Compartilhar

capítulo 5

Autor: Cassamo57
last update Data de publicação: 2025-08-18 18:30:25

O salão estava iluminado demais para o fim de tarde. Luzes mornas refletiam nos vasos de cristal e nas paredes de mármore polido, projetando aquele brilho frio que sempre me fazia sentir deslocada. Isabelle me esperava em uma das poltronas próximas à janela, com um vestido bege simples demais para seus padrões — um gesto calculado para parecer casual.

Quando me viu, sorriu. Um sorriso largo, mas sem calor.

— Clara, querida. — sua voz escorreu suave, doce em excesso. — Que bom que veio.

Sentei diante dela, ajeitando a saia, com a sensação de estar entrando em território inimigo.

— Você pediu para me encontrar com tanta urgência… imaginei que fosse algo sério.

Isabelle suspirou, inclinando o corpo para frente como se carregasse um fardo imenso. — E é. — Seus dedos brincavam com a aliança dourada, rodando-a lentamente, como se a cada volta um pensamento mais sombrio surgisse. — Eu tenho tentado… mas Alaric anda tão distante.

Meu coração apertou. Eu já sabia onde essa conversa ia chegar.

— Talvez seja só o trabalho. — respondi, cautelosa.

Ela soltou uma risada baixa, sem alegria. — Trabalho? Com Alaric sempre há trabalho. Mas eu sei quando a frieza dele não tem nada a ver com negócios.

Mordi o lábio, evitando responder.

Foi então que seus olhos se ergueram para os meus, despindo-se de qualquer fingimento. — E desde que você apareceu… ele nunca mais foi o mesmo comigo.

Engoli seco. A acusação não veio em forma de grito, mas na suavidade calculada que feriu mais do que qualquer ataque direto.

— Isabelle, eu… — tentei me explicar, mas ela ergueu a mão, cortando minhas palavras.

— Não me entenda mal. Eu não estou te culpando… exatamente. — sua voz tremia no limite entre fragilidade e manipulação. — Mas você entende, não é? Você está no meio. Você o distrai, o afasta. Às vezes sinto que não sei mais como alcançá-lo.

Pisquei rápido, tentando disfarçar o impacto.

— Eu nunca quis atrapalhar. — murmurei.

— Mas atrapalha. — Isabelle sorriu triste, com os olhos marejados. — Ele é meu marido, Clara. E quando ele volta para casa depois de ter estado com você… não é comigo que ele está de verdade. — inclinou-se ainda mais, a voz em sussurro. — Você sente isso, não sente?

Fiquei muda. Porque, no fundo, eu sentia.

O silêncio foi sufocante. Isabelle se recostou novamente, voltando a vestir sua máscara perfeita. — Só queria que você pensasse nisso. — disse, calma, quase doce. — No quanto sua presença… nos desestabiliza.

Levantei pouco depois, agradecendo rapidamente, e saí sem olhar para trás.

O ar da noite me atingiu frio, mas não bastou para acalmar o coração. As palavras dela ficaram martelando em minha mente. “Você o afasta de mim. Você o distrai.”

---

Naquela noite, fiquei revirando na cama até tarde. A imagem de Isabelle no café, sorrindo para outro homem, misturava-se com as lágrimas calculadas dela diante de mim. Será que eu havia interpretado errado? Será que era apenas amizade, um encontro inocente, e minha mente distorcida pelo desejo por Alaric havia inventado algo maior?

Quanto mais pensava, mais culpada me sentia. Talvez Isabelle tivesse razão. Talvez eu fosse mesmo a intrusa.

Nos dias seguintes, comecei a me afastar. Não atendia todas as ligações de Alaric, respondia às mensagens com demora, evitava me colocar à disposição. Dizia a mim mesma que era por autoproteção, mas no fundo era também para provar que eu não era a culpada.

Mas esse afastamento, ao invés de aliviar, só me corroía mais. Eu o imaginava ainda mais colado a Isabelle, e me perguntava se era esse o lugar que me restava: a sombra.

---

E então, numa noite de chuva, a campainha tocou.

Meu coração disparou antes mesmo de abrir a porta. Eu sabia quem era.

Alaric estava ali, o casaco escuro molhado pela chuva, o olhar cinzento ainda mais intenso sob a luz fraca do hall.

— Posso entrar? — perguntou, embora já estivesse avançando.

— Você sempre entra. — respondi, fechando a porta atrás dele.

Ele percorreu a sala com os olhos, como quem fiscaliza território. Depois se virou para mim, direto:

— Você anda distante. — disse, sem rodeios. — Quase não me atende.

Sentei-me no sofá, tentando parecer calma. — Estive cansada. Trabalho, rotina, coisas assim.

Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Cansada de mim?

A pergunta veio suave, mas com o peso de um julgamento.

