A Pousada das ondas

A Pousada das ondas

last updateLast Updated : 2026-08-24
By:  Marina LouiseOngoing
Language: Portuguese
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Laura Vasconcelos tinha uma vida inteira planejada. Uma carreira construída ao longo de doze anos em São Paulo. Um apartamento. Um casamento marcado. Um futuro que parecia decidido. Até perder tudo quase de uma vez. Quando uma tia distante lhe deixa como herança uma antiga pousada à beira-mar, Laura enxerga na pequena cidade de Vento Sul a oportunidade perfeita para desaparecer por algum tempo — e talvez descobrir quem é quando já não existe um plano a seguir. Só há um pequeno problema. A pousada está caindo aos pedaços. E o único homem capaz de salvá-la é Rafael Duarte. Marceneiro, teimoso e tão ligado àquela cidade quanto Laura está determinada a acreditar que sua passagem por ela será temporária, Rafa deixa claro desde o primeiro encontro que não espera que a mulher da cidade grande dure mais que um verão. Laura pretende provar que ele está errado. Entre vigas apodrecidas, manhãs com cheiro de café, noites embaladas pelo som das ondas e uma cidade pequena onde segredos duram pouco, os dois começam a reconstruir muito mais do que uma velha pousada. Porque Rafa também sabe o que significa perder. Desde que o mar levou seu pai, ele aprendeu que amar alguma coisa é dar a ela o poder de partir. Laura, depois de ver doze anos de sua vida desaparecerem, decidiu que nunca mais construiria seu futuro ao redor de outra pessoa. Nenhum dos dois está procurando por amor. Mas, às vezes, um recomeço chega exatamente na forma que mais assusta. E quando uma proposta milionária coloca nas mãos de Laura a chance de abandonar Vento Sul e recuperar a segurança que perdeu, ela terá que decidir o que realmente significa começar de novo. Porque algumas casas podem ser reformadas. Alguns corações também.

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Chapter 1

Capítulo 1 — A Chave Enferrujada

O ônibus tinha deixado São Paulo doze horas antes, mas foi só quando a estrada de asfalto

virou terra batida, e o cheiro de maresia começou a se infiltrar pelas frestas do vidro do carro

alugado, que Laura Vasconcelos sentiu que estava mesmo deixando a vida antiga para trás.

Vento Sul aparecia aos poucos: primeiro os coqueiros tortos beirando a estrada, depois os

telhados baixos das casas de pescadores, depois o mar — enorme, azul-esverdeado, batendo

contra um paredão de pedras que parecia guardar a cidade do resto do mundo. Era bonito de um

jeito que doía olhar, o tipo de paisagem que fazia qualquer pessoa lembrar do tamanho da própria

vida.

O caminhão de mudanças, que ela tinha contratado numa transportadora da cidade vizinha,

parou no meio da rua de terra, e Laura teve certeza, pela primeira vez em três meses, de que tinha

cometido um erro. Um erro bonito, talvez, mas ainda assim um erro.

A Pousada Girassol — herdada num parágrafo seco de testamento, assinado por um

advogado que mal escondia a impaciência com aquela cliente de cidade grande — erguia-se no

alto da duna como um bicho ferido: telhas quebradas em pelo menos três pontos visíveis, a

varanda tombada para um lado como se estivesse cansada de ficar de pé sozinha havia tanto

tempo, uma placa de madeira descascada balançando no gancho enferrujado, as letras

GIRASSOL quase completamente apagadas pelo sol e pela maresia. Atrás dela, o mar batia

contra as pedras com uma indiferença que Laura quase invejou.

— A senhora vai ter que tirar esse barco daí — disse o motorista do caminhão, tirando o

boné e coçando a cabeça, apontando para o pequeno cais de madeira onde uma embarcação

branca e azul balançava, amarrada bem no caminho da rampa de descarga. — Não dá pra passar

com os móveis.

— Vou resolver — respondeu Laura, com uma segurança que doze anos de reuniões em São

Paulo lhe haviam ensinado a fingir mesmo quando as pernas tremiam por dentro.

Ela desceu até a areia, os sapatos de couro afundando de um jeito que fez uma nota mental

— comprar sapatos apropriados, item um da lista de sobrevivência — e encontrou o dono do barco

sentado na proa, torso nu, consertando uma rede de pesca com dedos ágeis, como se o mundo

não tivesse pressa nenhuma e ele fosse a única pessoa que sabia disso.

— Com licença — chamou ela, a voz mais firme do que se sentia. — Esse barco está

bloqueando a única entrada da minha pousada.

O homem ergueu os olhos devagar, quase relutante, como quem é interrompido no meio de

um pensamento importante. Tinha a pele tostada de quem vive debaixo do sol o ano inteiro, um

maxilar quadrado coberto por uma barba de dois dias, cabelo escuro bagunçado pelo vento, e

olhos de um castanho tão escuro que pareciam absorver a luz da tarde em vez de refleti-la. Havia

algo nele — na postura relaxada, no jeito de segurar a rede sem pressa — que dizia claramente:

esse é o meu território, e você é a visitante aqui.

— Esse cais é público há quarenta anos — respondeu ele, sem se levantar, sem sequer

parecer especialmente incomodado.

— E a Dona Iolanda nunca reclamou.

— A Dona Iolanda morreu. Agora eu sou dona daquele terreno — Laura apontou para a

pousada, tentando manter a voz calma —, e preciso da rampa livre pra descarregar meus móveis.

