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capítulo 2

Autor: Loba azul
last update Data de publicação: 2026-07-25 07:56:04

Capítulo 2 — Território

O quarto que me deram era maior que o apartamento inteiro onde cresci com a minha mãe.

E eu odiei cada centímetro dele.

Era frio. Impessoal. Cheirava a produto de limpeza caro e a gente que não era eu. As paredes claras, a cama king size perfeitamente arrumada, o closet maior que meu antigo quarto.

Parecia um quarto de hotel de luxo onde eu tinha sido largada por engano.

Joguei a mala no chão. Com força. Ela bateu na madeira cara e fez um barulho seco.

Me sentei na beirada da cama. As mãos tremendo.

Felipe. Thiago. Noah.

O olhar de Felipe me dissecando como se eu fosse sujeira no tapete.

A voz de Thiago na minha cabeça: Nunca vai ser sua casa.

Fechei os olhos com força. Tentei não chorar. Chorar aqui seria admitir que eles tinham vencido no primeiro dia.

Precisava de ar. Precisava de água. Precisava sair.

Abri a porta e o corredor me engoliu.

Era um labirinto. Tudo igual. Madeira escura, quadros que valiam mais que minha vida, luz baixa. Virei à esquerda. Direita. Esquerda de novo.

Me perdi.

Completamente.

— Porra.

A palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse segurar. Foi quando ouvi a risada atrás de mim.

Baixa. Sem humor.

Me virei.

Thiago.

Encostado no batente, sem camisa, o cabelo ainda úmido, como se tivesse acabado de sair do banho. Uma toalha pendurada no ombro. O copo de uísque na mão, apesar de ser quatro da tarde.

O corpo dele era uma ofensa. Todo definido, tatuagem preta descendo pela costela, abdômen marcado. E ele sabia. Ele sabia exatamente o efeito que causava.

Ele me olhou. De cima a baixo. Devagar. Sem pressa nenhuma de esconder o nojo.

— Se perdeu já? — ele disse. — Impressionante. Nem vinte minutos na casa e já tá causando transtorno.

— Eu só estou procurando o quarto da minha mãe— cuspi. A voz saiu mais dura do que eu esperava.

Ele riu. Deu um gole no uísque.

— Terceira porta à esquerda. Anota, pra não ter que ficar se esfregando nos corredores da minha casa.

— Não é sua casa. É do seu pai.

O sorriso dele morreu na hora.

Ele se desgrudou da parede. Em dois passos, ele estava na minha frente. Perto demais. Alto demais.

Tive que erguer o queixo para não recuar. O cheiro de uísque, sabonete caro e algo selvagem me atingiu.

— Deixa eu te explicar uma coisa bem devagar, pra você entender, princesinha — a voz dele baixou, perigosa. — Essa casa tem regras. Meu pai pode ter te trazido pra cá, mas quem manda aqui dentro somos nós. Nós três.

Ele se inclinou. Os olhos dele, um verde escuro quase furioso, prenderam os meus.

— Regra número um: você não pertence aqui. Regra número dois: gente que não pertence não dura muito tempo.

Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza que ele ouvia.

— Isso é uma ameaça? — perguntei. Minha voz tremeu, mas eu sustentei o olhar.

— É uma promessa — ele sussurrou. E por um segundo, os olhos dele caíram. Não para o meu corpo. Para a minha boca. Ficaram ali tempo demais. Tempo suficiente para o ar entre nós mudar de raiva para algo muito mais perigoso. — Volta pro seu mundinho, Elisa. Antes que alguém aqui decida que você é interessante demais pra deixar ir embora.

Um arrepio desceu pela minha espinha. Não era só medo.

— Thiago!

A voz de Felipe explodiu no corredor.

Ele estava no final do corredor. Terno ainda impecável, mas a gravata afrouxada. Os olhos frios pegando fogo. Ele olhou para o Thiago sem camisa, para mim encurralada contra a parede, para o copo de uísque.

A mandíbula dele travou de um jeito assustador.

— O que você está fazendo? — a pergunta foi para o Thiago, mas os olhos não saíram de mim.

— Dando as boas-vindas pra nossa hóspede — Thiago respondeu, sem se afastar de mim.

— Se afasta dela. Agora.

Não foi um pedido. Foi uma ordem. Gelada. Cortante.

Thiago me olhou por mais um segundo, um sorriso torto e sem graça no rosto, e finalmente deu um passo para trás. Só um.

Felipe veio até nós. Parou na minha frente. Ele não me tocou, mas a presença dele era tão dominante quanto a do Thiago, só que de um jeito diferente. Mais controlado. Mais letal.

— O jantar é às oito — disse ele, olhando diretamente nos meus olhos. A voz baixa, sem emoção. — Você vai aparecer. Vai estar vestida de forma adequada. E vai aprender a não se perder pelos corredores.

— Eu não sou uma das suas funcionárias, Felipe.

Ele ergueu uma sobrancelha. Pela primeira vez, algo além do gelo apareceu no rosto dele. Surpresa. E algo que parecia... interesse.

— Não — concordou, depois de um silêncio. — Você é um problema que meu pai colocou dentro da minha casa. E eu odeio problemas desorganizados.

Ele se virou para ir embora, mas parou. Olhou por cima do ombro.

— Ah. E Elisa?

— O quê?

— Da próxima vez que meu irmão encostar em você, grita. — Uma pausa cruel. — Não por mim. Porque eu não vou estar por perto pra impedir o que ele vai fazer.

Ele se foi.

Thiago riu atrás de mim. Um som áspero.

— Ouviu o chefinho — disse, virando o resto do uísque na garganta. — Pensa bem no que eu disse, princesinha.

E me deixou sozinha.

No meio do corredor. Com o coração saindo pela boca, as pernas bambas, a pele arrepiada.

Não era medo. Não era só medo.

Era a sensação terrível e inegável de que eu tinha acabado de ser marcada. Por dois predadores diferentes, de dois jeitos diferentes.

Corri para o banheiro mais próximo, tranquei a porta e encarei meu reflexo no espelho.

Meus lábios estavam entreabertos. Minhas bochechas vermelhas. Meus olhos brilhando de raiva e de outra coisa que eu me recusava a nomear.

Três meses atrás minha vida era normal.

Agora eu sabia que tinha acabado de entrar em um vendaval.

E não havia mais porta de saída.

nota da autora : EAE meus amores o que acharam ?

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