— Eu não disse isso. — murmurei.

Ele me observou em silêncio. — Mas pensou.

Levantei os olhos, surpresa pela precisão dele. O rosto de Alaric permanecia sereno, mas era nessa calma que residia a ameaça.

— Alaric… — hesitei, escolhendo as palavras com cuidado. — Você acha que está tudo bem entre vocês?

Não citei nomes, mas ele sabia. Isabelle.

Ele recostou-se, cruzando uma perna sobre a outra, como quem tem todo o tempo do mundo. — Por que pergunta?

— Curiosidade. — tentei soar leve. — Você parece sempre… no controle. Às vezes me pergunto se alguma coisa te afeta de verdade.

Um sorriso quase debochado curvou seus lábios. — E isso te incomoda?

— Não sei. Talvez. — respondi, apertando o livro que repousava em meu colo. — Só queria entender.

— Entender o quê?

— Você. — a palavra escapou antes que eu pudesse evitar.

Os olhos dele estreitaram, e a atmosfera ficou mais densa.

— Isabelle e eu… — começou devagar, como se cada sílaba fosse medida. — Cumprimos nossos papéis. Isso basta.

Engoli seco. Papéis. Essa era a definição dele para o casamento. Não amor, não escolha: papéis.

— E se um dia um desses papéis falhar? — arrisquei.

Ele me encarou, fixo. Depois suspirou. — Todos falham, Clara. A diferença está em como escolhemos lidar com isso.

O silêncio entre nós foi cortante. Eu queria falar do que tinha visto no café, queria despejar minhas suspeitas, mas algo me travava.

Ele se levantou, caminhou até a estante, fingindo examinar os livros. — Você está diferente. Como se guardasse algo.

Meu corpo inteiro gelou.

— Não estou.

Ele se virou devagar, o olhar frio. — Está. Eu conheço você.

Respirei fundo e forcei um sorriso. — Talvez esteja apenas aprendendo a esconder melhor.

A resposta fez algo brilhar em seus olhos. Interesse. Ele se aproximou, inclinado sobre mim.

— Eu não gosto de segredos.

— Então não me force a tê-los. — retruquei, a voz trêmula, mas firme.

Por um instante, a sombra de um sorriso passou por seus lábios. Ele se afastou, pegou o casaco e foi em direção à porta.

— Cuide-se, Clara. — disse, antes de sair. — Não quero que se desgaste com o que não lhe pertence.

E então ele se foi, deixando para trás o mesmo silêncio sufocante que sempre carregava consigo.

Fiquei parada no meio da sala, o coração em disparada. Eu não sabia mais o que era verdade e o que era ilusão. Só sabia que, mesmo quando tentava me afastar, Alaric sempre encontrava uma maneira de me puxar de volta.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • o amor que eu jurei não querer    capítulo 21

    ​A caminhada de volta para o apartamento de Alicia e Sofia foi o trajeto mais longo e silencioso da vida de Clara. A noite fria de vento cortante parecia atravessar o tecido grosso do seu casaco, atingindo diretamente a pele, mas a dor interna era mil vezes mais congelante.​Ao fechar a porta atrás de si, o peso da armadura de coragem que sustentara diante de Alaric simplesmente desmoronou. Ela se encostou contra a madeira fria e deixou-se escorregar até o chão, abraçando os joelhos.​— Clara? — Sofia surgiu no corredor com uma caneca de chá nas mãos, congelando no lugar ao ver o estado da amiga. Alicia veio logo atrás. — Meu Deus, o que aconteceu?​As lágrimas, que Clara segurara com tanto esforço para não demonstrar fraqueza diante dele, finalmente escorreram, quentes e incontroláveis.​— Ele... ele disse que não me vê desse jeito — sussurrou Clara, a voz falhando, sufocada pelo nó na garganta. — Pela boca dele, meninas. Eu ouvi com todas as letras. "Eu não vejo você desse jeito."​

  • o amor que eu jurei não querer    capítulo 20

    O silêncio parecia esmagar tudo ao redor.Eu continuava sentada ao lado dele, sentindo meu coração bater tão forte que parecia impossível que Alaric não conseguisse ouvir. Lysander dormia tranquilamente em seus braços, completamente alheio ao turbilhão que acontecia entre nós.Alaric permaneceu me olhando por vários segundos.Longos.Dolorosos.Seu olhar estava preso ao meu, como se tentasse encontrar as palavras certas. Pela primeira vez desde que o conhecia, ele parecia genuinamente perdido.— Clara... — sua voz saiu baixa.Engoli em seco.Ele desviou os olhos por um instante para Lysander, respirando fundo.— Eu... não esperava ouvir isso.Tentei sorrir.— Eu imaginei.Ele soltou uma pequena risada nervosa, algo raro.— É sério. Eu realmente não esperava.Alaric passou a mão pelo rosto, claramente desconfortável.Eu conhecia aquele gesto.Ele fazia aquilo sempre que precisava organizar os próprios pensamentos.— Clara, nós nos conhecemos desde crianças.— Eu sei.— Você sempre este

