INICIAR SESIÓNAcordei completamente suada. Nunca entendi como um sonho como aquele me fazia ficar tão desconcertada. Sempre o mesmo sonho. Eu não sentia nada, sequer sabia quem era aquela mulher.
Me senti frustrada, me atrasaria para tomar o desjejum e Carlos odiava quando me atrasava. Eu precisaria ser perfeita pelo menos até conseguir completar meu plano de sair de casa. Manter a pose só mais um pouco.
Girei a chave da porta duas vezes, o metal frio raspando na fechadura com um som seco que ecoou pelo quarto vazio. O clique final pareceu alto demais. Alto o suficiente para que a casa inteira pudesse ouvir.
Fiquei um segundo encostada na porta, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido. Eu precisava fazer aquilo agora ou iria adiar mais uma vez.
— Você precisa fazer isso Isabella, é sua única chance. — sussurrei.
O robe de seda ainda grudava na pele úmida do banho recente. O ar-condicionado batia frio na pele molhada, arrepiando meus braços. Eu devia me secar antes. Mas não tinha tempo. E, no fundo, eu também não queria secar.
Abri a câmera frontal do celular que tinha roubado anos atrás e caminhei até o espelho do closet. Posicionei de lado contra a parede branca, tomando cuidado para que nada do quarto aparecesse no fundo.
Deixei os lábios entreabertos. O batom vermelho destacando meus lábios. Estiquei o pescoço um pouco mais. O robe escorregou o suficiente para revelar a curva do ombro e a clavícula.
Virei de costas para uma segunda foto. O robe aberto até a cintura, a curva da coluna exposta. A luz do abajur criava sombras suaves nas costas, desenhando cada vértebra.
Uma última com a mão esquerda no pescoço, dedos abertos, como se eu estivesse me oferecendo. O tecido fino e úmido do robe grudava no corpo, deixando o contorno dos seios visível. Uma gota de água escorria do pescoço até o decote e capturou a luz.
Nenhum rosto completo. Nenhum detalhe que pudesse dizer quem eu era de verdade. Só fragmentos — suficientes para que qualquer um interpretasse como quisesse.
Inocente. Sedutora. Sexy.
Não me importava, precisava apenas do interesse.
Abri o site e criei uma conta.
A legenda era curta e direta: Leilão Único – Virgindade. 22 anos. Nunca tocada. Envie DM com comprovação financeira para participar. Prova médica garantida. Quem pagar mais, leva tudo.
Meu dedo pairou sobre o botão Publicar.
Por um instante, pensei em meu pai e em como eu queria ver ele humilhado. Com certeza estaria se irritando ao chegar na sala de jantar e não me ver sentada obediente, como sempre.
Cliquei ao mesmo tempo em que ouvia passos na escada. Pesados e lentos. Ele estava com raiva.
Troquei o robe às pressas por um vestido simples de algodão, o mesmo que meu pai insistia que eu usasse sempre. O tecido fino marcava cada curva do corpo. Não tinha escolha. Era o que ele queria.
Antes de sair, peguei o celular e postei mais uma foto sem nem olhar direito o resultado. Deixando o celular escondido em uma gaveta de meias.
Depois desci correndo, com os pés descalços no piso que estava frio.
Carlos estava na cabeceira da mesa já com o prato pela metade. O olhar fixo em mim, analisando cada detalhe como se eu fosse um relógio novo da vitrine da relojoaria.
Sentei na cadeira logo depois da dele. Os criados serviram minhas costumeiras frutas. A mão dele pousou no meu braço, os dedos frios apertando com força.
— Você desceu assim? Cabelo molhado, pele brilhando como se tivesse acabado de sair de uma cena vulgar.
Ele passou o polegar pela minha nuca, recolhendo uma gota de água com nojo.
— Eu já disse mil vezes: uma mulher não aparece na mesa parecendo uma meretriz. Aparência é patrimônio. Se você não mantém o pacote impecável, desvaloriza tudo que eu construí.
Engoli em seco.
— Endireite as costas. Ombros para trás. Peito erguido.
Ele corrigiu minha postura com o garfo, cutucando meu ombro.
— Assim. Exatamente assim. É assim que se senta alguém que vale dinheiro. Não uma qualquer.
Ele soltou meu braço, mas o olhar continuou me medindo: do decote marcado para a cintura, depois para as coxas delineadas pelo vestido. Eu continuava com a mesma expressão sem emoção de sempre.
Por dentro eu estava uma pilha carregada. A cabeça subia para o celular ou viaja para o plano que tinha.
Ele voltou a falar da empresa. Lucros recorde. Reunião amanhã com investidores.
Eu assenti sem me importar muito com o que era falado.
— Você parece distante. Se estiver escondendo algo, Isabella… eu descubro.
Ele se inclinou um pouco.
