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2 - Isabella

last update 公開日: 2026-03-24 01:10:47

Acordei completamente suada. Nunca entendi como um sonho como aquele me fazia ficar tão desconcertada. Sempre o mesmo sonho. Eu não sentia nada, sequer sabia quem era aquela mulher.

Me senti frustrada, me atrasaria para tomar o desjejum e Carlos odiava quando me atrasava. Eu precisaria ser perfeita pelo menos até conseguir completar meu plano de sair de casa. Manter a pose só mais um pouco. 

Girei a chave da porta duas vezes, o metal frio raspando na fechadura com um som seco que ecoou pelo quarto vazio. O clique final pareceu alto demais. Alto o suficiente para que a casa inteira pudesse ouvir.

Fiquei um segundo encostada na porta, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido. Eu precisava fazer aquilo agora ou iria adiar mais uma vez. 

— Você precisa fazer isso Isabella, é sua única chance. —  sussurrei.

O robe de seda ainda grudava na pele úmida do banho recente. O ar-condicionado batia frio na pele molhada, arrepiando meus braços. Eu devia me secar antes. Mas não tinha tempo. E, no fundo, eu também não queria secar.

Abri a câmera frontal do celular que tinha roubado anos atrás e caminhei até o espelho do closet. Posicionei de lado contra a parede branca, tomando cuidado para que nada do quarto aparecesse no fundo.

Deixei os lábios entreabertos. O batom vermelho destacando meus lábios. Estiquei o pescoço um pouco mais. O robe escorregou o suficiente para revelar a curva do ombro e a clavícula.

Virei de costas para uma segunda foto. O robe aberto até a cintura, a curva da coluna exposta. A luz do abajur criava sombras suaves nas costas, desenhando cada vértebra.

Uma última com a mão esquerda no pescoço, dedos abertos, como se eu estivesse me oferecendo. O tecido fino e úmido do robe grudava no corpo, deixando o contorno dos seios visível. Uma gota de água escorria do pescoço até o decote e capturou a luz.

Nenhum rosto completo. Nenhum detalhe que pudesse dizer quem eu era de verdade. Só fragmentos — suficientes para que qualquer um interpretasse como quisesse.

Inocente. Sedutora. Sexy.

Não me importava, precisava apenas do interesse. 

Abri o site e criei uma conta.

A legenda era curta e direta: Leilão Único – Virgindade. 22 anos. Nunca tocada. Envie DM com comprovação financeira para participar. Prova médica garantida. Quem pagar mais, leva tudo.

Meu dedo pairou sobre o botão Publicar.

Por um instante, pensei em meu pai e em como eu queria ver ele humilhado. Com certeza estaria se irritando ao chegar na sala de jantar e não me ver sentada obediente, como sempre. 

Cliquei ao mesmo tempo em que ouvia passos na escada. Pesados e lentos. Ele estava com raiva. 

Troquei o robe às pressas por um vestido simples de algodão, o mesmo que meu pai insistia que eu usasse sempre. O tecido fino marcava cada curva do corpo. Não tinha escolha. Era o que ele queria. 

Antes de sair, peguei o celular e postei mais uma foto sem nem olhar direito o resultado. Deixando o celular escondido em uma gaveta de meias. 

Depois desci correndo, com os pés descalços no piso que estava frio.

Carlos estava na cabeceira da mesa já com o prato pela metade. O olhar fixo em mim, analisando cada detalhe como se eu fosse um relógio novo da vitrine da relojoaria.

Sentei na cadeira logo depois da dele. Os criados serviram minhas costumeiras frutas. A mão dele pousou no meu braço, os dedos frios apertando com força.

— Você desceu assim? Cabelo molhado, pele brilhando como se tivesse acabado de sair de uma cena vulgar.

Ele passou o polegar pela minha nuca, recolhendo uma gota de água com nojo.

— Eu já disse mil vezes: uma mulher não aparece na mesa parecendo uma meretriz. Aparência é patrimônio. Se você não mantém o pacote impecável, desvaloriza tudo que eu construí.

Engoli em seco.

— Endireite as costas. Ombros para trás. Peito erguido.

Ele corrigiu minha postura com o garfo, cutucando meu ombro.

— Assim. Exatamente assim. É assim que se senta alguém que vale dinheiro. Não uma qualquer.

Ele soltou meu braço, mas o olhar continuou me medindo: do decote marcado para a cintura, depois para as coxas delineadas pelo vestido. Eu continuava com a mesma expressão sem emoção de sempre. 

Por dentro eu estava uma pilha carregada. A cabeça subia para o celular ou viaja para o plano que tinha. 

Ele voltou a falar da empresa. Lucros recorde. Reunião amanhã com investidores.

Eu assenti sem me importar muito com o que era falado.

— Você parece distante. Se estiver escondendo algo, Isabella… eu descubro.

Ele se inclinou um pouco.

— E quando descubro, você sabe que não há segunda chance para erro.

— Estou cansada, papai. Desculpe.

Ele riu, desdenhoso. O riso ecoou pela sala quase vazia.

— Cansada? Cansaço é para empregados. Você só precisa ser perfeita. Se arrume melhor, você vem comigo. 

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