INICIAR SESIÓNA luz azulada do notebook ainda parecia dançar diante dos olhos de Abby, mesmo depois de ela ter fechado a tela. "Contando os minutos", ele dissera. A frase ecoava em sua mente como um refrão persistente. Abby sentia que o ar em seu quarto em Salem estava subitamente mais pesado, carregado com a eletricidade de uma expectativa que ela não sabia se conseguiria carregar sozinha por mais duas semanas.
Ela se levantou da cama, os pés descalços sentindo o toque familiar do assoalho de madeira. Caminhou até o espelho da penteadeira e observou-se. Aos dezesseis anos, ela via uma versão de si mesma que o Professor Thorne chamaria de "em constante transição". O rosto estava mais angulado, os olhos castanhos pareciam maiores atrás das lentes, e o ruivo do cabelo — o motivo do apelido "Cenourinha" — caía em ondas pesadas sobre seus ombros. Será que Gus veria essa mudança? Ou ele apenas veria a garota que quase beijou atrás da fogueira há dois anos?
Um estrondo vindo do corredor quebrou seu transe. Passos pesados, que mais pareciam de um gigante, aproximaram-se da sua porta antes de ela ser aberta sem qualquer cerimônia.
— Abby, você viu minha chuteira de trava? Aquela que eu usei no último treino?
Era Anthony. Aos dezessete anos, o irmão de Abby sofrera uma metamorfose que desafiava a lógica biológica. Ele ultrapassara Daniel em altura, tornando-se uma presença física impossível de ignorar. Os ombros eram largos, resultado de horas na academia da escola e de uma obsessão competitiva por esportes, e a mandíbula estava tão marcada que ele parecia ter envelhecido cinco anos em apenas um. O cabelo ruivo ainda era bagunçado, mas agora de um jeito que parecia proposital, e seus olhos castanhos carregavam a confiança de quem estava prestes a se formar e conquistar o mundo.
— Já ouviu falar em bater, Anthony? — Abby reclamou, embora já estivesse acostumada. — E sua chuteira deve estar no cesto de secagem, onde a mãe coloca tudo o que você esquece espalhado pela casa.
Anthony entrou no quarto, fazendo o espaço parecer subitamente pequeno. Ele se jogou na poltrona de leitura de Abby, que rangeu sob seu peso.
— Nossa, que mau humor. Estava falando com o Gus, né? — Ele deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso que só irmãos mais velhos conseguem dar para irritar.
— Como você sabe? — Abby tentou manter a voz neutra, voltando a organizar seus lápis sobre a mesa de desenho.
— Vi você sorrindo para a tela lá da porta. Você fica com essa cara de quem ganhou na loteria toda vez que ele manda mensagem. — Anthony esticou as pernas longas, cruzando os tornozelos. — Ele me mandou um vídeo do último touchdown dele hoje cedo. O cara está jogando sério, Abby. Boston faz bem pra ele.
Abby parou o que estava fazendo, sentindo uma pontada de curiosidade misturada com o ciúme bobo que Melissa despertara nela. — Ele parece... diferente nas fotos. Mais sério.
— Ele é o quarterback titular, pequena. Tem que bancar o líder. — Mas relaxa — Anthony riu, levantando-se e bagunçando o cabelo dela —, ele ainda é o mesmo idiota que cai do píer se você empurrar. Só tenta não ficar muito nervosa. O verão em Cape Cod não é lugar para ataques de ansiedade.
— Eu não estou nervosa! — ela gritou para o corredor, mas a risada alta de Anthony foi a única resposta.
Mais tarde, o jantar na casa dos Miller em Salem tinha aquele sabor agridoce de "últimas refeições antes da mudança". As caixas de papelão já começavam a se acumular no canto da sala de jantar, e a lista de Eliza para o mercado de Cape Cod crescia a cada hora.
Daniel estava sentado à cabeceira, servindo o ensopado de peixe que era a especialidade da sexta-feira. Ele observava os filhos com um olhar nostálgico. Para ele, parecia que foi ontem que precisava carregar ambos no colo para que vissem o mar; agora, Anthony era maior que ele e Abby tinha um portfólio de arte que ele mal conseguia compreender.
— Então, todos prontos para a grande migração? — Daniel perguntou, olhando para Eliza.
— Quase. Só falta decidirmos se levamos a churrasqueira velha ou se usamos a do Robert este ano — Eliza respondeu, limpando o canto da boca com o guardanapo. — Susan, me disse que eles compraram um modelo novo. Ela parece muito animada com a chegada da Sarah também.
— A Sarah vai ficar o verão todo? — Abby perguntou, interessada. Sarah sempre trazia um ar de sofisticação e caos divertido para as férias.
— Parece que sim. Ela terminou o semestre na universidade e quer um tempo longe de Boston — disse Eliza, olhando significativamente para Abby. — E o Gus também. Susan disse que ele tem treinado como um louco e precisa de um descanso.
