INICIAR SESIÓNPrometida aos treze anos a um bilionário russo dez anos mais velho, a filha do presidente de Karsóvia se casa com ele por obrigação, mas seu coração ainda pertence ao homem que o pai a fez pagar por amar. Yari Ashford sempre soube que seu sobrenome pertencia à política. Nikolai Konstantin, herdeiro de um império, também não queria esse casamento. Mas antes de chegar ao altar, Yari desafiou o pai: casou-se em segredo com Heitor, o homem que amava. E o presidente não perdoa quem o desobedece. Agora, diante de mais de trezentos convidados, ela caminha sozinha até Nikolai, com um vestido que esconde o que ninguém pode ver. — Eu, Yari Ashford, te aceito, Nikolai Aleksandr Konstantin, como meu legítimo esposo. Para te amar e respeitar, até que a morte nos separe. Mentiras. Quando ele se inclina para beijá-la, Yari fecha os olhos e pensa em Heitor. Nikolai percebe que a noiva não o olha como quem se casa por vontade própria. Mas o que ele fará quando descobrir o que o pai dela fez para trazê-la até o altar?
Ver másA floresta parece que vai me sufocar a qualquer momento. Cada galho que quebra debaixo dos meus pés soa alto demais, parecendo um tiro no meio daquela escuridão. O barulho continua ecoando dentro da minha cabeça, aumentando ainda mais o meu desespero. O ar aqui fora é tão gelado que machuca a minha garganta toda vez que eu tento respirar, como se o frio quisesse roubar até o pouco de ar que ainda resta nos meus pulmões. Atrás da gente, os sons ficam cada vez mais próximos. Consigo ouvir galhos se quebrando, vozes grossas atravessando a mata e passos pesados esmagando as folhas secas. Eles não estão mais longe.
Estão perto.
Perto demais.
Meu coração b**e tão forte e tão rápido que sinto cada pulsação latejar nas minhas têmporas. Parece que ele quer escapar do meu peito antes mesmo que eles consigam me alcançar. Minhas pernas tremem sem parar. Os músculos das minhas coxas queimam e imploram por um descanso que eu não posso dar. Eu sei muito bem que parar agora significa morrer. Ou algo muito pior do que a morte. Tropeço em uma raiz grossa escondida pela escuridão e pela lama. Perco completamente o equilíbrio. Meu corpo despenca para a frente, mas, antes que minhas mãos toquem o chão gelado, uma mão segura meu braço com força e me coloca de pé outra vez.
— Eles estão alcançando a gente — ele sussurra perto do meu ouvido.
A voz sai trêmula por causa do cansaço, enquanto os olhos procuram qualquer movimento no meio daquela escuridão.
— Eu não consigo mais correr... — minha voz sai fraca, cortada pela falta de ar. Tento engolir o choro, mas não consigo.
As lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto, misturando-se ao suor, à terra e à sujeira dessa fuga desesperada. Heitor para por apenas um segundo. Tempo suficiente para virar o rosto na minha direção e olhar bem dentro dos meus olhos. O cabelo está grudado na testa por causa do suor, e o peito sobe e desce depressa por causa do esforço. Mesmo assim, os olhos continuam os mesmos.
Firmes.
Teimosos.
A mesma teimosia que eu conheço tão bem e que me fez apaixonar por ele.
— Você consegue, sim! — ele diz, apertando meu braço com ainda mais força, como se quisesse me passar um pouco da coragem que ainda tem. — Se a gente parar agora, Yari, já era. Tudo o que a gente fez não vai valer de nada. Corra comigo. Só mais um pouco. Por favor... faça isso por nós.
E então o mundo volta a girar em um borrão. Voltamos a correr. Juntos. Heitor segura minha mão com força, entrelaçando os dedos aos meus. Ele me puxa para a frente, obrigando minhas pernas exaustas a continuarem. Olho rapidamente por cima do ombro, e o medo toma conta de mim outra vez. As luzes das lanternas surgem entre as árvores, cada vez mais próximas. Os gritos dos homens do meu pai ecoam por todos os lados. São vozes graves, de homens que sabem exatamente o que estão fazendo e que não sentem a menor pena da gente. Parece que estão vindo de todos os lados ao mesmo tempo, cercando a gente no meio do nada. Continuamos correndo por um caminho cercado por árvores tortas e antigas. O chão é um pesadelo, coberto por pedras pontudas e uma lama escura que gruda nos nossos pés e faz cada passo exigir o dobro de esforço. Galhos baixos e espinhos atingem o meu corpo enquanto atravessamos a mata sem pensar duas vezes. Eles rasgam a minha pele e deixam marcas que ardem no rosto, nos braços e nas pernas. Sinto o sangue escorrer pelo meu queixo, misturando-se ao vento gelado da noite, mas a dor é a última coisa com que posso me preocupar.
