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Capítulo 7:

Penulis: Gio Aguiar
last update Tanggal publikasi: 2026-04-25 02:16:24

POV JADE:

– Gustavo, aqui estão as peças que me ped... –  ela interrompe a frase ao se recompor, visivelmente irritada. – Olha por onde anda.

– Desculpe – respondo automaticamente, ainda distraída.

Mas então ela me olha de verdade.

E o reconhecimento vem.

– Você?

Levanto os olhos, surpresa.

– Juliana?

O choque no rosto dela não é exatamente positivo.

– O que você está fazendo aqui?

Antes que eu possa responder, a voz de Gustavo surge atrás de nós, firme, resolvendo a situação com uma naturalidade que me deixa sem reação.

– Jade será a nova estagiária-assistente. Trabalhará diretamente para a presidência.

Juliana pisca, claramente tentando processar aquilo.

– Vou trabalhar com a senhora Miranda Miller? – pergunto, antes mesmo de pensar melhor.

E é só depois de falar que a ficha finalmente cai.

Miranda.

A mulher do café.

Minha respiração falha por um segundo.

Como eu não percebi?

Sinto o calor subir pelo rosto, uma mistura de vergonha e incredulidade. Aquela mulher... aquela presença... e eu não reconheci. Não apenas uma figura importante, mas uma referência. Uma musa.

Mas, em minha defesa, eu estava longe de estar em condições normais naquele momento. Entre o pedido absurdo de Gustavo e todo o resto da minha vida... reconhecer alguém famoso não era exatamente minha prioridade.

– Não, Jade – Gustavo responde, interrompendo meus pensamentos. – Você trabalhará comigo. Eu sou o CEO.

– Ah...

É tudo o que consigo dizer.

– Já que se conhecem – ele continua, voltando-se para Juliana – leve-a ao RH para finalizar a integração.

– Tudo bem, Gustavo – o tom dela muda completamente, tornando-se mais suave, quase... forçado.

Aquilo não passa despercebido.

– Senhor Miller – digo, antes de sair – posso trocar de roupas antes?

Ele me olha por um instante.

– Pode ficar com elas. Considere um presente de boas-vindas.

O peso daquilo me atinge de novo.

Presente.

– Obrigada.

Assim que saímos da sala, o silêncio entre mim e Juliana dura poucos segundos antes de se romper, não com neutralidade, mas com algo muito mais ácido.

– Como alguém como você conseguiu um emprego aqui?

O tom dela é carregado de desprezo, sem qualquer tentativa de disfarce.

Viro o rosto lentamente.

– Alguém como eu?

Ela solta um pequeno riso, sem humor.

– Sim. Com essa aparência... comum – a pausa que ela faz é intencional – e pobre.

Sinto a pontada, mas não deixo transparecer.

– Estou aqui pelas minhas qualificações. Não pela minha aparência.

– Não sei o que você fez naquela entrevista – ela continua, aproximando-se um pouco – se seduziu o Gustavo... ou o Guilherme.

Dessa vez, eu sorrio. Fraco. Controlado.

– Seduzir? Não sou como você.

O olhar dela endurece imediatamente.

– É melhor você ficar de boca fechada, Jade – ela diz, em um tom mais baixo, quase venenoso. – Ou eu faço questão de garantir que você nunca seja efetivada.

Ela aponta para a porta.

– RH.

E então acrescenta, antes de se afastar:

– Não vou te desejar boa sorte. Não vai precisar.

Fico parada por um segundo, observando-a ir embora. Sozinha.

Juliana foi a primeira pessoa que se aproximou de mim na faculdade. Lembro perfeitamente de como achei aquilo estranho na época, alguém como ela, interessada em alguém como eu. Mas, com o tempo, tudo começou a fazer sentido... ou melhor, a perder o sentido.

Ela sempre sabia o que cairia nas provas. Sempre tirava notas altas com o mínimo de esforço. No começo, admirei. Depois, desconfiei. Até que perguntei.

E a resposta foi pior do que eu imaginava.

Juliana não estudava.

Ela negociava.

Dormia com professores em troca de notas.

Quando tentei fazê-la parar, quando disse que aquilo era errado, antiético... fui eu quem pagou o preço. Ela não apenas ignorou, ela virou aquilo contra mim. Espalhou rumores. Me colocou na mesma posição.

E eu tive que mudar de turno.

Foi assim que passei a estudar à noite.

