O céu sobre Manhattan está carregado, nublado num cinza espesso que engole os últimos andares dos prédios mais altos que consigo observar daqui. A chuva começou fina, quase hesitante, mas agora escorre grossa pelas vidraças da sala ampla, riscos de água que se dividem e se juntam de novo, como se a própria janela tivesse veias.Nikolai está de pé, de costas para mim, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, olhando para a cidade lá embaixo através daquele véu cinzento. Não fala há alguns minutos. Só observa, o corpo rígido de um jeito que não é raiva, é outra coisa — algo mais antigo, mais pesado.— Você está bem? — pergunto, aproximando-me devagar.Ele não se vira de imediato.Ele assente devagar, ainda de costas, e por um momento fico ali, esperando, sem pressioná-lo. Aprendi, com ele mesmo, que algumas coisas só saem no próprio tempo.— Meus pais morreram em um dia como esse — começa, finalmente, a voz sem qualquer emoção aparente, como se estivesse relatando um fato qualquer, distant
Última actualización : 2026-09-22 Leer más