— Heitor, eu realmente não aguento mais! — grito, com os dentes batendo de puro pavor.
— A gente precisa sumir da visão deles. Continua, Yari. Só mais um pouco. Eu prometo que falta pouco.
Meus pulmões queimam a cada tentativa de respirar. O ar nunca parece suficiente, e a sensação de sufocamento aperta meu peito. Minhas pernas pesam como se estivessem presas à lama, e cada passo exige uma força que eu nem sei de onde ainda consigo tirar. O som do meu próprio coração é tão alto que, por um instante, tenho medo de que os homens que estão nos caçando também consigam ouvi-lo. Mas eu não posso parar. Se eu parar agora, aquela vida horrível que deixei para trás vai me alcançar de novo. Tudo o que construímos em segredo durante dois anos vai desaparecer.
Cada sorriso trocado nos corredores da faculdade.
Cada toque rápido, escondido entre os alunos.
Cada beijo roubado no estacionamento quando a noite caía.
Cada promessa que Heitor sussurrava no escuro do meu quarto, depois de subir pela janela só para segurar a minha mão e dizer que existia um mundo muito maior do que aquele em que eu vivia. Tudo isso vai virar cinzas se eu desistir agora. Olho rapidamente para baixo enquanto continuo correndo. Meu vestido de noiva está completamente destruído. Aquele vestido simples, macio, sem brilho algum, que comprei com todo o dinheiro que consegui juntar às escondidas para não ser rastreável… agora não passa de um monte de pano rasgado e encharcado. Está coberto de lama, com pedaços do tecido perdidos pelo caminho e manchado pelo meu próprio sangue. É impossível não comparar com o outro vestido. O vestido que meu pai mandou trazer de Paris. Pesado, coberto por pedras preciosas e feito para impressionar qualquer pessoa que o visse. O vestido que eu deveria usar em um casamento que nunca foi meu. Um casamento que não passava de um acordo entre famílias poderosas. A faculdade foi a única porta que encontrei para respirar. O único lugar onde consegui ser apenas a Yari. Foi lá que conheci Heitor.
Foi lá que, pela primeira vez, tive coragem de escolher o meu próprio caminho. “Você não é mais minha filha.” A voz do meu pai invade meus pensamentos outra vez, fria como o inverno. Foram as últimas palavras de Richard Ashford antes de mandar os seguranças atrás de nós. Meu estômago se revira ao lembrar do momento em que aqueles homens invadiram a pequena igreja bem no meio da cerimônia. Heitor não hesitou. Apenas segurou minha mão com força, olhou dentro dos meus olhos e gritou: — Corre!
O olhar do meu pai naquele instante ainda me persegue. Era o olhar de um homem que via um objeto escapando do próprio controle. Aquelas palavras machucaram muito mais do que qualquer espinho dessa floresta. E, desde então... Nós não paramos mais de fugir.
— Olha! Água! O grito de Heitor me arranca dos meus pensamentos.
A voz dele mistura alívio e um novo medo enquanto aponta para a frente. O rio surge entre as árvores como uma faixa escura, cercado por pedras perigosas. Pode ser a nossa salvação… ou a nossa sentença. A água corre com tanta força que parece engolir tudo o que encontra pelo caminho. Choveu muito nos últimos dias na Escócia, e o barulho da correnteza batendo contra as pedras ecoa pela floresta, indiferente ao nosso desespero.
— A gente tem que atravessar. — Heitor solta uma nuvem branca de vapor ao falar por causa do frio. Pela primeira vez desde que entramos na parte mais fechada da mata, ele se vira completamente para mim. Sob a luz fraca da lua, consigo enxergar melhor o rosto dele. Há arranhões profundos nas bochechas, um corte acima da sobrancelha esquerda e um fio de sangue escorrendo pelo canto do rosto. Os olhos castanhos, que sempre foram o meu lugar seguro, agora estão arregalados pelo medo e pela urgência. Ainda assim, quando ele olha para mim, alguma coisa muda. A expressão dele se suaviza por um instante.
