MasukA noite escorria pelas janelas da casa como um líquido espesso. Lá fora, a lua cheia filtrava-se por entre os galhos nus das árvores, desenhando sombras em constante movimento nas paredes do cômodo. O ar parecia conter algo não dito, uma presença antiga. O relógio da sala não ticava. O mundo, ali dentro, havia suspendido a respiração.
Lucky tocava suavemente o piano. As notas flutuavam no ar, frágeis, quase hesitantes. A melodia tinha algo de incompleto, como uma lembrança que tenta se formar, mas escapa. Helena estava sentada no chão, encostada na lateral do sofá, os joelhos dobrados, os braços envoltos ao corpo como se buscasse proteção de algo invisível. Sentia cada nota como um sussurro — não de Lucky, mas de alguém que morava em algum canto escuro de si mesma. A música se chamava Of the Past. Ele não precisou dizer. Ela sabia. Era como se já tivesse ouvido aquilo antes, em algum sonho esquecido ou na infância enevoada por traumas. A melodia era familiar... dolorosamente familiar. — Você compôs pra ela, não foi? — Helena perguntou. A voz saiu delicada, quase imperceptível, como um fio de seda prestes a se romper. Lucky não respondeu de imediato. Continuou com os dedos repousando sobre as teclas, sem pressioná-las. Apenas sentia. Então assentiu, os olhos fixos na madeira escura do piano. — Mas hoje... — murmurou ele, com a voz arranhada pelo que não se diz — hoje eu só consigo tocar pra você. Helena desviou os olhos. Aquilo era demais. As palavras eram um convite e um alerta ao mesmo tempo. Ela sentia o peso de algo crescendo dentro de si. Ternura, sim. Mas também perigo. Como se estivesse dançando na borda de um penhasco. E havia algo mais. Um eco do que ela mesma havia enterrado. A última nota pairou no ar como um fantasma. Depois disso, o silêncio se instalou entre eles, denso, confortável e ao mesmo tempo ameaçador. Lucky se levantou. Estava descalço, os passos quase sem som no chão de madeira. Ele estendeu a mão para ela, que hesitou antes de aceitar. Os dedos dele estavam frios. Ou seriam os dela? — Quero te mostrar uma coisa — disse ele, com um tom que oscilava entre mistério e intimidade. Ela o seguiu por corredores que pareciam crescer com os passos dele. A casa era grande, antiga, cheia de portas e sombras. À medida que avançavam, Helena tinha a impressão de que os cômodos surgiam conforme Lucky os desejava. Como se a casa fosse viva. Como se fosse uma extensão da mente dele. Pararam diante de uma porta de madeira escura, envelhecida, com manchas que lembravam marcas de mãos. Lucky pousou a palma sobre a superfície como quem cumprimenta um velho amigo. — Aqui é onde guardo os recortes do tempo — disse ele, sorrindo de canto. Mas não era um sorriso feliz. Era melancólico. Saudoso. Ou talvez... cúmplice? Ao abrir a porta, o ar ali dentro parecia diferente, mais frio. A luz amarelada do teto iluminava dezenas, talvez centenas de fotos. Algumas organizadas em murais. Outras, jogadas em caixas, empilhadas de forma caótica. Mesas cobertas com papéis, molduras, negativos. Era um santuário para o que havia sido. Helena entrou devagar, o olhar absorvendo tudo ao redor. Roupas antigas. Cabelos fora de moda. Sorrisos congelados no tempo. Pessoas que ela não conhecia — e, ao mesmo tempo, pareciam familiares. Como se cada rosto carregasse um fragmento de algo perdido dentro dela. — Você é obcecado pelo passado? — ela perguntou, mais para quebrar o silêncio do que por real curiosidade. — Talvez eu só tenha medo de esquecê-lo — respondeu ele, pegando uma foto ao acaso e olhando-a com ternura. Helena se aproximou de um dos murais. Passou os dedos por uma sequência de retratos desbotados. E então parou. Seu corpo enrijeceu. Uma foto, em preto e branco, mostrava duas mulheres sorrindo. Uma delas... uma delas ela reconhecia. Imediatamente. Sem margem para dúvida. A garganta se fechou. O estômago revirou. Um calor subiu por dentro, mas o rosto dela permaneceu imóvel. — Você sabe quem é essa? — perguntou, tentando manter a voz firme, apontando para a mulher que não conseguia encarar por mais de dois segundos. Lucky se aproximou. Olhou com atenção. — Ela? Era muito próxima da minha mãe. Não sei mais do que isso. Desapareceu há anos. Helena assentiu. Deu um passo para trás. Por fora, fingia normalidade. Por dentro, era um vendaval. A mulher da foto... era sua tia. Aquela que desaparecera quando ela ainda era criança. Aquela que a ajudara a criar. Que lhe contava histórias e penteava seus cabelos antes de dormir. Aquela que sumiu sem deixar um bilhete, um rastro, uma explicação.O silêncio caiu sobre a noite como um luto coletivo. Não havia música. Não havia vento. As luzes da cidade pareciam mais opacas, como se soubessem o que estava prestes a acontecer. Lá no alto, em um apartamento pequeno, escuro e solitário, o mundo de Lucky Valley desmoronava como uma catedral sem fé.Helena estava parada diante da janela, os olhos fixos em nada. Os papéis sobre a mesa confirmavam tudo: datas, nomes, relatos, pistas... e sangue. Era como se cada página pesasse mais do que seu corpo podia carregar. O nome dele, o verdadeiro nome, o falso nome, o nome que ela gritou no silêncio de seus sentimentos, estava ali — gravado na tinta e na memória, impossível de ser apagado.Lucas. Lucky. O homem que ela amou. O homem que a destruiu em silêncio.A última confissão, deixada em um áudio anônimo, ainda ecoava dentro dela como um cântico fúnebre:> “Eu faria tudo de novo, Luana. Tudo. Porque quando te vi pela primeira vez, encontrei algo que nunca tive — um motivo pra viver. Você f
