FAZER LOGINJADE
O resto da noite passou tranquilo, quase rotineiro. Cheguei em casa, fechei a porta com o pé e, sem cerimônia, tirei os saltos altos e os joguei longe no corredor. Eles deslizaram pelo piso de madeira com um som abafado, como se reclamassem do dia longo junto comigo. — Ai, meus pés... — resmunguei, me encostando na parede para massagear os dedos doloridos. Da cozinha, ouvi o barulho inconfundível de um pacote de alumínio sendo aberto. Lili apareceu segundos depois, segurando um saco de salgadinho, com o cabelo preso num coque frouxo e a camiseta velha de sempre. — E aí? Como foi o programa de hoje? — perguntou ela, mastigando sem menor cerimônia. Abri a geladeira, peguei uma garrafa de água gelada e dei um longo gole antes de responder. — Tranquilo. Mas amanhã tenho cliente novo. Ela arqueou as sobrancelhas, interessada. — Rico? — Bilionário, segundo a Vanessa. — Bonito? Dei de ombros, guardando a água. — Nem vi foto. Nem pesquisei. Vou trabalhar, não escolher namorado. Lili quase se engasgou de tanto rir. — Você é doida, Jade. — Eu sou profissional. — Você fala isso com uma pose de madame de novela — implicou ela, apontando um salgadinho na minha direção. — E funciona. Ela riu outra vez, balançando a cabeça. — E qual é o nome do bonitão? Peguei o celular na bolsa e deslizei a tela para checar a mensagem da agência. — Henrique Montenegro. Lili fez uma careta exagerada. — Esse sobrenome tem cara de quem reclama até da temperatura da água mineral. Ri, concordando. — Também achei. — A Vanessa falou alguma coisa a mais dele? Assenti, lembrando dos avisos minuciosos da minha empresária. — Disse que é bilionário, extremamente exigente, odeia atrasos... e que quase ninguém na cidade já viu aquele homem sorrir. Lili arregalou os olhos. — Credo. Tipo um robô de terno? — Pois é. — Você vai acabar provocando ele, Jade. Eu te conheço. Olhei para ela com um sorriso divertido. — Eu nem conheço o homem, Lili. — Isso nunca impediu você. Balancei a cabeça, rindo da provocação. — Meu único objetivo é sobreviver ao jantar, receber meu pagamento e voltar para casa inteira. Ela estreitou os olhos, analítica. — Você acredita mesmo nisso? Pensei por um instante, soltando um suspiro resignado. — ...Não muito. Nós duas caímos na risada. No fundo, porém, enquanto a gargalhada ia diminuindo, restou uma curiosidade incômoda que eu não conseguia explicar. Homens poderosos costumam ser previsíveis inflados pelo próprio ego e fáceis de manobrar. Mas havia algo no tom de Vanessa ao falar dele que soar como um aviso velado. Acordei antes do despertador. Um verdadeiro milagre para quem geralmente precisava de três alarmes. Fiquei alguns segundos encarando o teto branco do quarto até a memória da noite anterior voltar como um solavanco. Henrique Montenegro. — Ai, Jesus... hoje tem serviço — murmurei para o quarto vazio. Levantei da cama, fiz um coque bagunçado no topo da cabeça e fui arrastando os pés para a cozinha. O cheiro de café fresco já tomava conta do corredor. Lili estava sentada à mesa, de pijama, segurando sua caneca com as duas mãos. Assim que me viu, começou a rir. — Que foi agora? — perguntei, pegando uma xícara no armário. — Você acorda parecendo um filhote de pomba depenada. Revirei os olhos com dramaticidade. — A beleza também precisa descansar, sabia? Enquanto eu passava manteiga no pão, o celular sobre a mesa começou a vibrar. O nome na tela não era surpresa para ninguém. Vanessa. Atendi no viva-voz. — Bom dia, minha empresária favorita. — Jade, o carro passa às sete da noite em ponto. — disse a voz pausada e empresarial de Vanessa, sem espaço para bom-dia. — Tá. — Não chegue atrasada. — Tá. — Seja discreta. — Tá. Ela fez uma pausa longa do outro lado da linha. Eu conseguia até imaginar Vanessa