共有

Casa de vidro

作者: Ícaro wolf
last update 公開日: 2025-05-21 14:27:34

A rua parecia ter sido abandonada por todos os sons do mundo. Nem o vento ousava soprar entre as árvores secas que ladeavam a calçada. Helena parou o carro diante da casa, desligou o motor e escutou o próprio coração — um tambor ansioso dentro do peito. Aquela era a primeira vez que visitava Luck Valley fora dos palcos, longe do caos dos bastidores. Ali, o silêncio gritava mais alto.

A casa era antiga. A fachada estava parcialmente encoberta por trepadeiras mortas e janelas cobertas por cortinas opacas. A porta da frente — entreaberta — a fez hesitar.

Ela sentiu o pressentimento como um estalo na espinha. O tipo de alerta que antecede revelações perigosas.

---

Bateu levemente com os nós dos dedos na madeira. Nenhuma resposta. Com um passo contido, empurrou a porta.

— Olá...? — sua voz se dissolveu no ar abafado.

A sala estava mergulhada numa penumbra amarelada. Um cheiro de incenso impregnava tudo, misturado ao aroma doce e doentio de frutas esquecidas. A madeira do piso rangia sob seus pés. Era como andar por dentro de um sussurro.

No andar de cima, passos. Lentos. Precisos.

Ela recuou instintivamente. A casa respirava — não como uma estrutura inerte, mas como um bicho adormecido. E ainda assim, ela permaneceu.

---

— Você chegou cedo — disse uma voz atrás dela.

Ela se virou sobressaltada. Luck estava no alto da escada, descalço, vestindo uma camisa preta, o cabelo caindo como sombra sobre os olhos. E os olhos... claros, fixos, como se enxergassem além.

— A porta estava aberta — disse ela, tentando manter o tom neutro.

Ele sorriu, enigmático.

— Essa casa nunca foi boa em guardar segredos.

Guiou-a até a sala principal. Havia uma poltrona solitária próxima ao piano. Ele, desconcertantemente, sentou-se no chão, encostado na parede, como se aquele fosse seu trono. Ela notou que ele não precisava da casa — ela é que parecia depender dele.

---

— Nervosa? — ele perguntou.

— Talvez. Teu andar de cima tem um jeito peculiar de receber visitas.

Ele arqueou uma sobrancelha, com leveza quase teatral.

— Moro sozinho. Mas a casa... ela gosta de brincar com memórias.

Helena sorriu com os lábios, mas não com os olhos. Ligou o gravador.

— Podemos começar?

— Só se for de verdade — respondeu ele.

— E o que seria verdade pra você?

— Aquilo que dói — disse, com simplicidade devastadora.

Naquele momento, Helena percebeu algo raro: ela não estava no controle. Ele a estudava com mais precisão do que qualquer entrevistado que já conhecera.

---

— Por que você nunca lançou Casa de Vidro?

Luck não respondeu de imediato. Deitou a cabeça nos joelhos e fechou os olhos por segundos longos demais.

— Porque é a única música que me rasga. Não posso cantar isso e depois sorrir pra câmera. É... é uma confissão.

— Então confesse agora — ela pediu, surpreendendo a si mesma com a suavidade da voz.

Ele se ergueu e foi até o piano. Puxou um caderno velho, de capa desbotada. Voltou e se sentou ao lado dela, entregando-o sem dizer nada.

A letra parecia ter sido arrancada da carne. Rasuras, frases riscadas, pedaços quase ilegíveis.

Helena leu em silêncio, sentindo cada palavra como um soco manso.

---

— Ela se foi? — perguntou, por fim.

— Não sei. Talvez só tenha se transformado em silêncio — disse ele, apontando para o teto. — Às vezes acho que ouço os passos dela... descendo as escadas.

Helena o observou por segundos demorados. Havia ali mais do que dor — havia saudade com raízes, enterrada em camadas.

— Por que me deixou entrar aqui?

— Porque você perguntou “por que dói?”, Helena. Ninguém pergunta isso. Todo mundo quer saber quem sou. Você quis saber onde sangro.

Ela sentiu uma fissura se abrindo dentro de si. Havia algo de cruelmente belo naquele homem. Algo que atraía e assustava.

---

Pela janela, ela pensou ver uma silhueta. Uma mulher? Não. Apenas reflexo.

Quando voltou os olhos para ele, Luck estava mais perto.

— Posso te contar um segredo?

Ela assentiu.

