INICIAR SESIÓNEntrei correndo no quarto e tranquei a porta com duas voltas na chave. Mais uma vez tive a impressão de que a casa inteira podia me ouvir, mesmo eu tentando fazer o menor barulho possível.
Minhas mãos tremiam quando coloquei a bolsa na cadeira. O contrato, ou melhor, o bolo de mais de quarenta folhas e que pesava como uma sentença, o coloquei na escrivaninha. Eu precisava ler. Precisava entender o que tinha assinado. Precisava saber o tamanho da armadilha que tinha aceitado por vinte e cinco milhões.
Eu sabia que era uma armadilha. O vestido de cetim ainda grudava na minha pele.
As primeiras páginas eram formais: dados, cláusulas de confidencialidade, transferência de valor. Mas quanto mais eu lia, mais meu estômago embrulhava. As palavras “direito de posse”, “exclusividade física e emocional”, “proibições de contato com terceiros sem autorização prévia” estavam ali quando passei o olho.
Eu era o objeto. Ele, o dono. Eu tentava me convencer que era só papel. O dinheiro já estava na conta. Eu ainda podia sumir. Mas o medo crescia.
“E se Alessandro fosse pior que o meu pai? E se o contrato fosse uma coleira invisível?”
Um barulho na casa inteira me fez congelar.
A porta da frente bateu com força. Algum vidro se quebrou no corredor. Xingamentos altos ecoaram pelas paredes, a voz grossa do meu pai:
— Filha da puta! Incompetente! Como ousa me passar a perna assim?
Carlos. Chegando cedo. Muito cedo.
Senti o sangue gelar. Lembrei da roupa que eu ainda estava usando: o vestido de cetim preto, justo, brilhante. Meu pai nunca me via assim dentro de casa. Ele odiava “excesso”. Se ele entrasse e me visse vestida para sair… Se visse a bolsa…
Levantei rápido. Tirei o vestido em segundos e joguei no closet. Vesti um moletom cinza largo e uma calça de pijama velha, a roupa que eu usava para estudar. Passei os dedos no cabelo para bagunçá-lo um pouco, como se tivesse passado o dia inteiro ali.
Abri alguns livros na mesa: inglês, desenho técnico, um romance qualquer. Espalhei lápis e caderno para parecer ocupada.
Mas a bolsa ainda estava na cadeira, exposta. O celular dentro dela. O contrato em cima da mesa.
Batidas fortes na porta. Esmurradas. A madeira tremia. Eu travei. Só existia medo.
— Isabella! Abre essa porra de porta agora!
Não respondi. Em vez disso, peguei a bolsa depressa, sentei em cima dela na cadeira da escrivaninha, o peso do meu corpo pressionando o couro contra a madeira. Meu coração disparado.
Se ele entrasse e visse a bolsa ali, saberia que algo estava errado. Eu nunca estaria com uma bolsa dentro do quarto assim, ainda mais uma pequena que uso para sair.
Com o coração batendo forte, empurrei o contrato para baixo da cama. Minha sorte era que os lençóis e a colcha iam até o chão.
A fechadura rangeu. Ele tinha a chave reserva. A porta se abriu com violência. Meu pai entrou, os olhos injetados, o rosto vermelho de raiva e álcool. Parou na entrada, me encarando.
Mantive os olhos fixos no livro aberto à minha frente, fingindo ler, mas sentindo o peso do olhar dele como uma lâmina.
O celular vibrou debaixo de mim. Insistente. Uma, duas, três vezes. Alessandro, só podia ser ele. Apertei as coxas com mais força contra a bolsa, tentando abafar, mas o tremor continuava teimoso.
Carlos deu um passo para dentro. Olhou ao redor: a cama desarrumada, os livros espalhados, o closet entreaberto.
Por um momento, tive certeza de que ele entraria de vez, reviraria tudo, abriria gavetas, levantaria o colchão. Meu estômago se contraiu tanto que doeu.
Mas ele parou. Respirou fundo, como se tentasse se controlar. Passou a mão no rosto e murmurou algo incompreensível. A raiva ainda estava lá.
— Inútil… igual à mãe — rosnou baixo, mais para si mesmo.
Deu meia-volta. Bateu a porta com tanta força que o quadro na parede tremeu.
Fiquei imóvel por longos segundos, ouvindo os passos dele se afastarem pelo corredor, a porta do escritório batendo em seguida, o som da garrafa sendo jogada na parede.
Só então me movi. Levantei devagar, as pernas moles. Peguei a bolsa, abri o travesseiro da cama e enfiei tudo lá dentro — o celular ainda vibrava loucamente.
Ótimo. Nessa noite seriam dois homens ridículos para lidar.
Minha respiração estava descompassada, o peito subindo e descendo rápido demais. Eu achava que ele tinha descoberto.
“Mas como poderia? Será que viu algo no meu rosto? E se tivesse sentido o cheiro do perfume caro do Alessandro que ainda pairava na minha pele?”
Não toquei no celular nem no contrato pelo resto do dia. Fiquei alerta, ouvidos atentos a qualquer barulho na casa. Medo de tudo: do meu pai, de Alessandro, de mim mesma.
Na hora da janta, meu pai estava irredutível. Ele me pegou pelo braço deixando marcas. Não falava qual era o problema. Só gritava e xingava a torto e a direito.A raiva em mim crescia.
