LOGINEu estava no escritório do meu pai — agora meu — com o punho sangrando contra a parede de mármore. Cada soco ecoava como um tiro. O sangue escorria pelos nós dos dedos, quente e pegajoso, se misturando ao suor. Eu queria quebrar tudo.
A mesa de mogno antigo, as janelas blindadas que davam para o jardim escuro, os retratos dos ancestrais Rossi que me olhavam com aqueles olhos mortos, julgadores. Queria quebrar os pescoços daqueles conselheiros velhos do caralho, que ainda fediam a cigarro e vinho barato.
“Você deve se casar. Para fortalecer a liderança.”
Eles tinham dito isso com a cara limpa, como se fosse uma porra de uma reunião de negócios casual. Menos de três semanas depois de enterrarmos o velho no cemitério da família e já queriam me enfiar numa aliança com alguma vadia de família antiga.
Uma aliança política, diziam. Para unir as famílias, para solidificar o império que eu herdei aos 32 anos, depois de anos de sangue e balas.
Minha mãe? Mandada para um esconderijo na antes mesmo da guerra das máfias estourar de vez. Não podia voltar. Não podia nem chorar o marido direito, não podia sentar ao lado do túmulo como uma viúva normal. E esses filhos da puta me pressionando como se eu fosse um garoto de dezesseis anos precisando de babá.
“Você precisa de uma esposa forte, Alessandro. Alguém que traga alianças.”
Forte? Eu era forte o suficiente para esmagar todos eles com uma mão só.
Meu peito subia e descia, o ar saindo em golfadas quentes. Joguei uma garrafa de uísque contra a parede, vendo o vidro explodir em mil pedaços, o líquido âmbar escorrendo como sangue. Mas nada aliviava.
Enzo, Marco e Lucca estavam zuando pelo grupo, dava para sentir o celular vibrando no bolso. Os mesmos que cresceram comigo, que treinaram nas academias, que mataram ao meu lado nas noites em que o império do meu pai sangrava. Eles estavam rindo, mandando prints e emojis.
“Olha essa aí. Tá leiloando a virgindade. Doce pra caralho. Olha os comentários: ‘Eu pagaria pra ver essa boquinha gemendo.’ Haha, que vadiazinha.”
Eu quase joguei o celular na parede também. Mas parei. Fiquei curioso. Abri o link. Lá estava ela.
A primeira foto com ela sorrindo para câmera, os lábios vermelhos, mostrava o pescoço disponível para ser beijado. O robe escorregava e a clavícula estava marcada, estava muito magra. Mas o cabelo molhado estava estragando a seriedade da cena.
Meu pau latejou imediatamente dentro da calça, uma reação traiçoeira que me fez rosnar baixo. Rolei para baixo.
Outra foto: ela estava de costas, o cabelo ainda molhado. A bunda empinada como uma oferta, virando o rosto com uma expressão de vergonha fingida. As coxas tremendo levemente — ou era imaginação minha? — lisas, sem uma marca, perfeitas para deixar hematomas com meus dedos apertando forte enquanto eu a fodia contra uma parede.
Eu parei de respirar por um segundo. Meu pau endureceu mais, dolorosamente, enquanto minha mente corria para lugares escuros. Eu imaginava ela ali, se tocando antes de clicar, molhando a calcinha só de pensar na atenção que ia receber. Ela devia adorar isso, não?
Aqueles olhos inocentes escondendo uma puta faminta por olhares, por comentários sujos. “Olha como ela sorri”, eu pensei, zombando no rosto dela. “Ela deve se masturbar lendo esses comentários. Deve gozar imaginando mãos estranhas no corpo dela.”
Mas a ideia me enfureceu. Passei a odiava cada pervertido que comentava. Eu segui cada um deles. Eu os caçaria um a um.
Imaginar isso era como orgasmos em dose dupla: primeiro o prazer de possuí-la, segundo a êxtase de torturar aqueles vermes. Eu os penduraria pelos pés em um armazém, cortaria pedaços devagar, os faria implorar enquanto eu contava como ela era minha agora. Meu pau pulsava só de pensar.
Passei horas no escritório escuro, com a luz do celular iluminando meu rosto suado. Zoom em cada detalhe. Na curva do pescoço dela, branca e delicada, perfeita. Na forma como os lábios se entreabriam. Nos seios, não muito grandes mas firmes, os mamilos rosados visíveis através do robe.
