MasukO diagnóstico do telhado foi pior do que Laura esperava: vigas apodrecidas em pelo menos
quatro pontos, madeiramento comprometido pela umidade acumulada de anos de negligência, um problema que exigiria semanas de trabalho e um orçamento que fez Laura sentar-se, atordoada, na escada da varanda. — Não precisa fazer tudo de uma vez — disse Rafael, notando a expressão dela. — Dá pra ir por etapas. Primeiro eu resolvo o que está com risco real de desabar, depois a gente vê o resto conforme o orçamento permitir. — "A gente"? — Força de expressão. acidental. — Você vê o resto, eu quis dizer. — Ele desviou o olhar, quase constrangido pela informalidade Mas o "a gente" ficou pairando entre eles pelas semanas seguintes, quase profético, enquanto Rafael aparecia de manhã cedo, quase sempre calado no início, media, cortava, martelava, e Laura — que não tinha mais escritório para onde fugir, nem reuniões para preencher as horas — aprendeu a trabalhar ao lado dele sem falar muito, os dois entregues a tarefas paralelas: ele salvando vigas com uma paciência quase reverente, ela catalogando o que restava da vida da tia Iolanda em caixas de papelão, limpando móveis antigos, tentando decifrar, através de objetos e cartas guardadas, quem tinha sido aquela mulher que ela mal conhecera. Foi Seu Amâncio — o ajudante idoso de Rafael, um homem de mãos enormes e sorriso desdentado que aparecia três vezes por semana para ajudar com o trabalho mais pesado — quem primeiro contou a Laura, numa pausa para o café da tarde, sobre o pai de Rafael. — Perdeu o pai no mar, sabe. Tinha uns vinte anos, o Rafa. Uma noite de pesca que devia ser rotina virou tragédia. Desde então não sai mais de barco à noite, nem que a esmola seja grande. — O barco dele parecia bem à vontade na água — comentou Laura, lembrando do primeiro encontro no cais, o jeito relaxado como Rafael tinha manobrado a pequena embarcação. — De dia, sim. Sabe lidar com o mar melhor que ninguém dessa costa inteira, de dia. À noite, ele nem chega perto do cais. — Amâncio abaixou a voz, olhando de relance para o quintal onde Rafael cortava uma tábua, como quem revela um segredo que não é seu para contar mas não resiste a contar mesmo assim. — Também teve aquela história com a moça de Florianópolis. Amanda, se chamava. Noiva quase um ano, os dois. Foi embora depois que ele recusou sair da cidade, mudar pra lá com ela. Disse que não conseguia deixar a marcenaria, a mãe dele sozinha, tudo isso. Mas eu acho — e aqui é só opinião de velho, viu — que ele tinha medo de amar alguém e perder de novo. Já perdeu gente demais nessa vida pra confiar fácil. Laura guardou aquilo como quem guarda uma pedra no bolso — sem saber ainda por que precisaria dela, mas sentindo, de alguma forma instintiva, que aquele peso seria importante mais cedo ou mais tarde. Naquela tarde, um temporal de verão chegou sem aviso, do jeito que só chegam os temporais litorâneos: um céu limpo que em vinte minutos virava um breu rasgado por relâmpagos, o ar ficando denso e elétrico segundos antes da primeira gota. Rafael e Laura, presos no telhado meio desmontado, tentando cobrir as partes abertas com lona antes que a chuva estragasse o trabalho da semana, correram para dentro no exato momento em que a chuva começou a cair em cordas grossas, encharcando os dois em questão de segundos. Encharcados, ofegantes, riram — pela primeira vez, riram juntos, um riso genuíno e sem defesas — da situação absurda: os dois parados na sala vazia da pousada, pingando água no chão de tábuas corridas recém-lixadas, o temporal uivando lá fora, os cabelos grudados na testa, as roupas coladas ao corpo. — Você não é tão insuportável quanto no primeiro dia — disse Laura, torcendo a barra da camisa, tentando não notar como a camisa molhada dele desenhava os contornos do peito e dos ombros. — Você também não — respondeu ele, e havia algo na voz dele, um cuidado inesperado, quase surpreso consigo mesmo, que fez o estômago de Laura dar um salto que ela preferiu ignorar veementemente. Ficaram ali, o silêncio preenchido só pelo barulho da chuva batendo no telhado ainda incompleto, olhando um para o outro por um segundo a mais do que deveriam, o ar entre eles carregado de alguma coisa que nenhum dos dois estava pronto para nomear.— Preciso ir buscar mais lona — disse Rafael, finalmente, a voz um pouco rouca, quebrando
o momento. — Antes que essa chuva estrague todo o trabalho da semana. — Está chovendo torrencial lá fora. — Eu sei lidar com chuva. — Ele já estava pegando a jaqueta pendurada perto da porta. — É o resto que às vezes me complica. Ele saiu correndo para a caminhonete, e Laura ficou olhando pela janela até as luzes sumirem na curva da estrada, sentindo, contra toda razão, uma pontada de decepção que ela decidiu, categoricamente, ignorar pelo resto da noite — decisão que durou exatamente até a hora de dormir, quando o rosto dele, os olhos escuros fixos nos dela por aquele segundo a mais, voltou insistentemente à sua cabeça. A chuva continuou a noite inteira, um tamborilar constante no telhado ainda incompleto que, longe de incomodar, embalou Laura num sono mais profundo do que ela tinha