  • o amor que eu jurei não querer    capítulo 19

    A tarde começava a cair quando Alaric e Clara saíram para uma caminhada rápida pelo bairro. Lysander dormia tranquilamente no carrinho, embalado pelo ritmo calmo dos passos de Alaric. Clara caminhava ao lado, os olhos atentos a qualquer sinal de desconforto do bebê. Cada sorriso de Lysander arrancava um pequeno suspiro de alívio dela.— Ele parece se sentir seguro com você — disse Clara, a voz suave, quase um sussurro. — Olhe como dorme tranquilo no seu colo, no carrinho…Alaric desviou o olhar, meio surpreso. — Eu… eu faço o que posso. Quero que ele se sinta protegido. — Ele apertou levemente a mão sobre o carrinho, quase instintivamente. — Mas você tem razão. Ele se acalma quando você fala perto dele.Clara sorriu, sentindo um calor subir ao peito. — Acho que ele sente quem realmente se importa, Alaric.Eles continuaram andando pelas ruas tranquilas, conversando sobre coisas leves — lojas que haviam mudado, o clima da cidade, pequenas histórias do cotidiano. Mas mesmo nas palavras s

  • o amor que eu jurei não querer    capítulo 18

    Clara estava sentada na poltrona da sala de estar, as mãos entrelaçadas, encarando o abajur que projetava sombras suaves nas paredes. O silêncio da casa parecia amplificar cada pensamento que passava por sua mente. Ela lembrava-se de cada momento recente, cada olhar, cada gesto e cada palavra trocada com Alaric. O que começou como amizade — pura e segura — agora parecia ter se transformado em algo muito mais complexo.Ela suspirou, sentindo o peso das emoções que se acumulavam. Isabelle estava finalmente fora de cena, Alaric havia resolvido tudo legalmente, Lysander estava seguro, e, ainda assim, o ar entre eles não estava limpo. Havia restos de tensão, de tristeza e, acima de tudo, uma oportunidade invisível que Clara ainda não sabia como enfrentar.“Será que isso é um sinal?”, murmurou para si mesma. “Será que o universo está me dando uma chance de lutar por ele?” Ela fechou os olhos, imaginando o rosto sério de Alaric, aquela expressão calculista que escondia tanto, e que ao mesmo

  • o amor que eu jurei não querer    capítulo 17

    A sala da cobertura permanecia silenciosa, mas o silêncio já não era apenas pesado — era cortante. Lysander chorava baixinho no colo de Isabelle, mas seu choro não conseguia quebrar a tensão que pairava no ar. Observava cada gesto de Isabelle, cada respiração triunfante, cada movimento calculado. Ela acreditava que o bebê era sua arma definitiva, a chave para manter o controle sobre mim. Mas Lysander era o núcleo da verdade. Ele era a prioridade; Isabelle era apenas um obstáculo que precisava ser contido. Cada gesto de paciência que demonstrei nos últimos meses não era ingenuidade, era estratégia.Ela ainda se movia com aquela confiança arrogante, como se eu fosse incapaz de notar seu poder ilusório. Mas eu notei. Sempre notei. Cada gesto dela foi registrado e analisado, catalogado e respondido com precisão fria. Agora era hora de estabelecer limites.— Isabelle — comecei, a voz baixa, medida, calculada — precisamos conversar.Ela ergueu os olhos, tentando manter a pose. O bebê no col

  • o amor que eu jurei não querer    capítulo 16

    A sala da cobertura estava silenciosa, mas carregada de tensão. Isabelle segurava Lysander nos braços, ainda acreditando que aquele era seu momento de triunfo. Mas Alaric estava diferente: calmo, meticuloso, os olhos fixos nela, a postura firme e definitiva. Clara e Sofia observavam de longe, sentindo que algo enorme estava prestes a acontecer. — Isabelle — começou Alaric, a voz baixa e cortante, carregada de controle absoluto — precisamos conversar. Ela ergueu os olhos, surpresa com o tom. — Sobre o quê? — respondeu, tentando soar casual, ainda segura de si. Ele deu um passo à frente, firme, cada palavra calculada: — Sobre você. Sobre nós. Sobre tudo que aconteceu. O silêncio se alongou, pesado como chumbo. Isabelle estreitou os olhos, tentando avaliar se aquilo era mais uma manipulação dele. — Você está me ameaçando? — perguntou, com uma ponta de arrogância, segurando o bebê mais firme. Alaric balançou a cabeça lentamente, sem perder a calma. — Não. Não é ameaça. É a verda

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status