Alguma coisa atravessou o rosto dele — não raiva exatamente, algo mais fundo, mais antigo,

como se a menção da tia morta tivesse aberto uma porta que ele preferia manter fechada. Ele

ficou em silêncio por um segundo mais longo do que o necessário, olhando para ela com uma

atenção que Laura sentiu quase física, um exame rápido que ia dos sapatos inadequados até o

coque apertado demais no cabelo.

— A senhora é parente dela?

— Sobrinha.

— Ela nunca falou de sobrinha nenhuma. — Havia uma pontada de desconfiança na voz

dele, como se aquilo mudasse alguma coisa.

— Ela também nunca falou de mim pra mim, então acho que empatamos.

— Laura cruzou

os braços.

— Olha, eu realmente preciso desse cais livre. Tenho um caminhão inteiro de móveis e

uma reforma pela frente, e não vim aqui pra discutir posse de rampa com um pescador que não

quer sair do lugar.

O comentário atingiu um ponto sensível — ela viu isso pelo jeito que a mandíbula dele se

contraiu.

— Marceneiro — corrigiu ele, se levantando enfim, alto o bastante para que Laura precisasse

erguer o queixo para manter contato visual. — E não estava discutindo posse de nada. Só estava

terminando um trabalho antes de me mudar.

Ele se levantou, desamarrou o barco sem pressa, como quem faz um favor que não é

obrigado a fazer, e o empurrou para longe do cais com um pé só, saltando a bordo com a leveza

de quem nasceu na água.

— Rafael Duarte — disse, sem estender a mão, apenas cravando os olhos nela por um

segundo a mais do que o necessário, um segundo que Laura sentiria, muito mais tarde, ter sido o

início de tudo.

— Bem-vinda a Vento Sul, Dona Laura. Espero que a senhora dure mais que o

verão.

— E por que eu não duraria?

— Cidade grande não costuma gostar do silêncio daqui depois que a novidade passa. — Ele

deu partida no pequeno motor.

— Boa sorte com a reforma. Vai precisar.

Ele partiu sem olhar para trás, o som do motor se afastando devagar pela água, deixando

Laura parada na areia, o vento salgado bagunçando o cabelo que ela tinha alisado de manhã antes

de sair de São Paulo, sentindo — pela primeira vez em muito tempo — algo que não era exaustão

nem tristeza. Era raiva. Uma raiva boa, viva, que fazia o sangue correr depois de meses de um

torpor cinzento que ela tinha confundido com normalidade.

— Vizinho simpático — comentou o motorista do caminhão, escondendo um sorriso.

— Um doce — respondeu Laura, sarcástica, já caminhando de volta para supervisionar a

descarga.

Ela não sabia, ainda, que aquele mesmo homem seria dono da única marcenaria da cidade

capaz de salvar as vigas podres do telhado da pousada. Não sabia que dois meses depois teria

memorizado o formato exato das costas dele curvado sobre uma prancha de madeira, o jeito que

ele franzia a testa quando estava concentrado, o som específico da risada dele quando finalmente,

depois de muitas semanas, ela conseguisse arrancar uma de verdade. Não sabia de quase nada, na

verdade, sobre a vida que estava prestes a começar naquela cidade minúscula na ponta do mapa

— e talvez fosse melhor assim, porque se soubesse de tudo que viria pela frente, talvez não

tivesse coragem de descer daquele carro alugado.

Os móveis foram descarregados ao longo da tarde inteira, o motorista e o ajudante dele

suando sob o sol forte enquanto Laura tentava organizar, no meio do caos, uma lógica qualquer

para onde cada caixa deveria ir. O sofá ficou provisoriamente no meio da sala, envolto em

plástico bolha, parecendo tão deslocado ali quanto ela própria se sentia. Quando o caminhão

finalmente partiu, já quase escurecendo, Laura ficou sozinha pela primeira vez dentro da casa que

agora era sua — um silêncio grosso, diferente de qualquer silêncio que ela já tinha experimentado

em São Paulo, onde mesmo de madrugada sempre havia o zumbido distante de trânsito, o latido

de algum cachorro, a vida da cidade nunca parando de verdade.

Ali, o silêncio era interrompido apenas pelo mar, uma respiração constante e enorme que ela

ainda não sabia decifrar — se era calmante ou apenas mais um lembrete do tamanho da solidão

que ela tinha escolhido para si mesma. Sentou-se numa caixa de papelão, no meio da sala vazia, e

chorou por um tempo que não soube medir, um choro que misturava exaustão física, saudade

antecipada de uma vida que ela mesma tinha decidido abandonar, e um medo cru de ter cometido

o maior erro da própria existência.

Foi o toque do celular, tocando insistentemente no bolso da calça, que a trouxe de volta.

Marina, é claro, ansiosa por notícias.

— Chegou bem? Como é a casa? Me conta tudo.

— A casa é um desastre, Marina. Literalmente. E o único marceneiro da região me odeia

antes mesmo de me conhecer direito.

— Só isso? — A voz de Marina soava genuinamente aliviada. — Achei que fosse coisa pior.

— É a primeira noite. Dá tempo pra piorar.

Elas riram juntas, um riso cansado mas real, e por alguns minutos Laura sentiu a distância

entre São Paulo e Vento Sul encolher um pouco, como sempre acontecia quando conversava com

a amiga. Depois de desligar, ela abriu uma das malas, tirou um lençol qualquer e um travesseiro, e

dormiu ali mesmo, no chão da sala vazia, exausta demais para procurar o quarto entre as caixas

— a primeira de muitas noites que passaria aprendendo, aos poucos, a fazer daquele lugar

estranho um lar de verdade.

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