Idris Al-Harith
Às sete e dez da manhã, recebi a primeira recomendação da governança sobre os documentos que deveriam integrar a revisão independente do Grupo Sahar.
Abri o arquivo enquanto minha assessora deixava o café sobre a mesa. A proposta apresentava os procedimentos de preservação dos registros, os responsáveis pelo acesso e as informações que precisariam ser examinadas.
Na terceira página, encontrei uma observação que me fez abandonar a xícara antes do primeiro gole.
A diretoria de operações havia solicitado a exclusão das comunicações com intermediários de recrutamento.
Voltei ao início do documento e reli a justificativa.
Nabil alegava questões comerciais, confidencialidade de terceiros e limitações territoriais. Eram argumentos que mereciam consideração, mas nenhum deles vinha acompanhado da identificação dos documentos efetivamente protegidos ou de um impedimento jurídico específico.
A exclusão proposta era ampla demais.
Peguei o telefone.
— Samira, preciso que marque uma reunião com Nabil e a diretora de governança ainda nesta manhã. Quero os dois presentes, com a proposta de revisão e os fundamentos das restrições solicitadas.
— O senhor deseja incluir algum representante do conselho?
— Ainda não. Primeiro precisamos identificar exatamente o que está sendo pedido. Depois apresentaremos as alternativas à comissão competente. E confirme se a solicitação encaminhada ontem pela equipe do Fundo Atlântico foi recebida pela governança.
— Foi, senhor. O gabinete já enviou a confirmação de recebimento. A resposta técnica depende dessa análise.
— Ótimo. Mantenha tudo pelos canais oficiais.
Desliguei e voltei ao documento.
Durante anos, Nabil Qassem tinha sido um dos homens em quem mais confiei dentro do Sahar.
Conhecia os contratos, os fornecedores e os detalhes de operações que movimentavam milhões de dirhams. Estava na companhia antes mesmo de alguns hotéis existirem no papel.
Quando surgia uma dificuldade, costumava apresentar uma solução antes que os demais diretores terminassem de explicar o problema.
Eu admirava aquela eficiência.
Mas, nos últimos dias, comecei a questionar se todas as soluções que ele apresentava realmente resolviam os problemas ou apenas impediam que chegassem à minha mesa.
Às nove horas, Nabil entrou acompanhado de um assessor.
Pedi que o rapaz aguardasse do lado de fora.
A diretora de governança já estava sentada à mesa, com os documentos organizados diante dela.
Nabil observou os dois lugares ocupados e puxou uma cadeira.
— Idris, não compreendo a necessidade de outra reunião. Minha equipe já apresentou os esclarecimentos. Se continuarmos transformando cada divergência administrativa numa questão institucional, vamos comprometer o interesse dos investidores.
Aguardei que terminasse.
— A reunião não foi convocada para discutir a paciência dos investidores. Precisamos examinar sua proposta de restrição ao acesso documental. Quero que a governança apresente os riscos identificados e que você tenha oportunidade de explicar os fundamentos da solicitação.
Ele se recostou.
— Perfeitamente. Mas espero que a análise considere a dimensão do grupo e a quantidade de contratos que administramos.
A diretora abriu a apresentação.
Explicou que, até aquele momento, existiam divergências documentais que justificavam uma revisão, mas não conclusões definitivas sobre fraude, apropriação de salários ou responsabilidade individual.
O trabalho preliminar deveria estabelecer quais registros existiam, quem os produziu, como foram aprovados e quais obrigações contratuais estavam relacionadas aos procedimentos questionados.
Os dados pessoais seriam protegidos por controles de acesso, e qualquer necessidade de apuração mais ampla dependeria das autorizações adequadas.
Nabil acompanhou a exposição sem interromper.
A resistência apareceu quando chegamos aos intermediários de recrutamento.
— Essas empresas e pessoas estão em outros países — argumentou. — O Sahar não possui autoridade para investigar negócios particulares realizados antes de um trabalhador chegar aos Emirados. Não podemos assumir responsabilidade por todas as negociações que alguém fez para conseguir um emprego.
A diretora respondeu antes de mim.
— Não estamos propondo investigar particulares fora da competência do grupo. Precisamos verificar quais obrigações o Sahar estabeleceu com a Najma, quais controles foram contratualmente previstos e se havia informações relevantes sobre os procedimentos de recrutamento utilizados pela prestadora.
