Mag-log inJADE Na quinta-feira, descobri que a Netflix era uma péssima companhia.Passei quase uma hora no sofá assistindo a uma série qualquer que o aplicativo tinha decidido recomendar. Explosões, perseguições, diálogos dramáticos.Não fazia ideia do que estava acontecendo.Meu celular vibrou sobre a almofada ao meu lado.Peguei o aparelho sem muita pressa.Henrique.Meu polegar congelou por um instante antes de abrir a conversa.Henrique: Meus avós convidaram você para jantar amanhã. Presença indispensável.Li a mensagem duas vezes, depois uma terceira.Balancei a cabeça.Sorri sozinha.Só o Henrique conseguiria transformar um convite em um comunicado oficial.Digitei:Jade: Isso foi um convite ou uma intimação?Enviei.A resposta chegou quase imediatamente.Henrique: Aparentemente, uma intimação.Ri.De verdade.Escrevi outra mensagem.Jade: Não tenho direito de defesa?Os três pontinhos apareceram.Desapareceram.Voltaram.Henrique: Acredito que não.Mordi o canto da boca para esconder o
JADE Na terça-feira acordei antes do despertador. Pela primeira vez desde a noite de febre, não senti o corpo reclamar quando me levantei. A sensação de peso nos ombros tinha desaparecido, o teto não girava e a luz da manhã que entrava pela fresta da cortina não incomodava meus olhos. Preparei café. Abri a geladeira para pegar o leite e minhas mãos pararam no ar por meio segundo. As frutas continuavam perfeitamente dispostas na gaveta inferior. Fechei a porta antes que meus pensamentos fossem para o mesmo lugar de sempre. Não. Hoje eu ia voltar ao normal. Ou, pelo menos, tentar recuperar o ritmo de antes. Meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha. Vanessa. Atendi imediatamente. — Bom dia. — Bom dia, sobrevivente — a voz dela veio acompanhada do som distante de teclas digi
JADE O celular vibrou de verdade sobre a pedra escura da bancada da cozinha. Olhei automaticamente para a tela. Meu coração acelerou antes mesmo que eu percebesse. Aquilo me irritou. Só então baixei os olhos para ler o nome. Henrique. Fiquei alguns segundos encarando a notificação no topo da tela iluminada. Henrique: Como foi o passeio? Franzi a testa. Como ele sabia que eu tinha saído? Claro. Era exatamente o tipo de cálculo que Henrique faria. Mesmo assim... sorri sem querer. Abri a conversa. Fiquei encarando a caixa de texto vazia. Era uma pergunta simples, mas responder parecia exigir um esforço desproporcional do meu raciocínio. Digitei: Foi bom. Apaguei. Escrevi outra coisa: Comprei algumas roupas. Apaguei também. Respirei fundo. Por que eu estava calculando tanto para responder a uma mensagem de quatro palavras? Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. Ridículo. Digitei: Jade: Foi tranquilo. Enviei antes de mudar de ideia. A respost
O shopping estava exatamente como eu esperava. Ar-condicionado frio, música ambiente que ninguém realmente escutava e pessoas andando depressa, carregando sacolas de um lado para o outro. Durante anos, aquele tipo de lugar sempre funcionou para mim. Entrava sem objetivo e saía com alguma coisa nova. Era simples. A primeira vitrine chamou minha atenção imediatamente. Um vestido azul-marinho ocupava o centro da exposição. Bonito. Entrei. A vendedora sorriu assim que me viu. — Bom dia. Está procurando alguma coisa específica? — Só olhando. Passei os dedos pelos cabides. Separei três peças quase sem pensar. Experimentei a primeira no provador. Vestia perfeitamente. Olhei meu reflexo. Bonito. Só isso. Troquei pelo segundo. Depois pelo terceiro. Nenhum deles dizia absolutamente nada. Saí do provador. — Gostou? — perguntou a vendedora. Olhei outra vez para o vestido. — Vou levar. Enquanto ela passava a compra, fiquei observando o movimento da loja. Recebi a sacola, agradeci e co
JADE Lili chegou no fim da tarde de domingo. Mal ouvi a chave girar na fechadura. Quando levantei os olhos do sofá, ela já estava atravessando a sala em passos largos. Nem me deu tempo de falar. Me abraçou tão forte que reclamei imediatamente. — Lili... — Fica quieta. Continuei imóvel. Ela demorou alguns segundos para me soltar. Quando finalmente se afastou, segurou meu rosto entre as mãos, analisando cada detalhe da minha cara. — Você quase me mata do coração. — Eu só fiquei doente. Ela arregalou os olhos. — "Só fiquei doente"? Cruzei os braços. — Foi uma febre. — Trinta e nove e quatro não são "uma febre", Jade. Olhei para o chão. Ela suspirou. — Você sumiu. — Dormi. — Dormiu quase dois dias. — Eu não tive culpa. — Eu sei — a resposta saiu mais baixa. Ela respirou fundo antes de continuar. — Mas eu estava do outro lado do país sem conseguir fazer absolutamente nada. Aproximei-me e a abracei de volta. Dessa vez por minha iniciativa. — Desculpa.
HENRIQUE Sempre acreditei que a rotina resolvia quase tudo.Ela organizava problemas complexos em etapas gerenciáveis. Diminuía drasticamente a margem de erro. Mantinha decisões emocionais longe do trabalho.Naquela sexta-feira... não funcionou.Às dez horas em ponto, cruzei a porta dupla de madeira maciça da sala do conselho. Os diretores já aguardavam ao redor da mesa oval de jacarandá, pastas abertas e tablets posicionados no ângulo correto. Cumprimentei cada um com um aceno discreto de cabeça e ocupei meu lugar na cabeceira.Augusto distribuiu as cópias impressas da pauta do dia.— Podemos começar, doutor Henrique?— Por favor.A apresentação teve início. Gráficos de rendimento, projeções orçamentárias, indicadores de risco e listas de números.Durante quarenta minutos, participei da discussão como fazia em todas as reuniões. Questionei custos, pedi revisões, recusei uma aquisição e corrigi a inconsistência na página treze da apresentação antes que o diretor financeiro terminasse







