LOGINCAPÍTULO 76A Lucía e a Sofía estavam apoiadas sobre a cerca da box principal, observando em silêncio como o potro recém-nascido tentava coordenar as suas longas patas para alcançar as tetas da mãe. A égua alazã lambia-o com devoção, alheia às intrigas da cidade.— Sofia... —disse a Lucía, com um tom muito mais suave, quase cúmplice—. Ontem disseste-me que ias à cidade para sair. Não me contaste como te correu o encontro.A Sofía pestanejou, tirada do seu enlevo pelo potro. A recordação do café na cidade, a timidez do Esteban e a interrupção gélida do Thiago atingiram-na com uma mistura de frustração e confusão.Apertou os lábios, alisando uma estilha imaginária na madeira da cerca.— Não saberia dizer-te, mamã —r
CAPÍTULO 75Eram passadas as quatro da tarde quando a Sofía, esgotada mas estranhamente relaxada, já estava a terminar de pentear a crina húmida do seu cavalo na área de lavagem exterior.O estalar de uns passos anunciou a chegada da matriarca.A Lucía Flores caminhava em direção a ela, levava o telemóvel numa mão e uma linha de tensão desenhada entre as sobrancelhas que à Sofía fazia sempre lembrar os interrogatórios prévios a um castigo na sua infância.A Lucía aproximou-se da filha para perguntar, sem preâmbulos nem saudações cordiais, indo direto à jugular do problema.— Sofía, ontem dormiste com o teu irmão?A Sofía não deteve o movimento da escova sobre o flanco do Eclipse, tentando manter a sua respiração e o seu ritmo cardíacos inalterad
CAPÍTULO 74— Se não fores à oficina hoje nem em toda a semana, vão sabê-lo mais cedo ou mais tarde —advertiu a Sofía, apoiando as mãos na ilha da cozinha, olhando-o com seriedade—. E pior ainda se te vi-rem a cara.O Mateo assentiu, consciente de que a irmã tinha toda a razão.— Vou ficar fechado aqui até a inchação baixar —resolveu o Mateo, suspirando com frustração—. Direi que tenho uma gripe terrível.A Sofía soltou uma gargalhada sarcástica e abanou a cabeça, tomando a sua chávena de café preto.— Não vais poder esconder-te para sempre, irmãozinho. Se quiseres voltar à oficina antes de sexta-feira, vais ter de recorrer a medidas extremas.— Que medidas extremas? —o Mateo franziu o sobrolho, suspeitando do sorriso de canto de b
CAPÍTULO 73Na manhã seguinte, com os olhos pesados pela falta de sono, a Sofía tinha-se levantado com a missão autoimposta de preparar o pequeno-almoço antes de regressar à quinta. Queria certificar-se de que o seu gémeo comia alguma coisa antes de ir embora.O Mateo saiu do quarto principal a arrastar os pés.Deixou-se cair num dos bancos altos da ilha da cozinha com um gemido abafado.— Como é que te sentes? —perguntou a Sofía, sem se virar, a lutar com uma espátula de silicone contra algo irreconhecível na frigideira.— Como se me tivesse passado um camião por cima —admitiu o Mateo, esfregando os olhos sãos— E como se alguém estivesse a martelar a minha cabeça a noite toda.A Sofía desligou o lume e apoiou-se na bancada, olhando-o com uma mistura de carinho e preocupação genuína.— Como é que um pai pode fazer isso a uma filha, Mateo? —soltou ela de repente, retomando a conversa que tinha ficado truncada na noite anterior—. Temos de tirar a Samanta de lá.O Mateo assentiu lentamen
CAPÍTULO 72A Samanta tinha marcado o número da Sofía num ato de pura desespero, rezando para que a jovem conseguisse chegar a tempo de salvar o irmão da brutalidade dos capangas do Héctor. Quando a chamada finalmente se cortou, a Samanta deixou-se cair sobre a cadeira em frente à sua toucador, a tremer incontrolavelmente. A confirmação de que a ajuda estava a caminho ofereceu-lhe um mínimo de consolo, mas não conseguia acalmar o pânico que a consumia ao imaginar o Mateo a sangrar no asfalto.O fecho da porta rodou com um som metálico e afiado.O Héctor entrou no camarim.— Desta vez apenas lhe deixarão algumas marcas —disse o Héctor a jeito de saudação, fechando a porta atrás de si com um movimento lento e deliberado—. Um aviso para o menino. Supongo que os da sua classe não estão habituados a que o mundo real lhes devolva os golpes.A Samanta pôs-se de pé, cerrando os punhos aos lados para não lhe mostrar fraqueza. A sua voz, embora trémula, estava carregada de raiva e aversão.— O
CAPÍTULO 71Enquanto o Benício corria para a casa de banho, o Mateo, apesar da dor, olhou para a irmã com curiosidade.— Como é que chegaram? —perguntou o Mateo, com a voz pastosa—. Eu não chamei ninguém.A Sofía pegou numa pequena toalha da mesa de centro e começou a limpar-lhe o sangue da sobrancelha com extrema delicadeza.— Estávamos a jantar os três juntos —explicou ela, com um meio sorriso triste—. Quase já tínhamos terminado, e então... A Samanta ligou-me.O Mateo tencionou-se ao ouvir o nome.— A Samanta?— Sim. Enviou-me uma mensagem e depois ligou-me. Estava aterrada, Mateo. Suplicou-me que fosse buscar-te. Disse-me que te estavam a espancar no beco. Por isso levantámo-nos da mesa e voamos para lá. Ainda bem que o fizemos. Aqui estamos.O Mateo fechou os olhos. A Samanta tinha-o salvo. Ela não o tinha deixado sozinho. Esse pensamento deu-lhe uma faísca de esperança no meio da tareia.O Benício regressou com o estojo de primeiros socorros e o Thiago com um saco de gelo envolv