— Descanso? O Gus? — Anthony interveio, servindo-se de mais uma porção generosa. — A gente já combinou de treinar na praia todo dia às seis da manhã. Ele quer chegar na pré-temporada voando.
— Seis da manhã nas férias? Vocês são doentes — Abby murmurou, atraindo o riso do pai.
— Deixe os meninos, Abby — Daniel disse, com um brilho divertido nos olhos. — O verão é para gastar energia. E você, vai levar seu cavalete novo?
— Vou levar só os cadernos, pai. Quero focar em esboços rápidos. O Professor Thorne disse que eu preciso capturar o movimento das pessoas, não só paisagens estáticas.
— Movimento, hein? — Anthony provocou, lançando um olhar cúmplice para a irmã. — Tipo o movimento do Gus correndo sem camisa na areia?
Abby sentiu o sangue subir para o rosto com tanta força que temeu que suas sardas sumissem. Eliza e Daniel trocaram um olhar rápido, aquele tipo de comunicação silenciosa entre pais que percebem que o tempo de "crianças brincando na areia" tinha oficialmente ficado no passado.
— Anthony, deixe sua irmã em paz — Eliza disse, embora houvesse um sorriso contido em seus lábios. — Abby, se você quiser levar aquele vestido novo que compramos, eu já o lavei e deixei no seu armário.
— Obrigada, mãe — Abby respondeu, mantendo a cabeça baixa, focada intensamente em sua batata.
Após o jantar, a casa ficou em um silêncio produtivo. Daniel e Anthony foram para a garagem conferir a pressão dos pneus do carro e o óleo, uma conversa técnica que Abby ignorou solenemente. Ela subiu para o quarto e abriu o armário.
Lá estava ele. O vestido branco.
Não era nada exagerado, mas tinha algo na forma como o tecido de linho caía e no decote sutil que a fazia sentir-se... diferente. Menos como a "Cenourinha" e mais como uma mulher que sabia o que queria desenhar. Ela o colocou em cima da mala aberta.
Seus pensamentos voaram para o Gus de dezessete anos em Boston. Ele agora era um atleta, um líder, alguém que recebia comentários de dezenas de garotas. O medo de não ser "suficiente" para esse novo Gus tentou se instalar em seu peito, mas ela lembrou-se da foto do mar. "Contando os dias".
Ele não postara uma foto do time, ou de uma festa, ou de uma vitória. Ele postara o horizonte. O mesmo horizonte que ela desenhara aquela manhã na aula do Professor Thorne.
Abby caminhou até a janela e olhou para as luzes de Salem. Em algum lugar a poucos quilômetros dali, em Boston, Gus provavelmente estava fazendo o mesmo. A conexão entre eles não era mais apenas sobre constelações inventadas ou corridas na areia. Era algo mais denso, mais silencioso e muito mais perigoso.
Ela pegou seu caderno de desenhos e abriu em uma página em branco. Com traços rápidos, ela não desenhou um farol ou uma gaivota. Ela desenhou o contorno de um ombro forte, a curva de um maxilar e o brilho de olhos que ela sabia serem azuis, mesmo no grafite preto e branco.
— Duas semanas — ela sussurrou para o quarto vazio.
O verão dos dezesseis e dezessete anos estava prestes a começar.
Abby fechou o caderno e o colocou sob o travesseiro.
Desta vez, ela sabia: não haveria interrupções suficientes para protegê-la do que sentia.