ajustando os óculos no nariz, preparando o golpe final. — E escuta uma coisa. — Fala. — Não tente quebrar o gelo. O Henrique não é o tipo de pessoa que gosta de conversar só por educação. Franzi a testa, desacostumada com esse tipo de restrição. Geralmente, meu trabalho era justamente socializar e manter o ambiente leve. — Sério? — Muito. Ele prefere o silêncio a qualquer conversa vazia. Se ele não puxar assunto, apenas acompanhe e seja a presença impecável que você sempre é. Olhei para a xícara de café nas minhas mãos, sentindo o calor da cerâmica contra meus dedos. — Entendido. — Promete? — sorri sozinha, achando graça da apreensão dela. — Prometo me comportar. Ela soltou um suspiro audível de alívio. — Essa resposta já me deixa um pouco mais tranquila. Até mais tarde, Jade. A ligação terminou. Lili me encarava por cima da caneca com um olhar conhecedor. — O que foi? — perguntei. — A Vanessa praticamente pediu para você não conversar demais. — Pediu. — E você consegue? Sorri, dando um gole no café quente. — Descubro hoje à noite. Peguei a xícara e caminhei até a janela da sala, observando o movimento calmo da rua logo cedo. Não era o dinheiro dele que despertava minha curiosidade dinheiro comprava ternos caros e carros blindados, mas não mudava o caráter de ninguém. Era a fama. Todo mundo parecia descrever Henrique Montenegro da mesma maneira: um homem impecável, inalcançável e impossível de ler. Um enigma envelopado em um império financeiro. Talvez fosse tudo exagero da mídia e dos funcionários intimidados. Ou talvez aquela noite me provasse que, às vezes, a fama existe por um motivo bem real.Cinco anos depois… — Matteo! Não vale correr para o corredor dos fundos! A gargalhada aguda e cristalina do menino ecoou estrondosamente pela casa inteira, rebatendo nas paredes da sala e invadindo a cozinha. — Não pego! — respondeu ele, disparando em desabalada carreira com aquelas perninhas curtas e rápidas que pareciam equipadas com um motor a combustão invisível, totalmente incompatível com uma criança de apenas dois anos e meio de idade. Atrás dele, tropeçando levemente no tapete da sala, vinham Dona Cecília e Seu Antônio. Ou, pelo menos, tentavam acompanhar o ritmo implacável. — Matteo Henrique Montenegro! — reclamava Dona Cecília entre um acesso de riso e o esforço para recuperar o fôlego. — Volte aqui agora mesmo para o seu avô colocar o seu sapato! Nosso filho travou uma freada brusca em cima do carpete, olhou para trás por cima do ombro apenas para confirmar se os bisavós ainda vinham no encalço, e abriu um sorriso travesso. Quando viu que eles estavam se aprox
JADE Sempre achei que, se um dia me casasse… Seria usando um vestido alugado de última hora. Numa cerimônia simples em algum cartório burocrático e impessoal. Sem muita gente. Sem nenhuma importância real para o mundo. Porque, durante anos de uma existência fragmentada e cinzenta, eu me acostumei a acreditar que certas coisas simplesmente não eram feitas para mulheres como eu. Histórias de final feliz pareciam impressas em um idioma estrangeiro que eu não tinha o direito de falar. Eu estava redondamente errada. Na manhã do casamento, acordei antes mesmo de o despertador tocar no criado-mudo. Fiquei alguns segundos inteiros deitada de olhos abertos, encarando o teto do quarto, tentando convencer meu coração a diminuir o ritmo frenético das batidas. Não adiantou nada. O peito parecia pequeno demais para tanta vida. Sorri sozinha, sentindo o sol da manhã cortar a cortina leve. Hoje... Eu ia me casar. Ouvi batidas suaves e ritmadas na porta do quarto. — Posso entrar? —