— Você confia em mim?
Ele pergunta, aproximando-se e segurando meu rosto com as duas mãos trêmulas.
Minha mão treme de leve, mas eu estou nervosa, porque punir é ter a justiça feita por mim, por Heitor, minha mãe e por muitas outras pessoas com as quais ele tirou as vidas, apenas por capricho, onde o seu poder não manipulou ou alcançou.— É punido, sim, só que de outro jeito. O juiz não aplica uma pena, aplica o que a lei chama de medida de segurança. E o cumprimento dela não é numa penitenciária comum, é num hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, o que muita gente ainda chama, por hábito antigo, de manicômio judiciário. É um lugar fechado, com grades, com segurança; a senhora não deve imaginar um hospital comum de portas abertas. Mas é também um lugar com médicos, com acompanhamento, porque o juiz reconheceu que ali não mora só um criminoso. Mora também um homem cuja mente não funciona como a lei espera que a mente de alguém funcione antes de responder plenamente pelos próprios atos.Fico em silêncio, deixando as palavras assentarem, cada uma encontrando um lugar diferente
O interfone toca antes das nove, um som seco que atravessa a casa ainda quieta de domingo. Quando abro a porta, o doutor Markov está parado no degrau, uma garrafa de vinho presa contra o corpo pelo cotovelo, o outro braço ajeitando o sobretudo bege contra o vento. Ele ergue a garrafa de leve, como quem mostra a senha de uma entrada.— Nikolai pediu que eu viesse — ele diz, os olhos correndo rápido pelo corredor atrás de mim antes de voltarem para o meu rosto. — Disse que seria melhor a senhora ouvir de um médico do que ler em laudos.— Entre — digo, e me afasto da porta. — E pode me chamar de Yari.Ele entra devagar, limpando os sapatos no capacho, mesmo sem neve ou terra grudada neles. Sem a sala de visitas do tribunal, sem o agente parado na porta, sem o jaleco, ele encolhe. Vira só um homem carregando um casaco pesado demais para o corpo magro, o peso de um conhecimento que ninguém pediu, mas que ele traz do mesmo jeito. Entrega o casaco e o vinho para a Amy, que o recebe com as du
Eu não queria me casar.Lembro-me exatamente do dia em que minha avó anunciou o acordo, sentada à mesa de jantar com aquela calma que ela usa quando já decidiu algo e só está me avisando, não perguntando, os talheres organizados com uma precisão que só reforçava o quanto aquilo já estava resolvido antes de eu abrir a boca. Lembro da irritação subindo pela garganta, da vontade de bater a porta, de dizer que minha vida não era peça de tabuleiro para ser movida conforme a conveniência política de ninguém.Eu não conhecia a Yari.Conhecia apenas o nome — filha do presidente Ashford, herdeira de um sobrenome pesado, peça de um jogo que eu nunca pedi para jogar. Imaginei, antes de conhecê-la, alguém treinada para aquilo. Alguém que soubesse sorrir nos momentos certos, dizer as frases certas, representar o papel de esposa perfeita sem nunca deixar transparecer o que realmente sentia por baixo do verniz.Eu estava certo sobre o verniz, mas completamente errado sobre o motivo dele existir.Lev
Dois meses depois…A noite caiu devagar sobre o quarto, o céu lá fora passando por tons de laranja, depois roxo, depois um azul profundo que agora se reencosta contra a janela. Matteo dorme no berço co-sleeper , o peito subindo e descendo em ritmo perfeito, os punhos pequenos fechados ao lado do rosto como se ainda segurasse, mesmo dormindo, algum sonho importante demais para soltar. A luz do abajur é baixa, quente, suficiente para iluminar o rosto de Nikolai, sentado na poltrona ao lado da cama, ainda com o livro aberto no colo, que ele finge ler há meia hora, os olhos parados na mesma página desde que entramos no quarto.Eu não consigo dormir. As palavras estão dentro de mim há dias, fermentando, pedindo saída, crescendo a cada noite como uma maré que já não cabe mais atrás dos dentes. Preciso dizê-las em voz alta, senão vão me sufocar.Nikolai percebe meu movimento antes mesmo que eu diga qualquer coisa — sempre percebe. Fecha o livro devagar, marcando a página com o dedo por hábi












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