Eu imaginava o cheiro dela, doce e inexplorado, molhada só de posar. Ela devia gostar, sim. Devia se contorcer na cama, tocando-se, fantasiando com o comprador que a dominaria.
Eu a compraria, sim. Pagaria o que fosse necessário. Dobraria o lance, triplicaria, faria um contrato que a prendesse a mim. Mas na primeira noite, eu a levaria para minha cama, amarraria os pulsos dela com seda e a foderia devagar, estocada por estocada, até romper aquela barreira virgem, até ela chorar e gozar ao mesmo tempo, misturando dor e prazer até ela não saber mais a diferença.
Eu salvei todas as fotos. Criei uma pasta só pra ela, no meu celular. Pesquisei sozinho. Não mandei Enzo ou Marco. Eu queria cada informação que conseguisse.
Mas nada. Nenhum outro perfil estava ativo vinculado ao celular que ela usava. O número não tinha sido vinculado ao perfil. Isso me deixava ainda mais louco. Seria uma farsa?
Eu imaginava ela de joelhos, os olhos erguidos para mim, suplicando por mais. Eu a faria engolir meu pau até o fundo da garganta, até engasgar, até aprender que prazer vem com submissão.
Imaginava espalhando as pernas dela, lambendo aquela buceta virgem devagar, torturando o clitóris com a língua até ela implorar para eu parar, mas eu não pararia.
Gozaria dentro dela, marcando-a como minha, enchendo-a até escorrer pelas coxas. E depois, no dia seguinte, a faria desfilar ao meu lado, vestida como uma dama.
Abri o grupo de novo. Mandei áudio, voz baixa e gelada: “Escutem aqui, seus filhos da puta. Aquela garota? É minha. Qualquer um de vocês que der lance, que mandar mensagem, que respirar perto dela… eu mesmo arranco a pele de vocês com uma faca cega. Entenderam? Eles queriam que eu casasse, vão ter um casamento!”
Silêncio total no grupo. Bom.
Depois, mandei outra mensagem, agora pro grupo maior — os capos, os soldados, todo mundo que tinha acesso ao leilão underground. Seria ainda melhor do que eu tinha pensado, todos eles humilhados por serem trocados por uma simples puta comprada.
“FlorIntocada está fora do mercado. Quem der um lance nela, quem olhar pra ela por mais de dois segundos, quem ousar pensar em tocar nela… vai desejar ter nascido morto. Eu não divido o que é meu.”
Fechei o celular. Meu punho ainda sangrava, mas agora eu sorria. Porque pela primeira vez desde que meu pai morreu, eu tinha um plano que não era o deles. E ia começar com ela. Minha doce, inocente virgem.
Logo, ela ia descobrir que o monstro que a comprou não ia só foder o corpo dela. Ia foder a alma, destruir aquele mundinho perfeitinho, de poses tímidas e sorrisos recatados.
Eu me sentei na cadeira do meu pai, acendi um cigarro, e olhei para a foto dela no celular mais uma vez.
“Você vai ser minha. E vai amar cada segundo de dor que eu te der.”
O rosto dela mudou em um segundo. Os olhos se arregalaram, a boca se abriu num “o” silencioso. A surpresa pura, crua, como se eu tivesse aparecido do nada no meio de um sonho seguro. Mas a reação de choque era totalmente ensaiada e artificial.A peruca ruiva ainda estava na cabeça de manequim, o cabelo verdadeiro dela estava a mostra. Um loiro um pouco sem vida e mais escuro do que eu me lembrava, com fios brancos um pouco aparente. Um pouco bagunçado por causa do travesseiro. Ela estava um pouco mais descuidada e menos vaidosa do que era, talvez por conta da peruca que tanto usa. Ela se sentou na cama de um pulo, puxando o lençol contra o peito.Eu a olhei e senti exatamente o que sentia quando a via sua fotos atuais: desprezo. Uma repulsa profunda, quase física, que subia pela garganta junto com a bilis. Não me importava o sangue. Não importava que ela me tivesse gerado. Aquela mulher era veneno puro. Cada linha do rosto dela me lembrava traição, mentira e a forma como ela tinha tr