Já passava das dez da noite. A imensidão iluminada de São Paulo brilhava silenciosa do outro lado do vidro da varanda, como um oceano de luzes distantes. Dentro do apartamento, o silêncio era denso, confortável e acolhedor. Jade estava sentada diretamente no piso de madeira da sala, com as pernas cruzadas e os pés descalços. Estava totalmente absorta, folheando com cuidado um álbum de fotografias antigas com capa de couro desgastada que Dona Cecília havia nos emprestado dias antes. Sorri ao vê-la parar em uma página específica e soltar um muxoxo divertido. — Não acredito nisso — murmurou ela, balançando a cabeça em negação. Aproximei-me e inclinei o corpo por cima do ombro dela para enxergar melhor a imagem impressa no papel fotográfico amarelado. — O quê? O que há de errado com essa página? Ela virou o álbum bruscamente na minha direção, apontando com o dedo para uma foto minha tirada em uma época que eu preferia esquecer. — Henrique... me explique detalhadamente que aberraçã
HENRIQUE As margaridas amarelas finalmente encontraram o seu lugar definitivo na mesa de madeira da varanda. Jade passou vários minutos avaliando a posição do vaso sob a luz da tarde. Girava o recipiente alguns milímetros para a esquerda. Depois, examinava de relance. Dava dois passos para trás para checar o ângulo, franzia a testa e voltava a ajustar as hastes com uma paciência cirúrgica. Sorri discretamente, observando a cena de pé, encostado no batente da porta da cozinha. — Querida, você sabe que elas vão continuar sendo exatamente as mesmas flores, não importa se o vaso estiver virado dois centímetros para o norte ou para o sul, não sabe? — provoquei com um tom de voz suave. Ela nem se deu ao trabalho de desviar os olhos da tarefa. — Não ouse atrapalhar o meu processo criativo com a sua lógica corporativa, Henrique. Levantei as duas mãos em um gesto imediato de rendição. — Perdão. Ficarei em absoluto silêncio. Ela encontrou o ponto perfeito, respirou fundo e deu um tapi
JADE A cebola comprada naquela tarde acabou custando muito mais caro do que o esperado. Não pelo preço marcado na gôndola do supermercado, é claro. Mas porque Henrique resolveu transformar uma simples e trivial missão de resgate culinário em um longo, despretensioso e descarado passeio pela cidade. — Você faz isso de propósito, não é possível — reclamei quando notei que ele havia acabado de passar direto pela entrada do estacionamento do mercado, ignorando completamente a nossa rota original. Ele manteve as duas mãos firmemente no volante, o perfil iluminado pelo sol da tarde, com um sorriso quase imperceptível nos cantos da boca. — Faço o quê, meu amor? — Fingir sistematicamente que não sabe onde fica a seção de hortifrúti. — Eu sei exatamente onde ela fica. É o setor com os vegetais expostos na entrada. — Então por que você passou direto pela rua de acesso, Henrique Montenegro? — Porque ainda está cedo e a tarde está agradável demais para ficarmos enfiados entre co
HENRIQUE — Eu simplesmente não acredito. Olhei para Jade, que estava parada diante da geladeira escancarada, com as mãos na cintura e uma expressão de profunda indignação no rosto. — Não acredita em quê? — perguntei, erguendo os olhos da tela do notebook onde tentava revisar um relatório rápido. — Você mora sozinho neste apartamento há anos. Anos, Henrique. — Sim, é verdade. Qual é o espanto? — E nunca, em todo esse tempo, fez uma compra de supermercado de verdade? Daquelas com lista, corredor de produtos de limpeza e produtos frescos? Fechei a tampa do notebook com um estalo suave. — Eu comprava o que precisava. Ela me encarou por cima do ombro, semicerrando os olhos. — Água mineral, café em pó solúvel e iogurte light não contam como compras de supermercado, Henrique. Isso é kit de sobrevivência de escritório. Sorri de lado, recostando-me na cadeira. — Sempre deu muito certo para mim. Nunca morri de fome. Jade balançou a cabeça negativamente, soltando um sus







