LOGINEm plena cerimônia de casamento, eu tinha acabado de receber das mãos da madrinha as alianças que selariam nosso amor. Nem tive tempo de trocá-las quando, de repente, Gabriel Oliveira arrancou o microfone das mãos do mestre de cerimônias. — Pronto, você já teve sua experiência como noiva. Agora pode voltar direitinho a ser minha amante. Ergui a cabeça, atônita, sem conseguir entender o que estava acontecendo. A madrinha que acabara de trazer as alianças, a grande amiga com quem, segundo Gabriel, ele mantinha uma amizade puramente platônica, enlaçou o braço ao dele com toda a intimidade. — Ah, Gabriel, por que você foi estragar a surpresa tão cedo? Agora há pouco, lá embaixo, ela estava me agradecendo por ter cuidado de você durante todos esses anos. Disse até que, quando vocês tivessem um filho, me escolheria como madrinha! Minha mente ficou completamente em branco. As lágrimas começaram a escorrer quase por instinto. Gabriel apertou minha bochecha com carinho, como se sentisse pena de mim. — Fernanda, não chore. Você fica tão bonitinha chorando que vou acabar querendo enganar você mais algumas vezes. Beatriz é muito generosa. Desde que você se comporte e faça o que eu mandar, ela não se importa que você continue ao meu lado como minha amante. Minha visão escureceu por alguns instantes. Só então entendi. A grande amiga com quem Gabriel dizia manter uma amizade puramente platônica sempre fora sua noiva. A verdadeira noiva daquele casamento era ela.
View MoreDepois daquela noite, Gabriel desapareceu. A cadeira dobrável continuava diante da porta, coberta por uma fina camada de poeira.Letícia disse que ainda nem tinha amanhecido quando ele foi embora. O carro saiu devagar e ficou parado por um bom tempo na entrada do beco antes de finalmente virar a esquina.Guardei a cadeira dobrável no depósito. A vida voltou a ser tranquila.Um mês depois, enquanto eu assistia à televisão, Letícia de repente me chamou.— Júlia, venha ver. Não é aquele homem que ficava plantado na sua porta?Na tela, Gabriel estava em frente ao tribunal, cercado por jornalistas. Tinha emagrecido tanto que o terno parecia grande demais para ele, mas seu olhar continuava perfeitamente lúcido.A manchete dizia que o presidente do Grupo Oliveira havia denunciado pessoalmente a própria esposa, Beatriz, por ter mandado cometer um estupro e provocar lesões corporais dolosas.A imagem mudou para o interior do tribunal. Beatriz estava sentada no banco dos réus, com o rosto envelh
Gabriel começou a se estabelecer de vez na cidadezinha, sem a menor intenção de ir embora. Comprou a mercearia de Letícia e, depois de receber o dinheiro, ela deu alguns tapinhas no meu ombro, com uma expressão difícil de decifrar.— Júlia, aquele homem ofereceu dinheiro demais. Eu não tinha como recusar. Mas, se você não quiser mais trabalhar aqui, pode ir embora quando quiser. Eu cuido de você.Eu disse que estava tudo bem e continuei trabalhando. A mercearia tinha mudado de dono, mas os produtos continuavam os mesmos, e eu continuava sentada atrás do caixa.A única diferença era a cadeira dobrável que agora ficava na entrada. Gabriel se sentava ali todos os dias, da manhã até a noite.Quase sempre trazia alguma coisa que eu costumava adorar comer. Ele não entrava. Ficava apenas ali, encolhido junto à porta.Os vizinhos começaram a comentar.— Quem é aquele homem para a Júlia?— Parece rico. Por que fica plantado na porta o dia inteiro?— Não vai me dizer que ele é traficante de pess
Lá fora, tudo ficou em silêncio por uns três segundos. Então vieram os socos contra a porta de metal, abafados e frenéticos.— Fernanda! — A voz dele estava terrivelmente rouca. — Fernanda, abra a porta, por favor. Eu imploro.Sentada no banquinho atrás do caixa, baixei os olhos e comecei a contar as moedas que estavam à mão. Ele continuou batendo por um longo tempo, até que o som dos socos deu lugar a um baque surdo: sua testa havia se apoiado contra o metal.— Você não morreu... Você realmente não morreu... Graças a Deus...Ele estava chorando. Separei as moedas e as coloquei nos compartimentos da gaveta do caixa.Letícia entrou pela porta dos fundos, olhou para a porta de enrolar e depois para mim.— Aquele homem... Veio atrás de você?— Não conheço. — Respondi.Ela tornou a olhar naquela direção, como se quisesse dizer alguma coisa, mas acabou desistindo e foi para o quintal.Gabriel ficou do lado de fora a tarde inteira. Anoiteceu, e ele ainda não tinha ido embora. Saí pela porta
Ponto de vista de FernandaEu não morri. Fiquei à deriva, levada pela correnteza, por um tempo que nem sei calcular. Em algum momento, bati contra alguma coisa, e uma dor surda começou a latejar na altura das costelas.Quando recobrei a consciência, uma mão me puxava para fora dos juncos.— Meu Deus, de onde saiu essa mulher?Quem me acolheu foi Letícia, dona de uma pequena mercearia. Ela não perguntou de onde eu vinha nem por que meu corpo estava coberto de ferimentos.Apenas me enfiou debaixo das cobertas, me fez tomar duas tigelas de caldo quente e, resmungando sem parar, disse:— Você teve sorte. Escapou da morte por muito pouco.Passei uma semana inteira deitada no sótão da casa dela. A febre cedeu e, aos poucos, as feridas começaram a criar casquinha.Letícia arranjou para mim algumas roupas velhas da filha e depois tirou uma tesoura de uma gaveta.— Seu cabelo está todo embaraçado. É melhor cortar.Peguei a tesoura e, diante do espelho, comecei a cortar mecha por mecha. Enquanto












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