INICIAR SESIÓN
JADE
Eu sempre digo que homem rico tem duas características principais: acha que manda em tudo e acredita que dinheiro resolve qualquer problema. E, sinceramente? Na maioria das vezes, resolve mesmo. Olhei meu reflexo no espelho do quarto de hotel pela última vez. O vestido preto justo abraçava minhas curvas com precisão cirúrgica, marcando a cintura e valorizando o colo sem exageros. O tecido era de um cetim macio que deslizava na pele a cada movimento, com um decote discreto mas que deixava claro que eu sabia exatamente o que tinha de melhor. O salto alto de dez centímetros me dava aquela altura imponente que fazia os homens erguem o queixo só para me olhar nos olhos e fazia as mulheres me analisarem de cima a baixo, tentando descobrir qual era o meu truque. O batom vermelho vivo, quase sanguinário, completava o conjunto. Era minha armadura. Minha assinatura. Ninguém passava por mim sem notar. — Tá um espetáculo — murmurei para mim mesma, ajustando a alcinha do brinco de pérola que brilhava suavemente na luz do abajur. Trabalho há anos como acompanhante de luxo, e não tenho vergonha nenhuma disso. Não sou garota de programa: sou companhia. Sei me portar em qualquer lugar, desde uma festa de gala até um jantar fechado num restaurante de ponta. Sei conversar sobre política, economia, arte, futebol ou qualquer assunto que alguém queira puxar. Sei ouvir quando precisam desabafar, sei rir na hora certa, sei fazer alguém se sentir a pessoa mais interessante do mundo por algumas horas. É uma arte. E eu sou mestre nela. O celular vibrou forte na mesa de cabeceira, quebrando o silêncio do quarto. Era Vanessa, minha sócia e a pessoa que melhor sabe como esse mundo funciona, quem me avisa dos riscos e quem nunca me engana sobre os clientes. Atendi na hora, colocando no viva-voz enquanto pegava a bolsa clutch preta de couro legítimo. — Já tá pronta? — perguntou ela, sem enrolação, com aquela voz firme que eu conheço bem. — De pé, maquiada, cheirosa e pronta pro que der e vier. Só falta chegar lá e fazer o serviço — respondi, passando o dedo na tela para conferir o endereço mais uma vez. — Quem é o cara mesmo? Você disse que era especial. — Henrique Montenegro. Franzi a testa por um instante, e depois concordei com a cabeça, como se o nome já me dissesse tudo. Claro que era ele. Todo mundo que acompanha negócios no Brasil já tinha ouvido falar no nome Montenegro, a família que construiu impérios em vários setores, e ele, o herdeiro que não herdou só o dinheiro, mas também a fama de ser impossível de lidar. — O dono da rede de hospitais, das empresas de tecnologia e de todos aqueles empreendimentos que ninguém consegue nem contar direito? — Ele mesmo. — a voz de Vanessa ficou mais séria, mais baixa, como se estivesse me avisando de um perigo que só ela enxergava. — Escuta bem, Jade. Esse é diferente de todos os outros que já atendi. É bilionário, exigente ao extremo, detesta atrasos, odeia gente que fala demais e não tolera frescura… e quase nunca sorri. Dizem que ninguém nunca viu ele perder a compostura, nem rir de verdade. É uma muralha de gelo, e ninguém conseguiu ainda derreter nem um pedacinho dela. Assobiei baixo, sentindo uma pontada de curiosidade misturada com aquele friozinho na barriga que só aparece quando sei que vou encarar um desafio de verdade. — Caramba. E o que ele quer com uma companhia como eu, então? Se ele é tão fechado assim… — Disse apenas que precisa de alguém para acompanhá-lo a um jantar de negócios muito importante, conversar com os convidados, fazer parecer que ele não está sozinho, não deixar que ninguém fique falando com ele por mais tempo do que ele aguenta. Nada mais. Mas tenta não irritar o homem. Pagou o dobro do valor normal, pediu discrição total e não gosta de surpresas. — Relaxa. Sei lidar com muralhas — falei, mas quando desliguei a ligação, fiquei olhando para a tela apagada por um instante, refletindo. Bilionário, exigente, nunca sorri, ninguém consegue chegar perto… Esses costumam ser os mais difíceis de todos. Mas também os mais interessantes. Respirei fundo, endireitei os ombros, ajustei o decote do vestido e sorri de novo para o espelho o sorriso profissional, perfeito, calculado, que não deixa transparecer nem um pingo de dúvida ou receio. — Vamos ver do que você é feito, senhor Henrique Montenegro. Saí do quarto, caminhando pelo corredor silencioso do hotel com a postura de quem sabe exatamente onde pisa, sem pressa, sem medo. Mal sabia eu que, pela primeira vez na vida, o desafio não seria convencer um homem a gostar da minha companhia, nem fazer ele se sentir bem ao meu lado. Seria descobrir como arrancar uma única reação deleJADE Meus olhos se abriram num estalo. Olhei para o teto branco do quarto. A luz do sol mal começava a rasgar a fresta da cortina. Girei o corpo devagar para encarar o relógio na mesa de cabeceira. Seis. Da. Manhã. Em uma segunda-feira? Ou melhor, em qualquer dia da minha vida em que eu não estivesse sendo perseguida por um incêndio ou por um prazo fatal? — Isso não é normal... — resmunguei para o quarto vazio, a voz rouca de sono, cobrindo o rosto com o lençol. — Definitivamente contra a minha natureza. Fiquei encarando o teto por mais alguns segundos, completamente indignada comigo mesma por ter perdido o sono tão cedo. Mas então, uma ideia começou a se desenhar na minha mente. A lembrança do dia anterior na casa de dona Cecília e, principalmente, do tênis encharcado no jardim voltou como um raio. Um sorriso nasceu sozinho no meu rosto. Hoje seria o dia da minha vingança. Estiquei o braço e peguei o celular na mesma hora. Sem pensar duas vezes, abri a conversa com Henriqu
JADEDepois do almoço, o jardim da casa de dona Cecília virou o ponto de encontro da família.As crianças corriam atrás de uma bola colorida, enquanto os tios ocupavam as cadeiras de vime espalhadas pela varanda, discutindo futebol, política e qualquer outro assunto que aparecesse.E eu... bom. Eu estava deitada em uma espreguiçadeira, completamente em paz com a vida, terminando a última colherada do pudim.Do Henrique.Sim. O dele. O meu já tinha acabado fazia tempo.— Jade.Levantei os olhos devagar. Henrique estava parado bem na minha frente, as mãos nos bolsos e a mesma expressão calma de sempre.— Hum?Ele olhou para o pratinho vazio. Depois para mim.— Você comeu os dois pudins.Olhei para o prato. Depois para ele.— Nossa...— O quê?— Agora que você falou... — Pisquei algumas vezes. — Comi mesmo.Ele respirou fundo.— Impressionante.— Você não vai comer.— Como sabe?— Porque ficou conversando.— E então?Dei de ombros.— Pudim parado é um pudim desperdiçado.Ele me encarou.
