O camarim de Angel era um refúgio de brilhos gastos e segredos calados. O cheiro persistente de perfume barato se misturava ao suor do dia, às luzes incertas piscando no espelho, e ao som abafado da música lá fora, como um tambor pregando ansiedade.Helena, meio exausta, já desabotoava o último brinco, se encarava no espelho, mas não se reconhecia. Metade do rosto ainda coberto de maquiagem pesada, os cílios colando nas pálpebras, os lábios borrados de batom vermelho como sangue seco.Tirava as presilhas do cabelo, uma por uma, quando a batida na porta ecoou.De repente, uma batida seca cortou o ritmo moroso da madrugada.— Tá ocupado! — lançou, sem olhar, a voz cortante.Mas a insistência voltou, mais forte, mais imperiosa. Ela se ergueu com um suspiro irritado, puxando o robe de cetim sobre o corpo quase nu, esperando Dona Pérola, um cliente inconveniente, talvez mais um retrato da rotina miserável.Em vez disso, deparou-se com um estranho — um homem que não era um cliente qualquer.
Last Updated : 2026-08-17 Read more