MasukA placa de madeira dizia MARCENARIA DUARTE — DESDE 1978, as letras entalhadas à
mão, e o cheiro de serragem que saía pela porta aberta lembrou Laura, de repente e sem aviso, da oficina do avô que ela visitava quando criança, nas raras férias em que a família toda se reunia. Era um cheiro bom, quente, de madeira recém-cortada e verniz secando ao sol. Isso a deixou ainda mais irritada — não queria gostar de nada relacionado àquele homem antipático do barco. Rafael estava debruçado sobre uma bancada, lixando uma peça de madeira com movimentos precisos e repetitivos, uma cadeira de balanço tomando forma sob suas mãos, quando ela entrou. Rádio velho tocando uma música sertaneja baixinho num canto, prateleiras cheias de ferramentas organizadas com um cuidado quase militar, apesar da aparente bagunça de serragem espalhada pelo chão. — Vim pelo telhado da pousada — disse Laura, direto ao ponto, decidida a não repetir o desastre educado do dia anterior. Ele não parou de lixar, nem ergueu os olhos de imediato. — Achei que a senhora ia contratar gente de fora. Parece o tipo. — "O tipo"? — Tailleur, salto alto, aquele jeito de andar que diz "eu sei o que estou fazendo" mesmo quando não sabe. que só piorou as coisas. — Ele finalmente ergueu os olhos, e havia um brilho quase divertido neles, o — Sem ofensa. — Toda ofensa — retrucou ela, cruzando os braços. — Mas preciso de alguém que conheça a estrutura da casa, e pelo visto você é a única opção nos próximos cinquenta quilômetros, segundo a Dona Célia. — A Célia fofocando de novo. — Ele soltou uma risada curta, sem humor de verdade. — Ela vive tentando me arranjar trabalho. Ou marido. Nunca sei bem qual das duas coisas. — Espero que não esteja pensando que eu sou parte de nenhuma das duas iniciativas. — Nem passou pela minha cabeça, Dona Laura.Ela sentiu o sarcasmo por trás do "Dona Laura" e decidiu ignorar.
— Então? Você aceita o trabalho ou não? Rafael limpou as mãos num pano preso à cintura e caminhou até ela, parando perto o suficiente para que Laura sentisse o cheiro de sal e madeira que parecia impregnado em cada fibra dele. Examinou-a de novo, daquele jeito avaliador do dia anterior, e Laura se recusou a se mexer sob o escrutínio. — Vou dar uma olhada primeiro. Sem compromisso. — Ele pegou uma caixa de ferramentas grande do canto, carregando-a com um braço só, como se pesasse nada. — Mas aviso: essa casa está de pé por teimosia, não por engenharia. Sua tia recusou reforma nenhuma nos últimos dez anos, mesmo eu insistindo pra consertar aquele telhado antes que caísse de vez. — Você conhecia minha tia? — Cidade pequena. — Ele deu de ombros, mas alguma coisa fechou brevemente no rosto dele, uma porta batendo silenciosamente, rápido demais para Laura ter certeza de ter visto. — Todo mundo conhecia todo mundo aqui, de um jeito ou de outro. — Por que ela recusava a reforma? — Pergunta pra ela. — A voz dele ficou mais dura de repente. estava caminhando para a porta, a caixa de ferramentas na mão. que aquele telhado decida desabar sozinho e resolva o problema por nós dois. — Ah, espera. — Ele já — Vamos, dona Laura. Antes Ela o seguiu até a caminhonete velha estacionada em frente, uma Ford dos anos noventa com adesivos desbotados de bandas de rock que Laura duvidava que ele ainda ouvisse, irritada consigo mesma por notar detalhes daquele homem que não deveriam importar em nada — o jeito que os músculos do antebraço se moviam quando ele segurava o volante, a cicatriz fina numa das sobrancelhas, o hábito de tamborilar os dedos no painel quando ficava em silêncio por tempo demais. A viagem até a pousada foi silenciosa, pontuada apenas pela música do rádio da caminhonete, até que Rafael quebrou o silêncio de repente, sem tirar os olhos da estrada: — Por que São Paulo?— Como assim?