tido desde a chegada a Vento Sul. Acordou de manhã com o som de pingos ainda caindo, mais fracos agora, e uma poça pequena se formando exatamente no canto onde Rafael tinha avisado que a lona não daria conta sozinha. Passou a manhã seguinte com um balde estrategicamente posicionado, ouvindo o plim-plim rítmico da água caindo, e usou o tempo de espera — porque Rafael prometera voltar assim que a estrada secasse o suficiente para a caminhonete não atolar — para organizar, enfim, o quarto que escolhera para si mesma, o menor dos três disponíveis no andar de cima, mas o único com vista direta para o mar através de uma janela emoldurada por duas árvores torcidas pelo vento. Sentada na cama ainda sem lençóis, olhando para aquela vista, Laura permitiu-se, pela primeira vez desde a separação com Eduardo, imaginar um futuro que não fosse apenas sobrevivência — um futuro com manhãs como aquela, café fresco, o som do mar como trilha sonora constante, talvez até, embora ela ainda não tivesse coragem de admitir isso nem para si mesma, um futuro que incluísse aquele marceneiro teimoso de olhos escuros que insistia em aparecer nos seus pensamentos com uma frequência cada vez mais incômoda.O diagnóstico do telhado foi pior do que Laura esperava: vigas apodrecidas em pelo menosquatro pontos, madeiramento comprometido pela umidade acumulada de anos de negligência,um problema que exigiria semanas de trabalho e um orçamento que fez Laura sentar-se,atordoada, na escada da varanda.— Não precisa fazer tudo de uma vez — disse Rafael, notando a expressão dela. — Dá prair por etapas. Primeiro eu resolvo o que está com risco real de desabar, depois a gente vê o restoconforme o orçamento permitir.— "A gente"?— Força de expressão.acidental. — Você vê o resto, eu quis dizer.— Ele desviou o olhar, quase constrangido pela informalidadeMas o "a gente" ficou pairando entre eles pelas semanas seguintes, quase profético, enquantoRafael aparecia de manhã cedo, quase sempre calado no início, media, cortava, martelava, e Laura— que não tinha mais escritório para onde fugir, nem reuniões para preencher as horas —aprendeu a trabalhar ao lado dele sem falar muito, os dois entregues
A placa de madeira dizia MARCENARIA DUARTE — DESDE 1978, as letras entalhadas àmão, e o cheiro de serragem que saía pela porta aberta lembrou Laura, de repente e sem aviso, daoficina do avô que ela visitava quando criança, nas raras férias em que a família toda se reunia.Era um cheiro bom, quente, de madeira recém-cortada e verniz secando ao sol. Isso a deixouainda mais irritada — não queria gostar de nada relacionado àquele homem antipático do barco.Rafael estava debruçado sobre uma bancada, lixando uma peça de madeira com movimentosprecisos e repetitivos, uma cadeira de balanço tomando forma sob suas mãos, quando ela entrou.Rádio velho tocando uma música sertaneja baixinho num canto, prateleiras cheias de ferramentasorganizadas com um cuidado quase militar, apesar da aparente bagunça de serragem espalhadapelo chão.— Vim pelo telhado da pousada — disse Laura, direto ao ponto, decidida a não repetir odesastre educado do dia anterior.Ele não parou de lixar, nem ergueu os ol
A pousada, por dentro, cheirava a mofo e a memória em partes quase iguais. Laura passou osdedos pela poeira grossa da escrivaninha da tia, encontrou cadernos de contas em letra tremida,fotos amareladas de um tempo em que Vento Sul ainda tinha um cinema e a pousada recebiahóspedes suficientes para lotar as doze suítes do andar de cima.Ela tinha trinta e dois anos e havia reduzido a vida inteira a três malas, uma caixa de livros eum espelho de corpo inteiro que Marina insistira que ela levasse "porque toda mulherrecomeçando a vida precisa se ver por inteiro de vez em quando". Doze anos numa agência demarketing em São Paulo — começando como estagiária de mesa emprestada, terminando comodiretora de contas com sala própria e vista para a Marginal — um noivado que terminou seismeses antes do casamento, num restaurante japonês caro demais, um apartamento vendido àspressas para pagar as dívidas que Eduardo tinha deixado como herança amarga da separação.Tudo isso cabia, de alguma fo
O ônibus tinha deixado São Paulo doze horas antes, mas foi só quando a estrada de asfaltovirou terra batida, e o cheiro de maresia começou a se infiltrar pelas frestas do vidro do carroalugado, que Laura Vasconcelos sentiu que estava mesmo deixando a vida antiga para trás.Vento Sul aparecia aos poucos: primeiro os coqueiros tortos beirando a estrada, depois ostelhados baixos das casas de pescadores, depois o mar — enorme, azul-esverdeado, batendocontra um paredão de pedras que parecia guardar a cidade do resto do mundo. Era bonito de umjeito que doía olhar, o tipo de paisagem que fazia qualquer pessoa lembrar do tamanho da própriavida.O caminhão de mudanças, que ela tinha contratado numa transportadora da cidade vizinha,parou no meio da rua de terra, e Laura teve certeza, pela primeira vez em três meses, de que tinhacometido um erro. Um erro bonito, talvez, mas ainda assim um erro.A Pousada Girassol — herdada num parágrafo seco de testamento, assinado por umadvogado que ma