Olhei para baixo e paralisei.— Ah, não…Peguei rapidamente o guardanapo de pano do meu colo.— Deixa que eu tento limpar…Minha mão mal teve tempo de encostar no tecido. Henrique segurou delicadamente o meu pulso, interrompendo o meu movimento com uma firmeza surpreendente.— Não — disse ele, com a voz baixa e tranquila.Olhei para ele, surpresa.— Henrique...— Se você esfregar, vai espalhar a mancha e tingir o tecido.Antes que eu pudesse reagir, Henrique já havia pegado outro guardanapo de papel limpo que estava sobre a mesa. Inclinou-se no meu espaço apenas o suficiente. Os movimentos dele eram calmos, precisos e extremamente focados, exatamente da mesma forma que ele resolvia qualquer pendência no escritório.Não havia pressa. Não havia hesitação. Apenas concentração pura.Eu permaneci absolutamente imóvel. Podia sentir o calor do corpo dele tão perto do meu e o aroma amadeirado do seu perfume preenchendo os meus sentidos. Meu coração começou a bater rápido demais para uma reles
JADEDona Cecília aproximou-se batendo as mãos, plenamente satisfeita com o rumo das coisas.— Agora sim! — declarou ela.Ajeitei o vestido, tentando disfarçar a onda de calor que teimava em insistir no meu rosto.— Agora sim o quê, dona Cecília?— Agora vocês estão com cara de casal de verdade. Sem aquela formalidade toda que o Henrique gosta de inventar.Henrique caminhou até o aparador no canto da sala e serviu um copo de água com gelo.— Vó... — murmurou ele, numa tentativa branda de conter o entusiasmo dela.— Não adianta reclamar, Henrique. Vocês combinam e pronto.Aproximei-me dele a passos lentos e falei baixinho, numa frequência que só ele podia ouvir.— Ela está muito emocionada com a gente.Ele tomou um gole de água, mantendo os olhos na movimentação da casa.— Muito.— Coitada. Vai se decepcionar quando descobrir a verdade.— Bastante — concordou ele, num tom seco, mas sem nenhum ressentimento.Olhei para o perfil dele por um segundo. Depois, não aguentei e comecei a rir b
Em questão de minutos, a sala de estar virou o cenário de uma pequena operação militar. As crianças foram empurradas para sentar no tapete à frente; os mais velhos foram acomodados no sofá principal; os tios discutiam no fundo sobre quem era mais alto e quem estava tapando a luz da janela. Dona Cecília, no centro de tudo, distribuía as pessoas como uma maestrina experiente.— Henrique! — chamou ela, acenando.Ele ergueu os olhos do canto onde tentava passar despercebido.— Aqui, meu filho. Do lado da Jade.Olhei discretamente para ele. Henrique soltou uma respiração lenta, mas não argumentou. Caminhou até o espaço vago ao meu lado, parando a uma distância socialmente aceitável.O tio ergueu a câmera ao nível dos olhos.— Mais juntinhos, pessoal. Não cabe todo mundo no enquadramento.Dei um passinho discreto para a direita, aproximando meu ombro do dele.— Mais um pouquinho, Henrique. Parece que você está do lado de uma estranha — ordenou o tio Sebastião.Olhei de relance para Henrique
JADEChegamos à casa de dona Cecília exatamente às meio-dia e quinze.Henrique mal havia desligado o motor da SUV quando a cortina de renda da janela da frente se moveu. Um segundo depois, a porta de entrada se abriu de par em par.Olhei para ele, apoiando as mãos no painel.— Ela estava esperando na janela?Ele nem se deu ao trabalho de responder. Não precisou.Dona Cecília desceu os três degraus da varanda com uma agilidade surpreendente para a idade, ostentando um sorriso tão amplo e radiante que dava a impressão de que não via o neto há anos. Ou talvez... de que a verdadeira convidada de honra fosse eu.Abri a porta do carro e desci. Antes que eu pudesse ajustar a bolsa no ombro ou ensaiar um cumprimento formal, fui completamente envolvida por um abraço apertado, daqueles que cheiram a sabonete de alfazema e conforto.— Minha querida! Que bom que você veio! — exclamou ela, dando dois tapinhas carinhosos nas minhas costas.Rendi-me ao abraço, rindo de surpresa.— Eu também fiquei m