— Quando eu era criança, minha mãe dizia que eu era “grande demais pro mundo”. Achei que ela me admirava. Hoje, acho que ela só queria dizer que eu nunca caberia em ninguém.

Helena sentiu vontade de tocá-lo. Mas não ousou. Havia algo sagrado naquele momento — e profaná-lo seria como espantar um fantasma.

Ele sorriu, como se adivinhasse.

— Ainda está entrevistando?

— Acho que não.

---

— Então por que ainda está aqui?

Helena hesitou.

— Talvez porque quero entender você. Ou me entender.

Luck inclinou a cabeça. Havia uma serenidade estranha no olhar dele. Quase melancólica.

— Todos que entram nessa casa acham que estão entrevistando um homem. Saem descobrindo que se tornaram parte da história dele.

Ela não soube o que responder. Levantou-se devagar, ciente de que o momento se desfazia como névoa ao sol. Mas algo nela permanecia.

— Vai voltar? — ele perguntou.

— Sim — disse, já na porta.

---

Ao sair, sentiu o peso dos olhos dele observando da janela.

Havia deixado algo ali. Ou talvez tivesse trazido algo de volta consigo.

Na rua, a claridade parecia artificial. Como se tudo fora da casa fosse apenas cenário.

Ela entrou no carro e olhou para o espelho. Não se reconheceu de imediato. Era ela — mas algo havia mudado.

A fita do gravador ainda girava.

Ela desligou.

A entrevista havia acabado.

Mas a história... estava só começando.

---

A casa continuava ali, imóvel, como um segredo prestes a romper o lacre.

E, no fundo, Helena sabia:

Algumas portas, quando abertas, não se fecham mais — e há verdades que, uma vez ouvidas, moram para sempre dentro da gente.

この本を無料で読み続ける
コードをスキャンしてアプリをダウンロード

最新チャプター

  • por trás do olhar   Último Ato

    O silêncio caiu sobre a noite como um luto coletivo. Não havia música. Não havia vento. As luzes da cidade pareciam mais opacas, como se soubessem o que estava prestes a acontecer. Lá no alto, em um apartamento pequeno, escuro e solitário, o mundo de Lucky Valley desmoronava como uma catedral sem fé.Helena estava parada diante da janela, os olhos fixos em nada. Os papéis sobre a mesa confirmavam tudo: datas, nomes, relatos, pistas... e sangue. Era como se cada página pesasse mais do que seu corpo podia carregar. O nome dele, o verdadeiro nome, o falso nome, o nome que ela gritou no silêncio de seus sentimentos, estava ali — gravado na tinta e na memória, impossível de ser apagado.Lucas. Lucky. O homem que ela amou. O homem que a destruiu em silêncio.A última confissão, deixada em um áudio anônimo, ainda ecoava dentro dela como um cântico fúnebre:> “Eu faria tudo de novo, Luana. Tudo. Porque quando te vi pela primeira vez, encontrei algo que nunca tive — um motivo pra viver. Você f

  • por trás do olhar   A Sala Sem Sombras

    A porta do quarto de hospital parecia respirar. Helena ficou diante dela por alguns segundos, sem coragem de tocar a maçaneta. Seus dedos suavam, a garganta seca travava até o ato de engolir. Lá dentro, o homem que ela amou... e odiou. O homem que se fez presente em cada fragmento de sua história, mesmo quando deveria ter sido só um nome esquecido.Aquele que, de forma doentia, deu sentido à própria vida dela — e quase a destruiu.Ela girou a maçaneta devagar. O rangido da dobradiça foi mais alto que o necessário, e ainda assim, o quarto permanecia silencioso.Lucas estava deitado, pálido, os olhos fixos no teto. As algemas em seu pulso direito presas à lateral da cama lembravam que ele não era mais um artista, nem um amante, nem um espectro: era agora um prisioneiro.Quando ouviu a porta, não reagiu. Mas quando sentiu o perfume, virou o rosto lentamente. E a viu.Helena.Por um instante, o tempo parou. Não havia mais máquinas, paredes ou passado. Só ela. E o mundo inteiro desabou nos