— Você. Por que veio de São Paulo pra cá? Gente da cidade grande não costuma trocar tudo por uma cidadezinha sem nem cinema. Laura considerou dar uma resposta vaga, mas alguma coisa na pergunta direta dele — sem julgamento aparente, apenas curiosidade genuína — a fez responder com mais honestidade do que pretendia. — Precisava de um recomeço. A vida que eu tinha lá parou de fazer sentido de repente. — Isso acontece. — Ele assentiu, os olhos ainda na estrada. — A vida gosta de fazer isso com a gente. Sem aviso nenhum. — Fala por experiência própria? Ele não respondeu, apenas apertou o volante um pouco mais forte, e Laura entendeu — sem precisar de mais palavras — que tinha tocado em algo que ele preferia manter enterrado. Só até o telhado ficar pronto, disse a si mesma, olhando pela janela para as casas baixas de Vento Sul passando devagar. Depois disso, nunca mais preciso falar com esse homem cheio de segredos guardados atrás dos olhos. Foi a primeira das muitas promessas que Laura faria a si mesma naquele verão — e não cumpriria nenhuma. A caminhonete parou em frente à pousada, e Rafael desceu sem esperar por ela, já caminhando em direção ao telhado com a caixa de ferramentas, subindo numa escada apoiada contra a parede lateral que Laura nem tinha percebido que existia. Ela o seguiu, um pouco insegura sobre o próprio papel ali — dona da casa, mas completamente leiga em tudo que envolvia reforma estrutural. — Pode subir também, se quiser ver de perto — disse ele, sem se virar, já examinando as telhas quebradas com dedos experientes. — Só evite pisar onde eu apontar. Madeira podre não avisa antes de ceder.Laura subiu, as pernas um pouco trêmulas na escada instável, e ficou observando enquanto
ele testava, viga por viga, batendo de leve com os nós dos dedos, ouvindo o som que cada pedaço de madeira produzia como quem lê um diagnóstico médico em código secreto. — Essa aqui — ele bateu numa viga próxima à chaminé — já era. Precisa trocar inteira. Essa outra — apontou para uma segunda, mais adiante — ainda aguenta, com reforço. — Como você sabe só de bater? — Madeira boa soa cheia, densa. Madeira podre soa oca, meio surda. — Ele bateu de novo, para ela ouvir a diferença. — Escuta. Laura escutou, e para sua surpresa, conseguiu notar a diferença sutil entre os dois sons — um mais firme, quase musical, o outro apagado, sem ressonância. — Uau. Isso é meio incrível. — É só prática. — Ele deu de ombros, mas Laura percebeu o canto da boca dele se curvando ligeiramente, quase um sorriso contido, o primeiro sinal de que talvez, só talvez, aquele homem espinhento não fosse completamente imune a um elogio sincero. Passaram o resto da tarde ali, ele explicando, ela ouvindo com uma curiosidade genuína que a surpreendeu — doze anos de reuniões corporativas não tinham preparado Laura para achar fascinante a anatomia de um telhado antigo, mas ali estava ela, genuinamente interessada, fazendo perguntas que ele respondia com uma paciência crescente conforme a tarde avançava.O diagnóstico do telhado foi pior do que Laura esperava: vigas apodrecidas em pelo menosquatro pontos, madeiramento comprometido pela umidade acumulada de anos de negligência,um problema que exigiria semanas de trabalho e um orçamento que fez Laura sentar-se,atordoada, na escada da varanda.— Não precisa fazer tudo de uma vez — disse Rafael, notando a expressão dela. — Dá prair por etapas. Primeiro eu resolvo o que está com risco real de desabar, depois a gente vê o restoconforme o orçamento permitir.— "A gente"?— Força de expressão.acidental. — Você vê o resto, eu quis dizer.— Ele desviou o olhar, quase constrangido pela informalidadeMas o "a gente" ficou pairando entre eles pelas semanas seguintes, quase profético, enquantoRafael aparecia de manhã cedo, quase sempre calado no início, media, cortava, martelava, e Laura— que não tinha mais escritório para onde fugir, nem reuniões para preencher as horas —aprendeu a trabalhar ao lado dele sem falar muito, os dois entregues
A placa de madeira dizia MARCENARIA DUARTE — DESDE 1978, as letras entalhadas àmão, e o cheiro de serragem que saía pela porta aberta lembrou Laura, de repente e sem aviso, daoficina do avô que ela visitava quando criança, nas raras férias em que a família toda se reunia.Era um cheiro bom, quente, de madeira recém-cortada e verniz secando ao sol. Isso a deixouainda mais irritada — não queria gostar de nada relacionado àquele homem antipático do barco.Rafael estava debruçado sobre uma bancada, lixando uma peça de madeira com movimentosprecisos e repetitivos, uma cadeira de balanço tomando forma sob suas mãos, quando ela entrou.Rádio velho tocando uma música sertaneja baixinho num canto, prateleiras cheias de ferramentasorganizadas com um cuidado quase militar, apesar da aparente bagunça de serragem espalhadapelo chão.— Vim pelo telhado da pousada — disse Laura, direto ao ponto, decidida a não repetir odesastre educado do dia anterior.Ele não parou de lixar, nem ergueu os ol
A pousada, por dentro, cheirava a mofo e a memória em partes quase iguais. Laura passou osdedos pela poeira grossa da escrivaninha da tia, encontrou cadernos de contas em letra tremida,fotos amareladas de um tempo em que Vento Sul ainda tinha um cinema e a pousada recebiahóspedes suficientes para lotar as doze suítes do andar de cima.Ela tinha trinta e dois anos e havia reduzido a vida inteira a três malas, uma caixa de livros eum espelho de corpo inteiro que Marina insistira que ela levasse "porque toda mulherrecomeçando a vida precisa se ver por inteiro de vez em quando". Doze anos numa agência demarketing em São Paulo — começando como estagiária de mesa emprestada, terminando comodiretora de contas com sala própria e vista para a Marginal — um noivado que terminou seismeses antes do casamento, num restaurante japonês caro demais, um apartamento vendido àspressas para pagar as dívidas que Eduardo tinha deixado como herança amarga da separação.Tudo isso cabia, de alguma fo
O ônibus tinha deixado São Paulo doze horas antes, mas foi só quando a estrada de asfaltovirou terra batida, e o cheiro de maresia começou a se infiltrar pelas frestas do vidro do carroalugado, que Laura Vasconcelos sentiu que estava mesmo deixando a vida antiga para trás.Vento Sul aparecia aos poucos: primeiro os coqueiros tortos beirando a estrada, depois ostelhados baixos das casas de pescadores, depois o mar — enorme, azul-esverdeado, batendocontra um paredão de pedras que parecia guardar a cidade do resto do mundo. Era bonito de umjeito que doía olhar, o tipo de paisagem que fazia qualquer pessoa lembrar do tamanho da própriavida.O caminhão de mudanças, que ela tinha contratado numa transportadora da cidade vizinha,parou no meio da rua de terra, e Laura teve certeza, pela primeira vez em três meses, de que tinhacometido um erro. Um erro bonito, talvez, mas ainda assim um erro.A Pousada Girassol — herdada num parágrafo seco de testamento, assinado por umadvogado que ma







