes, Abby Miller chegara como uma garota em busca de um esconderijo. Agora, enquanto dobrava a barraca com movimentos precisos e tranquilos, percebia que não encontrará um refúgio — encontrará uma versão de si mesma que já não precisava se desculpar por existir.— Você leva jeito para isso agora — disse a voz tranquila de Liam às suas costas.Abby ergueu o olhar e sorriu. Liam estava encostado em uma árvore, observando-a. Ele não carregava a urgência de Gus, nem a necessidade constante de ocupar o centro de tudo. Apenas estava ali, leve, inteiro.— Aprendi com o melhor monitor do acampamento — brincou Abby, fechando o zíper da bolsa da lona.— Foi o melhor verão da minha vida, Abby — disse Liam, sem drama, apenas com uma honestidade limpa. — E olha que já passei muitos verões nessas trilhas. Mas este... teve algo diferente.Ele se aproximou q







