
A Pousada das ondas
Laura Vasconcelos tinha uma vida inteira planejada.
Uma carreira construída ao longo de doze anos em São Paulo. Um apartamento. Um casamento marcado. Um futuro que parecia decidido.
Até perder tudo quase de uma vez.
Quando uma tia distante lhe deixa como herança uma antiga pousada à beira-mar, Laura enxerga na pequena cidade de Vento Sul a oportunidade perfeita para desaparecer por algum tempo — e talvez descobrir quem é quando já não existe um plano a seguir.
Só há um pequeno problema.
A pousada está caindo aos pedaços.
E o único homem capaz de salvá-la é Rafael Duarte.
Marceneiro, teimoso e tão ligado àquela cidade quanto Laura está determinada a acreditar que sua passagem por ela será temporária, Rafa deixa claro desde o primeiro encontro que não espera que a mulher da cidade grande dure mais que um verão.
Laura pretende provar que ele está errado.
Entre vigas apodrecidas, manhãs com cheiro de café, noites embaladas pelo som das ondas e uma cidade pequena onde segredos duram pouco, os dois começam a reconstruir muito mais do que uma velha pousada.
Porque Rafa também sabe o que significa perder.
Desde que o mar levou seu pai, ele aprendeu que amar alguma coisa é dar a ela o poder de partir. Laura, depois de ver doze anos de sua vida desaparecerem, decidiu que nunca mais construiria seu futuro ao redor de outra pessoa.
Nenhum dos dois está procurando por amor.
Mas, às vezes, um recomeço chega exatamente na forma que mais assusta.
E quando uma proposta milionária coloca nas mãos de Laura a chance de abandonar Vento Sul e recuperar a segurança que perdeu, ela terá que decidir o que realmente significa começar de novo.
Porque algumas casas podem ser reformadas. Alguns corações também.
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Chapter: Capítulo 4 — Vigas e SilênciosO diagnóstico do telhado foi pior do que Laura esperava: vigas apodrecidas em pelo menosquatro pontos, madeiramento comprometido pela umidade acumulada de anos de negligência,um problema que exigiria semanas de trabalho e um orçamento que fez Laura sentar-se,atordoada, na escada da varanda.— Não precisa fazer tudo de uma vez — disse Rafael, notando a expressão dela. — Dá prair por etapas. Primeiro eu resolvo o que está com risco real de desabar, depois a gente vê o restoconforme o orçamento permitir.— "A gente"?— Força de expressão.acidental. — Você vê o resto, eu quis dizer.— Ele desviou o olhar, quase constrangido pela informalidadeMas o "a gente" ficou pairando entre eles pelas semanas seguintes, quase profético, enquantoRafael aparecia de manhã cedo, quase sempre calado no início, media, cortava, martelava, e Laura— que não tinha mais escritório para onde fugir, nem reuniões para preencher as horas —aprendeu a trabalhar ao lado dele sem falar muito, os dois entregues
Última actualización: 2026-08-24
Chapter: Capítulo 3 — Marcenaria DuarteA placa de madeira dizia MARCENARIA DUARTE — DESDE 1978, as letras entalhadas àmão, e o cheiro de serragem que saía pela porta aberta lembrou Laura, de repente e sem aviso, daoficina do avô que ela visitava quando criança, nas raras férias em que a família toda se reunia.Era um cheiro bom, quente, de madeira recém-cortada e verniz secando ao sol. Isso a deixouainda mais irritada — não queria gostar de nada relacionado àquele homem antipático do barco.Rafael estava debruçado sobre uma bancada, lixando uma peça de madeira com movimentosprecisos e repetitivos, uma cadeira de balanço tomando forma sob suas mãos, quando ela entrou.Rádio velho tocando uma música sertaneja baixinho num canto, prateleiras cheias de ferramentasorganizadas com um cuidado quase militar, apesar da aparente bagunça de serragem espalhadapelo chão.— Vim pelo telhado da pousada — disse Laura, direto ao ponto, decidida a não repetir odesastre educado do dia anterior.Ele não parou de lixar, nem ergueu os ol
Última actualización: 2026-08-24
Chapter: Capítulo 2 — Doze Anos em Três MalasA pousada, por dentro, cheirava a mofo e a memória em partes quase iguais. Laura passou osdedos pela poeira grossa da escrivaninha da tia, encontrou cadernos de contas em letra tremida,fotos amareladas de um tempo em que Vento Sul ainda tinha um cinema e a pousada recebiahóspedes suficientes para lotar as doze suítes do andar de cima.Ela tinha trinta e dois anos e havia reduzido a vida inteira a três malas, uma caixa de livros eum espelho de corpo inteiro que Marina insistira que ela levasse "porque toda mulherrecomeçando a vida precisa se ver por inteiro de vez em quando". Doze anos numa agência demarketing em São Paulo — começando como estagiária de mesa emprestada, terminando comodiretora de contas com sala própria e vista para a Marginal — um noivado que terminou seismeses antes do casamento, num restaurante japonês caro demais, um apartamento vendido àspressas para pagar as dívidas que Eduardo tinha deixado como herança amarga da separação.Tudo isso cabia, de alguma fo
Última actualización: 2026-08-24
Chapter: Capítulo 1 — A Chave EnferrujadaO ônibus tinha deixado São Paulo doze horas antes, mas foi só quando a estrada de asfaltovirou terra batida, e o cheiro de maresia começou a se infiltrar pelas frestas do vidro do carroalugado, que Laura Vasconcelos sentiu que estava mesmo deixando a vida antiga para trás.Vento Sul aparecia aos poucos: primeiro os coqueiros tortos beirando a estrada, depois ostelhados baixos das casas de pescadores, depois o mar — enorme, azul-esverdeado, batendocontra um paredão de pedras que parecia guardar a cidade do resto do mundo. Era bonito de umjeito que doía olhar, o tipo de paisagem que fazia qualquer pessoa lembrar do tamanho da própriavida.O caminhão de mudanças, que ela tinha contratado numa transportadora da cidade vizinha,parou no meio da rua de terra, e Laura teve certeza, pela primeira vez em três meses, de que tinhacometido um erro. Um erro bonito, talvez, mas ainda assim um erro.A Pousada Girassol — herdada num parágrafo seco de testamento, assinado por umadvogado que ma
Última actualización: 2026-08-24