Ficar parado esperando seria pior. Estávamos vulneráveis demais naquele ponto, escondidos atrás da pouca vegetação. Então dei o sinal e saímos nos aproximando aos poucos, usando a sombra das árvores e o movimento natural do amanhecer.Os empregados começavam a circular pelo terreno e pareciam pouco atentos ao que acontecia ao redor deles. Jardineiros, cozinheiras, gente carregando baldes e ferramentas passavam de um lado para o outro. Ninguém parecia interessado em mais alguns homens de roupa escura e prática.Vitoriosamente estavamos passamos despercebidos no meio deles. Pura sorte. Um grupo de seguranças atravessou o caminho à nossa frente, indo preguiçosamente em direção à frente da casa. As roupas deles eram muito semelhantes às nossas, todas pretas, discretas, sem identificação. Era o momento de aproveitarmos a oportunidade e nos encaixamo no fluxo e entramos pela porta de serviço junto com outros funcionários, como se fizéssemos parte da rotina matinal.Por dentro, a casa tinha
Subir aquelas pedras era mais difícil do que eu imaginava.Eu não era alpinista. Nunca tinha escalado nada além de muros baixos em operações rápidas. Agora, cada movimento exigia força real. Eu precisava fazer força para cima e para sustentar todo o meu corpo com as minhas pernas em um angulo de quase 90° graus. As pedras eram irregulares, cobertas de musgo úmido pelo orvalho da manhã, e escorregavam sob as botas.E eu estava amarrado pela cintura a uma corda fina e resistente de aço que ligava meu corpo ao homem à minha frente. Ele tinha certo conhecimento, de forma bem básica mas tinha, e eu estava apostando que isso bastaria. Ele subia com mais fluidez, testando os pontos de apoio, indicando com a mão onde eu deveria segurar.Abaixo de nós, o caos se instaurava.Gritos. Tiros distantes. O som de gente correndo entre as fileiras da plantação. O segundo grupo já estava agindo. Eu precisava subir rápido. Cada segundo perdido ali era um segundo a mais para alguém do outro lado perceber
Ainda estávamos a uma distância considerável da parede de pedras quando o susto veio.A plantação, que de longe parecia apenas um campo de cultivo comum, se revelou muito mais densa e ocupada do que as imagens de satélite tinham mostrado. Homens e mulheres trabalhavam entre as fileiras altas, vestidos com roupas precárias, rasgadas e sujas, que mal protegiam do sol já crescente. Chapéus velhos, camisas esfarrapadas, calças remendadas.Nenhum deles parecia se importar com nossa presença, ou, pelo menos, fingiam não perceber. Continuavam curvados sobre a terra, as mãos calejadas mexendo na plantação, o olhar baixo.Até que um deles se assustou.Um dos meus homens passou perto demais. O trabalhador ergueu a cabeça de repente, os olhos arregalados. Abriu a boca… e parou. Não gritou. Não falou. Apenas abriu. A boca estava quase toda preta. E não havia língua.O reconhecimento bateu como um soco no estômago. Essa era uma das grande punições que usavamos para grandes traidores, uma vergonha p
Eu entrei no carro e bati a porta com mais força do que deveria. A revolta queimava no peito como se fosse fogo vivo.Eu amava aquele homem mas odiava ficar para trás. Odiava a sensação de inutilidade enquanto Alessandro e os homens entravam na plantação em direção ao nosso filho.Eu queria estar andando ao lado dele, sentindo o orvalho nas botas, escalando aquelas pedras, entrando na casa. Queria ser a primeira a segurar o bebê. Queria proteger, lutar, fazer alguma coisa além de esperar.Mesmo que eu pudesse correr e seguir atrás deles, eu sabia que a cabeça de Enzo estaria a preço. Alessandro não perdoaria. Nem se tudo desse certo no final. Ele cobraria. E Enzo, por mais leal que fosse, não merecia pagar por minha teimosia.Então eu fiquei. Revoltada.Com as mãos fechadas com tanta força que as unhas marcavam as palmas.
Estávamos parados na beira de uma estrada secundária, a uma distância segura da propriedade. Eu estava confiando inteiramente e cegamente no plano de Marco.O terreno se dividia de forma estranha: de um lado a plantação rural, densa e úmida e do outro, a casa propriamente dita. Não era exatamente um muro o que separava os dois espaços, mas um terreno elevado, coberto de pedras irregulares, que obrigaria qualquer um a escalar com cuidado se quisesse entrar de forma sorrateira.Era o tipo de obstáculo que forçava lentidão e silêncio absoluto.Qualquer passo em falso, qualquer pedra solta, poderia alertar quem estivesse do outro lado.Diferente de outras operações, desta vez estávamos fazendo tudo durante o dia. Quer dizer, o sol começava a se levantar no horizonte, pinta







