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CAPÍTULO 7

Author: Rafael Machado
Um sorriso frio apareceu no canto da boca de Fernando. Ele disse:

— Eu preciso te dar relatório de tudo o que eu faço agora?

Essa frase fez Celina perder a paciência na hora. Ela se levantou de repente e o repreendeu:

— Que tipo de atitude é essa? Eu estou falando direito com você, e você…

De repente, a voz dela travou. A expressão mudou para surpresa.

Fernando riu com ironia.

— O quê? Lembrou?

O rosto dela ficou tenso.

Ela tinha lembrado.

Aquela frase ela mesma tinha dito, palavra por palavra, quinze dias atrás.

Naquele fim de semana raro, Fernando tinha preparado uma mesa cheia de comida. O plano era jantar e depois levar a família para passear.

Antes mesmo de começarem a comer, Celina recebeu a ligação de Xavier.

Ele disse que tinha cortado a perna sem querer.

Celina ficou ansiosa na hora, pegou a bolsa e já ia sair.

Fernando não concordou. Perguntou várias vezes para onde ela ia.

Ela, impaciente, respondeu irritada:

— Para de perguntar. Eu preciso te dar relatório de tudo o que eu faço?

E saiu batendo a porta.

Sem saber que, dentro de casa, Fernando ficou parado ali por muito, muito tempo.

De volta ao presente.

Um traço de culpa passou pelo rosto de Celina, mas ela não cedeu.

— Mesmo assim, você devia ter me avisado. Eu voltei mais cedo hoje e não te encontrei.

Normalmente, depois de deixar a filha na escola, Fernando voltava para casa. Ou fazia tarefas, ou lia.

Mas hoje, quando Celina voltou antes do horário, viu que os pratos da manhã continuavam sobre a mesa. Ele não tinha passado em casa o dia inteiro.

Fernando balançou a cabeça, foi até a mesa recolher a louça e disse, em tom neutro:

— Você devia aprender a cuidar da casa. Ou contratar uma empregada.

Celina franziu a testa.

— O que isso quer dizer? Você está aqui, não está?

Fernando parou o que estava fazendo, virou-se para ela e disse com seriedade:

— Eu nasci pra viver fazendo trabalho de casa?

O olhar dele estava afiado.

Celina sentiu um arrepio.

Durante todos esses anos, o olhar dele sempre foi cheio de suavidade.

Agora… o que tinha mudado?

Celina sentiu que alguma coisa estava mudando.

Era uma mudança que ela não conseguia ver nem tocar, e isso fez surgir uma leve inquietação dentro dela.

— Eu não quis dizer isso.

Ela respirou fundo, afastando o desconforto.

— Eu fui à empresa hoje. O Xavier apareceu mesmo machucado. Ele ainda disse que queria te explicar. Eu acho que você não devia…

— Não fala o nome daquele lixo pra mim.

Antes que ela terminasse, Fernando bateu o prato com força na mesa.

Celina claramente não estava acostumada com a postura de Fernando. A irritação dela também veio à tona, e a voz ficou fria quando disse:

— Fernando, você já não exagerou demais? Por causa de suspeitas sem fundamento, você está fazendo escândalo. O Xavier foi agredido por você e nem te culpou. E você ainda continua. Não acha que está passando dos limites?

— Eu passando dos limites? — Fernando riu, apontando para si mesmo. — Isso, eu que estou passando dos limites. Você vive chamando o Xavier com essa intimidade toda. Já pensou se isso não me machuca? Você acha ele competente, compreensivo. Então vai atrás dele! Eu não vou te impedir. Amanhã a gente vai direto no cartório pedir divórcio!

A raiva saía dele sem filtro.

Celina arregalou os olhos.

— Você… está falando de divórcio de novo?

— E não posso? Ou eu tenho que ficar assistindo você trocar olhares com o seu irmão de consideração?

Fernando lançou um olhar frio e foi para a cozinha.

— Você vai me explicar isso agora.

Celina correu atrás e segurou a roupa dele.

— Não existe nada entre mim e o Xavier. Você está me acusando. Tem que pedir desculpa. Senão eu não deixo isso assim!

— Me larga!

Fernando a afastou sem hesitar.

Celina caiu sentada no chão. Ficou olhando as costas dele entrando na cozinha por muito tempo.

— Mamãe, por que você está no chão? — Yasmin saiu do quarto, olhou para Celina e disse com voz tímida.

Quando um casal briga, quem mais se machuca é a criança.

Celina respirou fundo, esboçou um leve sorriso, levantou-se e disse:

— Yasmin, está tudo bem. Agora há pouco, a mamãe e o papai só estavam brincando.

Yasmin assentiu, depois disse:

— Mamãe, não briga com o papai! O papai é o melhor pai do mundo!

"Eu também sou a melhor mãe do mundo..." Celina sentiu um aperto de injustiça. Os olhos ficaram levemente vermelhos. Ela fungou, caminhou até a filha, segurou a mão dela e disse:

— Yasmin, o papai e a mamãe só estavam conversando sobre algumas coisas. Não estavam brigando.

Yasmin hesitou um pouco e perguntou em voz baixa:

— Então você vai se separar do papai?

Ela tinha só seis anos, mas era esperta. Já entendia muita coisa.

— Não.

Diante dessa pergunta, Celina não hesitou nem por um segundo. Ela balançou a cabeça e disse com firmeza:

— Yasmin, a mamãe e o papai nunca vão se separar. Nós somos uma família. Vamos viver juntos para sempre.

Ao ouvir isso, Yasmin finalmente sorriu, aliviada.

— Pronto, agora vai pro quarto fazer a lição! — Celina pegou a mochila da filha e disse sorrindo.

Depois de ajeitar Yasmin, ela saiu do quarto e fechou a porta. Viu que Fernando já tinha lavado a louça e estava apoiado na varanda, fumando.

Depois do que tinha acabado de acontecer, Celina também se acalmou.

O olhar dela carregava um pouco de ressentimento e um pouco de medo. Ela se aproximou por trás de Fernando, passou os braços pela cintura dele e disse em voz baixa:

— Amor, vamos parar de brigar, tá? A Yasmin ficou assustada.

Fernando ficou em silêncio por um bom tempo antes de falar.

— Ontem eu te disse pra demitir ele e cortar qualquer relação. Você consegue fazer isso?

Celina ficou surpresa. Não esperava que ele tocasse nesse assunto de novo. O rosto ficou tenso.

— Amor, eu já te expliquei. Eu realmente não tenho nada com ele. Não entende errado, por favor. Ele é muito competente. A empresa precisa de gente assim...

Fernando soltou um riso frio. Tirou as mãos dela da própria cintura e disse:

— Não consegue, é isso. Não fica inventando desculpa de empresa. Isso faz algum sentido?

Sem falar que a empresa de Celina movimentava mais de cem milhões. E por trás dela ainda existia o Grupo Barbosa, um conglomerado de bilhões. Um estagiário que estava ali há três meses não significava nada.

Celina ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer com dificuldade:

— Amor, não fica bravo. Eu... eu prometo. Vou tentar manter distância dele. Mas demitir ele, isso realmente não dá...

Fernando balançou a cabeça e entrou.

Ele pensou que, se ela realmente fosse capaz de manter distância, já teria feito isso.

Quantas relações começam assim, com o tempo virando sentimento... Não. Talvez ela já tenha começado a sentir algo por ele.

Ao pensar nisso, o peito de Fernando apertou. A dor era surda e constante.
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