Foi assim que comecei a me afastar de tudo que pudesse me comprometer.

E agora...

Ela está aqui.

– E então? Como foi?

A voz de Melissa me puxa de volta ao presente enquanto retiro minhas coisas do armário disponibilizado pela empresa.

– Eu consegui.

Ela sorri imediatamente, como se já soubesse.

– Eu sabia. Assim que bati os olhos em você.

Sinto algo aquecer no peito.

– Obrigada, Melissa. Estou muito feliz... de verdade.

– Mel – ela corrige com leveza. – E não se preocupe com a Juliana. Todo mundo aqui sabe exatamente quem ela é.

Isso me surpreende.

– Ela não vai te causar problemas.

Assinto, ainda absorvendo aquilo.

– Obrigada... de verdade.

Ela me observa por um instante, como se avaliasse algo.

– Quer sair para comemorar hoje?

Hesito.

– Eu não sei... trabalho cedo amanhã.

– Jade – ela me interrompe, com um sorriso firme – você precisa comemorar. Tem gente que daria tudo para estar no seu lugar.

Eu sei.

Mas ainda assim...

– Eu sei, mas...

– Sem “mas”.

Antes que eu possa reagir, ela pega meu celular e digita algo.

– Aqui. Meu número. Te encontro no clube aqui perto.

Ela já está saindo quando completa:

– Não me deixe esperando.

E vai embora.

Dirijo até a casa da Dani com a cabeça cheia demais para acompanhar tudo o que aconteceu no dia. Assim que estaciono, ela já está na porta, esperando, como se não conseguisse ficar parada.

– E então? – ela dispara antes mesmo de eu fechar o portão. – Conseguiu?

– Consegui.

E, no instante seguinte, estamos nos abraçando.

– Eu sabia!

O orgulho na voz dela me desmonta mais do que qualquer outra coisa.

– Você tem que comemorar – ela continua. – Eu não posso ir por causa do João, mas você merece isso.

Ela some no quarto e volta com um envelope.

– Toma.

Abro.

Dinheiro.

– Dani... eu não posso aceitar.

– Pode sim – ela corta. – E vai continuar trabalhando aqui, se quiser... mas só se ficar com isso.

– Dani...

– Estou falando sério.

Olho para ela por um segundo.

E cedo.

– Obrigada.

– Aliás, e essas roupas? Sei que não são minhas e, a julgar pela qualidade, custam uma pequena fortuna.

Dani cruza os braços, apoiando o peso do corpo em uma das pernas enquanto me observa com aquele olhar atento que sempre parece enxergar além do que eu digo. Não é curiosidade vazia, é cuidado. Sempre foi. E talvez seja por isso que a pergunta dela pesa mais do que deveria, porque não é apenas sobre roupas. É sobre tudo o que veio junto com elas.

– O senhor Miller me desafiou a montar um look de editorial... – respondo, tentando manter o tom leve, como se aquilo não tivesse sido uma prova, um teste, uma armadilha elegante. – No final, disse que eu poderia ficar com as roupas.

Vejo o instante exato em que o nome se conecta na mente dela.

– Miller?

Há surpresa, mas também algo mais sutil... um alerta.

– Sim. Gustavo Miller, nosso cliente do café. Acredita?

Dani solta um pequeno riso, mas não é exatamente de humor. É aquele tipo de reação de quem entende o tamanho da situação antes mesmo de colocar em palavras.

– Nunca imaginei.

– Nem eu – admito, e dessa vez não há esforço em esconder o quanto aquilo ainda parece irreal.

Por um breve segundo, o silêncio se instala entre nós, mas não é desconfortável. É carregado. Como se ambas estivéssemos avaliando, cada uma à sua maneira, o que aquilo significa. Porque não são só roupas. Não é só um emprego. É uma porta. E portas, eu aprendi cedo, podem tanto levar à liberdade quanto ao abismo.

Dani suspira, como se decidisse não aprofundar aquilo agora.

– Bom... acho melhor você ir para casa se arrumar para aproveitar. Você precisa conhecer gente da sua idade e se divertir um pouco, Jade. Ainda tem a cópia das chaves daqui de casa?

Assinto, segurando mais forte a alça da bolsa, como se aquele pequeno gesto me ancorasse.

– Tenho sim, por quê?

Ela me encara com firmeza, e dessa vez não há suavidade no olhar.