  • por trás do olhar   Despertar

    O som dos monitores era o único pulso vivo no quarto estéril do hospital. Um bip ritmado, constante, quase hipnótico. No leito, o corpo de Lucas Valdez permanecia imóvel, mas algo dentro dele se agitava — como se, mesmo inconsciente, a mente se recusasse a descansar.Os olhos estavam fechados. A pele pálida. Os dedos, frios. Mas naquele fim de tarde abafado, uma sombra percorreu o interior do quarto como um presságio. E então, sem aviso, os cílios dele tremeram.Foi quase imperceptível.Mas aconteceu.A mão direita — inerte por dias — fez um movimento involuntário. E, pouco depois, o peito de Lucas subiu com um suspiro mais profundo. A respiração mudou. Mais irregular. Mais pesada.Ele estava voltando.---Na sala ao lado, o policial Brandão acompanhava o relatório médico.— Ele tá acordando. — avisou a enfermeira, com a voz baixa.Brandão assentiu, sem tirar os olhos da tela onde dados clínicos se acumulavam.— Quero dois homens na porta. Se ele sair dessa, não vai pra casa. Vai dire

  • por trás do olhar   A Fita

    Helena segurava a fita como quem segura uma arma.O porão da casa estava silencioso, mas dentro dela, tudo era ruído. O batimento acelerado do próprio coração, o zumbido nos ouvidos, o som do mundo se afastando como uma onda recolhida antes do impacto.Sentou-se no chão empoeirado, o aparelho velho ainda funcionava. Ao pressionar play, a voz que emergiu não era a de Lucky cantando. Era a de Lucas — crua, despida, desabada.> “Se você está ouvindo isso... significa que já é tarde demais.”Helena engoliu seco.> “Talvez você seja a polícia, talvez seja ela. Eu não sei. Mas sei que essa história precisa ser contada, do meu jeito. Não pra me justificar. Eu não tenho desculpas. Só tenho lembranças.”A voz era firme, mas havia rachaduras. Uma vulnerabilidade sincera.> “Eu procurei você por tanto tempo, Luana. Helena. Eu nem sei mais qual é o seu nome agora. Mas pra mim, sempre foi você. Desde aquele dia na escola. Desde o seu sorriso sem medo, enquanto eu me afogava num mundo onde ninguém

  • por trás do olhar   A Queda do Ídolo

    As notícias correram como fogo em palha seca.No dia seguinte, as redes sociais estavam em convulsão. O nome Lucky Valley virou trending topic. Mas, desta vez, não por causa de uma nova música. Os principais portais do país estampavam manchetes em letras negras, que misturavam escândalo, obsessão, e a palavra que pairava como veneno: psicopata.O jornalista investigativo havia publicado a primeira parte de sua reportagem especial. Nela, não apenas expunha os rastros financeiros deixados por Lucas ao longo dos anos, como também levantava suspeitas concretas sobre as mortes de Eduardo, Nicole e outras pessoas cujas histórias se cruzavam com a trajetória meteórica — e sombria — de Lucky.Ele não era mais um artista promissor. Agora, era uma figura dividida entre o gênio e o abismo. Entre o romantismo do público e a brutalidade dos fatos.E no meio desse furacão, estava Helena.---Ela tentava manter-se à margem da exposição. Os produtores da matéria, por ética e segurança, evitaram citá-

  • por trás do olhar   Vozes Que Não Se Calam

    Era madrugada quando Helena recebeu a ligação. A voz do outro lado da linha era urgente, mas não alarmada. O tipo de voz treinada para dar más notícias de forma suave, mas que, mesmo assim, cortava como navalha.— Tivemos um incidente no hospital. Alguém tentou invadir o quarto do paciente Lucas Valdez.Helena fechou os olhos. Não precisava de mais detalhes. Sentia o perigo se aproximando como uma onda negra que, mesmo sem vê-la, sabia que viria.— Ele está vivo? — perguntou, com a voz engasgada.— Sim. O paciente permanece em coma. Não chegaram a tocá-lo. Mas precisamos reforçar a segurança. Há pessoas demais interessadas no silêncio dele.Ela desligou sem dizer mais nada.Sentada na borda da cama, o coração batendo descompassado, Helena encarava o quarto escuro, sentindo o gosto metálico da culpa na boca.Era como se cada escolha que ela fizera tivesse puxado o mundo para esse abismo.Lucas estava entre a vida e a morte, mas sua presença... sua influência... ainda crescia como uma r

続きを読む
無料で面白い小説を探して読んでみましょう
GoodNovel アプリで人気小説に無料で!お好きな本をダウンロードして、いつでもどこでも読みましょう!
アプリで無料で本を読む
コードをスキャンしてアプリで読む
DMCA.com Protection Status