Ponto de vista de FernandaEu não morri. Fiquei à deriva, levada pela correnteza, por um tempo que nem sei calcular. Em algum momento, bati contra alguma coisa, e uma dor surda começou a latejar na altura das costelas.Quando recobrei a consciência, uma mão me puxava para fora dos juncos.— Meu Deus, de onde saiu essa mulher?Quem me acolheu foi Letícia, dona de uma pequena mercearia. Ela não perguntou de onde eu vinha nem por que meu corpo estava coberto de ferimentos.Apenas me enfiou debaixo das cobertas, me fez tomar duas tigelas de caldo quente e, resmungando sem parar, disse:— Você teve sorte. Escapou da morte por muito pouco.Passei uma semana inteira deitada no sótão da casa dela. A febre cedeu e, aos poucos, as feridas começaram a criar casquinha.Letícia arranjou para mim algumas roupas velhas da filha e depois tirou uma tesoura de uma gaveta.— Seu cabelo está todo embaraçado. É melhor cortar.Peguei a tesoura e, diante do espelho, comecei a cortar mecha por mecha. Enquanto
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