A porta do quarto de hospital parecia respirar. Helena ficou diante dela por alguns segundos, sem coragem de tocar a maçaneta. Seus dedos suavam, a garganta seca travava até o ato de engolir. Lá dentro, o homem que ela amou... e odiou. O homem que se fez presente em cada fragmento de sua história, mesmo quando deveria ter sido só um nome esquecido.Aquele que, de forma doentia, deu sentido à própria vida dela — e quase a destruiu.Ela girou a maçaneta devagar. O rangido da dobradiça foi mais alto que o necessário, e ainda assim, o quarto permanecia silencioso.Lucas estava deitado, pálido, os olhos fixos no teto. As algemas em seu pulso direito presas à lateral da cama lembravam que ele não era mais um artista, nem um amante, nem um espectro: era agora um prisioneiro.Quando ouviu a porta, não reagiu. Mas quando sentiu o perfume, virou o rosto lentamente. E a viu.Helena.Por um instante, o tempo parou. Não havia mais máquinas, paredes ou passado. Só ela. E o mundo inteiro desabou nos
O som dos monitores era o único pulso vivo no quarto estéril do hospital. Um bip ritmado, constante, quase hipnótico. No leito, o corpo de Lucas Valdez permanecia imóvel, mas algo dentro dele se agitava — como se, mesmo inconsciente, a mente se recusasse a descansar.Os olhos estavam fechados. A pele pálida. Os dedos, frios. Mas naquele fim de tarde abafado, uma sombra percorreu o interior do quarto como um presságio. E então, sem aviso, os cílios dele tremeram.Foi quase imperceptível.Mas aconteceu.A mão direita — inerte por dias — fez um movimento involuntário. E, pouco depois, o peito de Lucas subiu com um suspiro mais profundo. A respiração mudou. Mais irregular. Mais pesada.Ele estava voltando.---Na sala ao lado, o policial Brandão acompanhava o relatório médico.— Ele tá acordando. — avisou a enfermeira, com a voz baixa.Brandão assentiu, sem tirar os olhos da tela onde dados clínicos se acumulavam.— Quero dois homens na porta. Se ele sair dessa, não vai pra casa. Vai dire
Helena segurava a fita como quem segura uma arma.O porão da casa estava silencioso, mas dentro dela, tudo era ruído. O batimento acelerado do próprio coração, o zumbido nos ouvidos, o som do mundo se afastando como uma onda recolhida antes do impacto.Sentou-se no chão empoeirado, o aparelho velho ainda funcionava. Ao pressionar play, a voz que emergiu não era a de Lucky cantando. Era a de Lucas — crua, despida, desabada.> “Se você está ouvindo isso... significa que já é tarde demais.”Helena engoliu seco.> “Talvez você seja a polícia, talvez seja ela. Eu não sei. Mas sei que essa história precisa ser contada, do meu jeito. Não pra me justificar. Eu não tenho desculpas. Só tenho lembranças.”A voz era firme, mas havia rachaduras. Uma vulnerabilidade sincera.> “Eu procurei você por tanto tempo, Luana. Helena. Eu nem sei mais qual é o seu nome agora. Mas pra mim, sempre foi você. Desde aquele dia na escola. Desde o seu sorriso sem medo, enquanto eu me afogava num mundo onde ninguém
As notícias correram como fogo em palha seca.No dia seguinte, as redes sociais estavam em convulsão. O nome Lucky Valley virou trending topic. Mas, desta vez, não por causa de uma nova música. Os principais portais do país estampavam manchetes em letras negras, que misturavam escândalo, obsessão, e a palavra que pairava como veneno: psicopata.O jornalista investigativo havia publicado a primeira parte de sua reportagem especial. Nela, não apenas expunha os rastros financeiros deixados por Lucas ao longo dos anos, como também levantava suspeitas concretas sobre as mortes de Eduardo, Nicole e outras pessoas cujas histórias se cruzavam com a trajetória meteórica — e sombria — de Lucky.Ele não era mais um artista promissor. Agora, era uma figura dividida entre o gênio e o abismo. Entre o romantismo do público e a brutalidade dos fatos.E no meio desse furacão, estava Helena.---Ela tentava manter-se à margem da exposição. Os produtores da matéria, por ética e segurança, evitaram citá-
Era madrugada quando Helena recebeu a ligação. A voz do outro lado da linha era urgente, mas não alarmada. O tipo de voz treinada para dar más notícias de forma suave, mas que, mesmo assim, cortava como navalha.— Tivemos um incidente no hospital. Alguém tentou invadir o quarto do paciente Lucas Valdez.Helena fechou os olhos. Não precisava de mais detalhes. Sentia o perigo se aproximando como uma onda negra que, mesmo sem vê-la, sabia que viria.— Ele está vivo? — perguntou, com a voz engasgada.— Sim. O paciente permanece em coma. Não chegaram a tocá-lo. Mas precisamos reforçar a segurança. Há pessoas demais interessadas no silêncio dele.Ela desligou sem dizer mais nada.Sentada na borda da cama, o coração batendo descompassado, Helena encarava o quarto escuro, sentindo o gosto metálico da culpa na boca.Era como se cada escolha que ela fizera tivesse puxado o mundo para esse abismo.Lucas estava entre a vida e a morte, mas sua presença... sua influência... ainda crescia como uma r