De noite, sem trancar a porta dessa vez, guardei a bolsa e peguei o celular que ainda vibrava. Várias mensagens do Alessandro. Hesitante e um tanto chorosa, começei a ler.
“Porque não me responde”, “Chegou bem?”, “Me responda, quando eu mandar”, “Atenda o celular.”, “Você não irá fugir de mim.”, “Acredite, você não pisaria fora de casa sem que eu soubesse ou te pegasse.”, “Me responda”.
Digitei rápido uma resposta curta, que para ele não dizia quase nada:
“Ok, tudo bem.”
Ele demorou alguns minutos para responder. Quando veio, foi curto:
“Boa noite.”
Devolvi o boa noite e coloquei o celular de volta ao travesseiro. Eu estava na escuridão que era o medo.
Ainda estávamos a uma distância considerável da parede de pedras quando o susto veio.A plantação, que de longe parecia apenas um campo de cultivo comum, se revelou muito mais densa e ocupada do que as imagens de satélite tinham mostrado. Homens e mulheres trabalhavam entre as fileiras altas, vestidos com roupas precárias, rasgadas e sujas, que mal protegiam do sol já crescente. Chapéus velhos, camisas esfarrapadas, calças remendadas.Nenhum deles parecia se importar com nossa presença, ou, pelo menos, fingiam não perceber. Continuavam curvados sobre a terra, as mãos calejadas mexendo na plantação, o olhar baixo.Até que um deles se assustou.Um dos meus homens passou perto demais. O trabalhador ergueu a cabeça de repente, os olhos arregalados. Abriu a boca… e parou. Não gritou. Não falou. Apenas abriu. A boca estava quase toda preta. E não havia língua.
Eu entrei no carro e bati a porta com mais força do que deveria. A revolta queimava no peito como se fosse fogo vivo.Eu amava aquele homem mas odiava ficar para trás. Odiava a sensação de inutilidade enquanto Alessandro e os homens entravam na plantação em direção ao nosso filho.Eu queria estar andando ao lado dele, sentindo o orvalho nas botas, escalando aquelas pedras, entrando na casa. Queria ser a primeira a segurar o bebê. Queria proteger, lutar, fazer alguma coisa além de esperar.Mesmo que eu pudesse correr e seguir atrás deles, eu sabia que a cabeça de Enzo estaria a preço. Alessandro não perdoaria. Nem se tudo desse certo no final. Ele cobraria. E Enzo, por mais leal que fosse, não merecia pagar por minha teimosia.Então eu fiquei. Revoltada.Com as mãos fechadas com tanta força que as unhas marcavam as palmas.
Estávamos parados na beira de uma estrada secundária, a uma distância segura da propriedade. Eu estava confiando inteiramente e cegamente no plano de Marco.O terreno se dividia de forma estranha: de um lado a plantação rural, densa e úmida e do outro, a casa propriamente dita. Não era exatamente um muro o que separava os dois espaços, mas um terreno elevado, coberto de pedras irregulares, que obrigaria qualquer um a escalar com cuidado se quisesse entrar de forma sorrateira.Era o tipo de obstáculo que forçava lentidão e silêncio absoluto.Qualquer passo em falso, qualquer pedra solta, poderia alertar quem estivesse do outro lado.Diferente de outras operações, desta vez estávamos fazendo tudo durante o dia. Quer dizer, o sol começava a se levantar no horizonte, pinta
Quatro horas se passaram, e foram voando. Minha percepção de tempo tinha ido para o brejo em meio à ansiedade de recuperar o nosso filho, de conhecê-lo de verdade e finalmente tê-lo nos braços.Cada minuto parecia uma eternidade e, ao mesmo tempo, desaparecia sem eu perceber.Todos nós estávamos nos preparando a cada segundo que passava. Eu desmontava, limpava e deixava pronto cada arma que tinha disponível dentro de casa. A maioria delas estava exatamente no mesmo lugar em que eu guardava, mas Isabella tinha adquirido um pequeno gosto em esconder algumas daquelas que eu acabava me esquecendo de guardar depois de dormir com ela. Ela com certeza achava que eu não sabia. E até mesmo essas eu estava limpando.Eu fingia não saber desse pequeno segredinho dela. Assim que Enzo voltasse com as informações, nós
A porta da sala de estar se abriu com um estrondo.Enzo entrou quase correndo,o rostoestavavermelho, a respiração curtapor estar claramente correndo, segurando um maço grosso de fotos impressas nas mãos. Ele não disse uma palavra de cumprimento. Apenas caminhou direto até a mesa de centro e começou a espalhar as imagens sobre a madeira, uma após a outra, com movimentos rápidos e precisos.— Olhem isso — falou, a voz carregada de urgência. — Agora.Eu me levantei do so
Três dias se passaram desde a reunião. Três dias de tensão, sono interrompido e uma raiva constante que eu mal conseguia conter.Eu só me controlava por Isabella.Eu estava na sala novamente, andando de um lado para o outro, quando Enzo entrou com o laptop debaixo do braço e uma expressão que misturava cansaço e esperança.— Consegui uma localizaçãoexata— disse ele, sem rodeios.Todos se endireitaram. Isabella, ao meu lado, apertou minha coxa por baixo da mesa. Marco e Lucca parar







