Clara O barulho da porta rangendo me acorda. Ainda sonolenta, viro para o lado e vejo a cama vazia. Marcos não estava ali quando adormeci, e pelo jeito acabou de chegar. A luz fraca do abajur da sala invade o corredor por alguns segundos antes de ele fechá-la devagar, como se quisesse não me acordar. Finjo que ainda durmo, mas escuto seus passos. Lentos. Pesados. E, principalmente, silenciosos demais para alguém que não tem nada a esconder. Ele entra no quarto, o cheiro de rua e de noite fria vindo junto. O colchão afunda quando ele se senta na beira da cama. Sua mão pousou na minha perna, quase num carinho mecânico, mas sem calor. — Você estava onde? — minha voz quebra o silêncio. Marcos congela, e eu sei que o peguei de surpresa. Ele demora alguns segundos para responder. — Coisa de trabalho. — Trabalho a ponto de voltar com essa cara? — me ergo, apoiando nos cotovelos. — Não tenta disfarçar, Marcos. Você está tenso. — Não quero te preocupar, Clara. — Ele suspira, massageando
Zuletzt aktualisiert : 2023-02-05 Mehr lesen