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Capítulo 4 — Vigas e Silêncios

Author: Marina Louise
last update publish date: 2026-08-24 08:35:01

O diagnóstico do telhado foi pior do que Laura esperava: vigas apodrecidas em pelo menos

quatro pontos, madeiramento comprometido pela umidade acumulada de anos de negligência,

um problema que exigiria semanas de trabalho e um orçamento que fez Laura sentar-se,

atordoada, na escada da varanda.

— Não precisa fazer tudo de uma vez — disse Rafael, notando a expressão dela. — Dá pra

ir por etapas. Primeiro eu resolvo o que está com risco real de desabar, depois a gente vê o resto

conforme o orçamento permitir.

— "A gente"?

— Força de expressão.

acidental. — Você vê o resto, eu quis dizer.

— Ele desviou o olhar, quase constrangido pela informalidade

Mas o "a gente" ficou pairando entre eles pelas semanas seguintes, quase profético, enquanto

Rafael aparecia de manhã cedo, quase sempre calado no início, media, cortava, martelava, e Laura

— que não tinha mais escritório para onde fugir, nem reuniões para preencher as horas —

aprendeu a trabalhar ao lado dele sem falar muito, os dois entregues a tarefas paralelas: ele

salvando vigas com uma paciência quase reverente, ela catalogando o que restava da vida da tia

Iolanda em caixas de papelão, limpando móveis antigos, tentando decifrar, através de objetos e

cartas guardadas, quem tinha sido aquela mulher que ela mal conhecera.

Foi Seu Amâncio — o ajudante idoso de Rafael, um homem de mãos enormes e sorriso

desdentado que aparecia três vezes por semana para ajudar com o trabalho mais pesado — quem

primeiro contou a Laura, numa pausa para o café da tarde, sobre o pai de Rafael.

— Perdeu o pai no mar, sabe. Tinha uns vinte anos, o Rafa. Uma noite de pesca que devia

ser rotina virou tragédia. Desde então não sai mais de barco à noite, nem que a esmola seja

grande.

— O barco dele parecia bem à vontade na água — comentou Laura, lembrando do primeiro

encontro no cais, o jeito relaxado como Rafael tinha manobrado a pequena embarcação.

— De dia, sim. Sabe lidar com o mar melhor que ninguém dessa costa inteira, de dia. À

noite, ele nem chega perto do cais.

— Amâncio abaixou a voz, olhando de relance para o quintal onde Rafael cortava uma tábua, como quem revela um segredo que não é seu para contar mas

não resiste a contar mesmo assim. — Também teve aquela história com a moça de Florianópolis.

Amanda, se chamava. Noiva quase um ano, os dois. Foi embora depois que ele recusou sair da

cidade, mudar pra lá com ela. Disse que não conseguia deixar a marcenaria, a mãe dele sozinha,

tudo isso. Mas eu acho — e aqui é só opinião de velho, viu — que ele tinha medo de amar

alguém e perder de novo. Já perdeu gente demais nessa vida pra confiar fácil.

Laura guardou aquilo como quem guarda uma pedra no bolso — sem saber ainda por que

precisaria dela, mas sentindo, de alguma forma instintiva, que aquele peso seria importante mais

cedo ou mais tarde.

Naquela tarde, um temporal de verão chegou sem aviso, do jeito que só chegam os

temporais litorâneos: um céu limpo que em vinte minutos virava um breu rasgado por

relâmpagos, o ar ficando denso e elétrico segundos antes da primeira gota. Rafael e Laura, presos

no telhado meio desmontado, tentando cobrir as partes abertas com lona antes que a chuva

estragasse o trabalho da semana, correram para dentro no exato momento em que a chuva

começou a cair em cordas grossas, encharcando os dois em questão de segundos.

Encharcados, ofegantes, riram — pela primeira vez, riram juntos, um riso genuíno e sem

defesas — da situação absurda: os dois parados na sala vazia da pousada, pingando água no chão

de tábuas corridas recém-lixadas, o temporal uivando lá fora, os cabelos grudados na testa, as

roupas coladas ao corpo.

— Você não é tão insuportável quanto no primeiro dia — disse Laura, torcendo a barra da

camisa, tentando não notar como a camisa molhada dele desenhava os contornos do peito e dos

ombros.

— Você também não — respondeu ele, e havia algo na voz dele, um cuidado inesperado,

quase surpreso consigo mesmo, que fez o estômago de Laura dar um salto que ela preferiu

ignorar veementemente.

Ficaram ali, o silêncio preenchido só pelo barulho da chuva batendo no telhado ainda

incompleto, olhando um para o outro por um segundo a mais do que deveriam, o ar entre eles

carregado de alguma coisa que nenhum dos dois estava pronto para nomear.

— Preciso ir buscar mais lona — disse Rafael, finalmente, a voz um pouco rouca, quebrando

o momento.

— Antes que essa chuva estrague todo o trabalho da semana.

— Está chovendo torrencial lá fora.

— Eu sei lidar com chuva. — Ele já estava pegando a jaqueta pendurada perto da porta. —

É o resto que às vezes me complica.

Ele saiu correndo para a caminhonete, e Laura ficou olhando pela janela até as luzes

sumirem na curva da estrada, sentindo, contra toda razão, uma pontada de decepção que ela

decidiu, categoricamente, ignorar pelo resto da noite — decisão que durou exatamente até a hora

de dormir, quando o rosto dele, os olhos escuros fixos nos dela por aquele segundo a mais,

voltou insistentemente à sua cabeça.

A chuva continuou a noite inteira, um tamborilar constante no telhado ainda incompleto

que, longe de incomodar, embalou Laura num sono mais profundo do que ela tinha tido desde a

chegada a Vento Sul. Acordou de manhã com o som de pingos ainda caindo, mais fracos agora, e

uma poça pequena se formando exatamente no canto onde Rafael tinha avisado que a lona não

daria conta sozinha.

Passou a manhã seguinte com um balde estrategicamente posicionado, ouvindo o plim-plim

rítmico da água caindo, e usou o tempo de espera — porque Rafael prometera voltar assim que a

estrada secasse o suficiente para a caminhonete não atolar — para organizar, enfim, o quarto que

escolhera para si mesma, o menor dos três disponíveis no andar de cima, mas o único com vista

direta para o mar através de uma janela emoldurada por duas árvores torcidas pelo vento.

Sentada na cama ainda sem lençóis, olhando para aquela vista, Laura permitiu-se, pela

primeira vez desde a separação com Eduardo, imaginar um futuro que não fosse apenas

sobrevivência — um futuro com manhãs como aquela, café fresco, o som do mar como trilha

sonora constante, talvez até, embora ela ainda não tivesse coragem de admitir isso nem para si

mesma, um futuro que incluísse aquele marceneiro teimoso de olhos escuros que insistia em

aparecer nos seus pensamentos com uma frequência cada vez mais incômoda.

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