– Dorme aqui quando sair da balada. Dependendo da hora que você voltar, Sérgio estará em casa... melhor não arriscar.

O nome dele cai como uma sombra entre nós. Sempre cai.

Engulo em seco, mas sorrio mesmo assim.

– Obrigada, Dani. Você é um anjo.

E ela é. Talvez a única coisa realmente boa que me aconteceu nos últimos anos.

Depois de me despedir, saio com a sensação estranha de estar vivendo dois mundos ao mesmo tempo. Um onde tudo continua exatamente igual: perigoso, sufocante, previsível; e outro onde, de repente, possibilidades começam a surgir. E isso, de alguma forma, me assusta mais do que qualquer coisa.

Decido ir para casa enquanto ainda é cedo. Conheço os horários de Sérgio melhor do que gostaria, e sei que a essa hora ele deve estar no bar, afogando qualquer resquício de consciência em álcool barato. Caminho rápido, sempre atenta, como se a qualquer momento algo pudesse dar errado, porque, na minha experiência, geralmente dá.

No caminho, paro em uma loja simples, daquelas onde o cheiro de tecido novo se mistura com o de plástico e tinta. Nada ali grita luxo, mas não é isso que procuro. Nunca foi. Escolho algumas peças básicas, pagas com o dinheiro que Dani me deu – e mesmo aceitando, sinto aquele incômodo familiar no peito, como se estivesse sempre devendo algo ao mundo.

Volto para casa e tranco a porta atrás de mim, respirando fundo antes de finalmente relaxar os ombros. O silêncio é quase estranho. Aproveito.

Espalho as peças sobre a cama e começo a trabalhar.

O cropped preto de mangas compridas e gola alta é simples demais do jeito que está. Pego a tesoura e corto na altura do peito com precisão, como se cada movimento fosse ensaiado. Ajusto a barra, embainho com cuidado para que não desfie, transformando o que era básico em algo intencional. Faço o mesmo com a gola, adicionando pequenos botões na parte de trás, não apenas pela estética, mas pela funcionalidade. A saia de couro falso ganha uma fenda lateral, discreta o suficiente para não ser vulgar, marcante o suficiente para não passar despercebida.

Dou um passo para trás e observo.

– Perfeito.

Me arrumo com calma, como se aquele momento fosse um ritual. As botas de bico fino alongam a silhueta, os cabelos ondulados caem pelos ombros com uma leveza calculada, e a maquiagem – mínima – deixa o destaque para o batom vermelho. Forte. Decidido. Quase como uma armadura.

Quando termino, me encaro no espelho por alguns segundos a mais do que o necessário.

Não é só aparência.

É quem eu poderia ser.

Com o dinheiro que Dani me deu, peço um carro por aplicativo, um pequeno luxo que normalmente não me permitiria e, durante o trajeto, observo a cidade pela janela. Luzes, pessoas, vidas acontecendo. Tão diferentes da minha... ou talvez nem tanto.

Quando chego, Melissa já está me esperando.

– Incrível – ela diz assim que me vê, e o sorriso dela é genuíno. – Seu look está perfeito, Jade. Ousado, sensual e jovial, tudo na mesma medida.

Sinto um leve calor subir pelo meu peito, não de vergonha, mas de algo que esqueci como era: orgulho.

– Obrigada.

– Não precisa agradecer – ela responde, já se virando para caminharmos juntas. – Você é linda, fica bonita em qualquer roupa, tenho certeza.

Solto uma pequena risada, mas não corrijo. Hoje, não.

– Obrigada, Mel... sério. Você me ajudou muito hoje. É muito bom saber que posso contar contigo.

Ela me lança um olhar de canto, quase cúmplice.

– O mérito é todo seu, sabe disso, não é? Eu apenas dei um pequeno toque.

– Um toque imprescindível.

Ela sorri, satisfeita, e me entrega um copo com um líquido rosa que parece tão leve quanto o momento – mas eu sei que nem tudo que parece leve é inofensivo.

– Caipirinha de frutas vermelhas. Já bebeu?

Seguro o copo com cuidado, observando as pequenas bolhas subindo à superfície.

– Eu nunca bebi.

Ela ergue o próprio copo, esperando.

– Bom... então um brinde ao seu sucesso – diz, com um brilho nos olhos – e às primeiras vezes.

Hesito por um segundo.

Não pelo drink.

Mas por tudo que ele representa.

Ainda assim, encosto meu copo no dela..

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