Nabil cruzou os braços.
— O Sahar contrata serviços de lavanderia, limpeza e apoio operacional. Não acompanha a história pessoal de cada funcionário antes da contratação. Se começarmos a exigir isso de todos os fornecedores, a operação ficará inviável.
Inclinei-me para a frente.
— Nabil, não estamos discutindo a vida particular de ninguém. Estamos discutindo obrigações previstas nos contratos que assinamos. Se exigimos determinados procedimentos de uma prestadora, precisamos saber como verificamos seu cumprimento.
Ele olhou para mim.
— Você sabe quantos contratos passam pela minha diretoria? Acredita mesmo que teremos condições de examinar individualmente cada processo de recrutamento?
— Não. Por isso precisamos de uma metodologia de revisão, com critérios e responsabilidades definidos. O que não podemos fazer é retirar uma categoria inteira de documentos antes de verificar se ela tem relação com as divergências identificadas.
A diretora apresentou uma alternativa.
A revisão inicial poderia concentrar-se nas obrigações contratuais, nos registros corporativos disponíveis e nos procedimentos de fiscalização. Eventual acesso a informações protegidas ou relacionadas a terceiros dependeria de justificativa específica e avaliação jurídica.
Era uma proposta razoável.
Nabil, porém, continuava insatisfeito.
— Preciso conversar com a Najma. Eles podem esclarecer essas informações diretamente, sem envolver uma equipe externa em cada etapa.
— Pode solicitar esclarecimentos — respondi. — Mas qualquer pedido relacionado à revisão deverá seguir um canal formal e registrável. Nada de instruções informais aos empregados ou de solicitar novos documentos para substituir aqueles que já existem.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Está sugerindo que alguém faria isso?
— Estou estabelecendo um procedimento de proteção dos registros. A regra vale para todos, inclusive para a minha diretoria.
A diretora de governança consultou outra pasta.
— Aproveitando esse ponto, recebemos uma informação que precisa ser examinada. A Najma começou a solicitar confirmações extraordinárias de recebimento de demonstrativos mensais. Temos cópia do comunicado utilizado.
Ela colocou a folha sobre a mesa.
Examinei o texto.
A linguagem parecia administrativa. Mas o comunicado havia sido preparado justamente quando a revisão dos pagamentos estava sendo discutida.
Além disso, não havia indicação de tradução ou explicação padronizada do alcance da declaração.
— Quem autorizou essa coleta? — perguntei.
Nabil examinou a folha.
— É um procedimento normal da prestadora. Eles fazem conciliações periódicas e precisam confirmar que os demonstrativos foram entregues aos funcionários.
— A confirmação ordinária de entrega é uma coisa. Solicitar novas declarações durante uma revisão é outra. Precisamos saber exatamente o que está sendo confirmado e se as pessoas compreendem o documento que assinam.
Ele soltou o ar lentamente.
— Idris, estamos administrando uma empresa, não conduzindo uma aula. Se cada procedimento precisar ser explicado individualmente, nunca terminaremos nada.
Olhei para a folha novamente.
— Não estou exigindo uma aula. Estou exigindo que documentos capazes de produzir consequências sejam utilizados com clareza. Especialmente quando envolvem pessoas que podem não compreender suficientemente o idioma em que foram redigidos.
A diretora concordou.
— Minha recomendação é suspender temporariamente essa coleta extraordinária até que o jurídico local avalie a finalidade das declarações, a linguagem utilizada e as condições em que estão sendo apresentadas. Os procedimentos ordinários de documentação podem continuar normalmente.
Assenti.
— Formalize a orientação à Najma. Nenhum documento anterior deverá ser substituído, descartado ou alterado em razão da revisão. Também precisamos identificar quais declarações já foram coletadas e preservar as versões existentes.
Nabil fechou a pasta diante dele.
— Você realmente prefere acreditar numa advogada brasileira que chegou há poucos dias a ouvir as pessoas que construíram esta operação ao seu lado?
Sustentei seu olhar.
— Júlia Valença não está conduzindo esta revisão, Nabil. Ela representa um investidor que tem direito a solicitar esclarecimentos dentro do próprio processo de diligência. Nossa obrigação de manter registros verificáveis existia muito antes de ela chegar a Dubai.