— E quando descubro, você sabe que não há segunda chance para erro.
— Estou cansada, papai. Desculpe.
Ele riu, desdenhoso. O riso ecoou pela sala quase vazia.
— Cansada? Cansaço é para empregados. Você só precisa ser perfeita. Se arrume melhor, você vem comigo.
Ainda estávamos a uma distância considerável da parede de pedras quando o susto veio.A plantação, que de longe parecia apenas um campo de cultivo comum, se revelou muito mais densa e ocupada do que as imagens de satélite tinham mostrado. Homens e mulheres trabalhavam entre as fileiras altas, vestidos com roupas precárias, rasgadas e sujas, que mal protegiam do sol já crescente. Chapéus velhos, camisas esfarrapadas, calças remendadas.Nenhum deles parecia se importar com nossa presença, ou, pelo menos, fingiam não perceber. Continuavam curvados sobre a terra, as mãos calejadas mexendo na plantação, o olhar baixo.Até que um deles se assustou.Um dos meus homens passou perto demais. O trabalhador ergueu a cabeça de repente, os olhos arregalados. Abriu a boca… e parou. Não gritou. Não falou. Apenas abriu. A boca estava quase toda preta. E não havia língua.
Eu entrei no carro e bati a porta com mais força do que deveria. A revolta queimava no peito como se fosse fogo vivo.Eu amava aquele homem mas odiava ficar para trás. Odiava a sensação de inutilidade enquanto Alessandro e os homens entravam na plantação em direção ao nosso filho.Eu queria estar andando ao lado dele, sentindo o orvalho nas botas, escalando aquelas pedras, entrando na casa. Queria ser a primeira a segurar o bebê. Queria proteger, lutar, fazer alguma coisa além de esperar.Mesmo que eu pudesse correr e seguir atrás deles, eu sabia que a cabeça de Enzo estaria a preço. Alessandro não perdoaria. Nem se tudo desse certo no final. Ele cobraria. E Enzo, por mais leal que fosse, não merecia pagar por minha teimosia.Então eu fiquei. Revoltada.Com as mãos fechadas com tanta força que as unhas marcavam as palmas.
Estávamos parados na beira de uma estrada secundária, a uma distância segura da propriedade. Eu estava confiando inteiramente e cegamente no plano de Marco.O terreno se dividia de forma estranha: de um lado a plantação rural, densa e úmida e do outro, a casa propriamente dita. Não era exatamente um muro o que separava os dois espaços, mas um terreno elevado, coberto de pedras irregulares, que obrigaria qualquer um a escalar com cuidado se quisesse entrar de forma sorrateira.Era o tipo de obstáculo que forçava lentidão e silêncio absoluto.Qualquer passo em falso, qualquer pedra solta, poderia alertar quem estivesse do outro lado.Diferente de outras operações, desta vez estávamos fazendo tudo durante o dia. Quer dizer, o sol começava a se levantar no horizonte, pinta
Quatro horas se passaram, e foram voando. Minha percepção de tempo tinha ido para o brejo em meio à ansiedade de recuperar o nosso filho, de conhecê-lo de verdade e finalmente tê-lo nos braços.Cada minuto parecia uma eternidade e, ao mesmo tempo, desaparecia sem eu perceber.Todos nós estávamos nos preparando a cada segundo que passava. Eu desmontava, limpava e deixava pronto cada arma que tinha disponível dentro de casa. A maioria delas estava exatamente no mesmo lugar em que eu guardava, mas Isabella tinha adquirido um pequeno gosto em esconder algumas daquelas que eu acabava me esquecendo de guardar depois de dormir com ela. Ela com certeza achava que eu não sabia. E até mesmo essas eu estava limpando.Eu fingia não saber desse pequeno segredinho dela. Assim que Enzo voltasse com as informações, nós
A porta da sala de estar se abriu com um estrondo.Enzo entrou quase correndo,o rostoestavavermelho, a respiração curtapor estar claramente correndo, segurando um maço grosso de fotos impressas nas mãos. Ele não disse uma palavra de cumprimento. Apenas caminhou direto até a mesa de centro e começou a espalhar as imagens sobre a madeira, uma após a outra, com movimentos rápidos e precisos.— Olhem isso — falou, a voz carregada de urgência. — Agora.Eu me levantei do so
Três dias se passaram desde a reunião. Três dias de tensão, sono interrompido e uma raiva constante que eu mal conseguia conter.Eu só me controlava por Isabella.Eu estava na sala novamente, andando de um lado para o outro, quando Enzo entrou com o laptop debaixo do braço e uma expressão que misturava cansaço e esperança.— Consegui uma localizaçãoexata— disse ele, sem rodeios.Todos se endireitaram. Isabella, ao meu lado, apertou minha coxa por baixo da mesa. Marco e Lucca parar