As semanas passaram como um borrão cinzento para Gus Beaumont — um intervalo em que ele funcionou no modo automático, deixando-se arrastar pela correnteza das expectativas alheias. O Colégio de Boston fervilhava. O evento mais aguardado do ano finalmente chegara: o Baile de Formatura. Os corredores ecoavam conversas sobre limusines alugadas, cores de vestidos e apostas sobre quem levaria as coroas da noite.Josh transbordava uma empolgação que Gus já não conseguia imitar.— Cara, vai ser épico. Chantal e eu já combinamos tudo. O grupo vai estar completo, Gus. Nossa última grande noite antes de irmos para a universidade.Gus apenas assentiu. Observava o amigo e via ali o reflexo de quem costumava ser — alguém que acreditava, sem questionar, que sucesso social era o oxigênio da vida.Allysson, por sua vez, vivia seu momento de glória antecipada. Radiante, controlava cada detalhe da própria imagem, movida pela convicção de que aquela seria a noite em que ela e Gus seriam oficialmente cor
Duas semanas haviam se passado desde que o convite de Liam ficara suspenso no ar do corredor de Salem como uma promessa de leveza. Nesse intervalo, Abby Miller sentira o mundo mudar de compasso. Enquanto as notícias vindas de Boston falavam de um Gus ausente e de uma elite inquieta, Abby se permitira algo novo: prestar atenção apenas nas cores das tintas, no peso dos tecidos, no que realmente lhe pertencia.O dia do Baile de Formatura de Salem chegou sob um céu tingido de âmbar e o frenesi típico de quem está prestes a fechar um ciclo. No quarto de Abby, o caos era criativo. Pincéis se misturavam a estojos de maquiagem, e o cheiro de fixador de cabelo disputava espaço com a lavanda que vinha do jardim.Abby estava diante do espelho de corpo inteiro, os pés descalços afundados no tapete felpudo. Sobre a cama, dois caminhos distintos se apresentavam, materializados em cetim e tule.O primeiro era um vestido azul royal, profundo como as águas do Lago Blackwood à noite. Tinha uma fenda au
O quarto de Gus estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da cortina. O silêncio era tão espesso que ele conseguia ouvir o tique taque do relógio de pulso sobre a escrivaninha — um som que antes passava despercebido, mas que agora parecia martelar por dentro. Gus estava deitado de barriga para cima, os olhos presos a uma rachadura quase invisível no teto, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.Havia semanas que não abria as redes sociais. O celular, largado em algum canto do tapete, estava descarregado e morto. A ideia de encarar fragmentos de vidas editadas e ruídos digitais lhe parecia ofensiva. O mundo lá fora era barulhento demais para quem tentava sobreviver ao caos silencioso da própria casa.A visita da mãe à escola naquela tarde ainda ecoava. Ele revia o cansaço nos olhos dela enquanto falava com a diretora, na tentativa de sustentar uma postura firme enquanto os dedos tremiam na alça da bolsa. Um nó se formava em
A sala da diretoria do colégio de elite de Boston era revestida de carvalho escuro e silencioso o suficiente para que se ouvisse o tique-taque rítmico do relógio de parede. Gus Beaumont estava sentado na poltrona de couro, mas seu corpo parecia não pertencer àquele móvel. Usava um casaco de moletom preto, o capuz puxado sobre a cabeça como uma barreira erguida contra o mundo. Seus olhos azuis, antes vibrantes, agora lembravam vidro fosco, fixos em algum ponto indefinido do carpete.A porta se abriu com um estalo seco. Susan Beaumont entrou, a bolsa de grife pendurada no antebraço e a postura impecável. Seus olhos percorreram o filho, reconhecendo o “menino de ouro” escondido sob o capuz escuro. Uma sombra de angústia atravessou seu rosto antes de ela vestir, outra vez, a máscara da formalidade.— Está tudo bem? — perguntou, num tom de preocupação cuidadosamente ensaiado.Gus não respondeu. Não levantou a cabeça. Seu silêncio não era um protesto; era uma deserção.A diretora Holloway a
A residência dos Beaumont em Boston era uma obra-prima da arquitetura neoclássica, onde cada moldura de gesso e cada tapete persa exalavam herança, poder e permanência. Ainda assim, depois do retorno de Cape Cod, o apartamento parecera se transformar em um mausoléu de mármore. A rotina — esse mecanismo supostamente infalível — voltara a operar com precisão suíça: café servido às sete, compromissos de Robert revisados às oito, eventos beneficentes de Susan agendados com semanas de antecedência. Tudo funcionava. Tudo estava em ordem. E nada parecia vivo.Gus atravessava aquela normalidade como alguém que não deixava pegadas. Sentou-se à mesa, vestiu as camisas escolhidas pela mãe, mantinha a postura exigida pelo pai. Estava ali. Mas não estava presente. Seus olhos passavam pelas conversas sem fixar nada, e o silêncio que carregava não era distração — era escolha. Sentir havia se tornado caro demais.Susan o observava por trás do jornal aberto. Notava a rigidez nos ombros do filho, o c
A manhã na Floresta de Blackwood tinha um tom de despedida dourada. O sol filtrava-se entre os pinheiros, iluminando a clareira onde, dez dias antes, Abby Miller chegara como uma garota em busca de um esconderijo. Agora, enquanto dobrava a barraca com movimentos precisos e tranquilos, percebia que não encontrará um refúgio — encontrará uma versão de si mesma que já não precisava se desculpar por existir.— Você leva jeito para isso agora — disse a voz tranquila de Liam às suas costas.Abby ergueu o olhar e sorriu. Liam estava encostado em uma árvore, observando-a. Ele não carregava a urgência de Gus, nem a necessidade constante de ocupar o centro de tudo. Apenas estava ali, leve, inteiro.— Aprendi com o melhor monitor do acampamento — brincou Abby, fechando o zíper da bolsa da lona.— Foi o melhor verão da minha vida, Abby — disse Liam, sem drama, apenas com uma honestidade limpa. — E olha que já passei muitos verões nessas trilhas. Mas este... teve algo diferente.Ele se aproximou q