Ele permaneceu em silêncio.
Continuei:
— Não se trata de escolher entre a palavra dela e a sua. Trata-se de examinar documentos que nossa própria companhia produziu e aprovou. Eu também terei de responder pelas decisões que tomei. Não pretendo exigir transparência dos outros enquanto considero minhas escolhas imunes à revisão.
Nabil desviou os olhos.
Pela primeira vez naquela manhã, pareceu compreender que a discussão não terminaria com uma ordem para fechar o assunto.
— Vou pedir que minha equipe prepare uma justificativa detalhada para as restrições propostas — disse, levantando-se.
— Faça isso. Identifique os responsáveis, os documentos envolvidos e os fundamentos de cada limitação. A governança examinará a proposta antes de encaminhá-la à comissão do conselho.
Ele saiu levando a pasta.
Não houve despedida.
Esperei a porta se fechar e voltei à diretora.
— Quero que a suspensão das declarações extraordinárias seja comunicada hoje. E precisamos registrar que os documentos eventualmente assinados serão preservados para avaliação, sem presumir sua validade ou invalidade antes do exame adequado.
Ela anotou as orientações.
— Também recomendo que a comissão do conselho autorize formalmente a revisão preliminar. Assim, os responsáveis terão competências definidas e nenhuma diretoria poderá alterar o escopo unilateralmente.
— Concordo. Prepare a proposta para uma reunião extraordinária.
Quando ela saiu, Samira entrou com meu tablet.
— Sheikh Idris, a equipe do Fundo Atlântico encaminhou uma pergunta complementar. A doutora Valença deseja confirmar se a revisão contemplará todas as versões dos aditivos, inclusive seus anexos e os registros utilizados nas respectivas aprovações.
Peguei o aparelho.
A solicitação era objetiva e não mencionava informações além daquelas pertinentes à diligência.
Júlia tinha uma capacidade impressionante de identificar exatamente o ponto em que uma explicação deixava de ser suficiente.
Resolvi responder antes que surgisse outra disputa sobre o silêncio da companhia.
Pedi que fosse informado, pelo canal oficial, que o escopo estava sendo submetido à governança e à comissão competente, e que a diligência receberia os documentos autorizados, com eventuais restrições justificadas e registradas.
Sem promessas de resultado.
Sem declarações preparadas apenas para tranquilizar investidores.
No fim da tarde, Aisha apareceu no gabinete trazendo dois convites para um evento da fundação.
Ela me encontrou examinando a pauta da reunião extraordinária.
— Pela sua expressão, imagino que hoje tenha sido um daqueles dias em que ser presidente da companhia não parece tão interessante.
Tirei os óculos.
— Descobri que muita gente deseja minha assinatura, mas poucas pessoas ficam satisfeitas quando começo a fazer perguntas.
Minha tia colocou os convites sobre a mesa, tomando cuidado para não tocar nos documentos.
— Talvez precise de profissionais que não confundam perguntas com ataques pessoais. Você sempre foi exigente com resultados, Idris. Está na hora de ser igualmente exigente com a maneira como eles são alcançados.
Olhei para ela.
— Nabil acredita que estou colocando em risco o trabalho da diretoria por causa de diferenças que podem ser apenas administrativas.
— E você acredita nisso?
Pensei por alguns segundos.
— Acredito que ainda não temos informações suficientes para concluir o que aconteceu. Mas estou começando a entender que confiar nas pessoas não dispensa verificar aquilo que elas fazem em nome da companhia.
Aisha assentiu.
— Isso já é um começo. Só não permita que sua preocupação em proteger a reputação da família se torne mais importante do que descobrir a verdade.
Ela recolheu a bolsa e se preparou para sair.
Antes que alcançasse a porta, pedi a Samira que confirmasse a convocação extraordinária da comissão de governança do conselho.
Minha tia ouviu a orientação, mas não comentou.
Apenas me lançou um olhar de aprovação antes de se despedir.
Voltei ao trabalho.
Pouco depois, recebi uma atualização da diretora de governança.
A Najma havia confirmado o recebimento da orientação e concordado em suspender a coleta extraordinária de declarações até a conclusão da avaliação jurídica.
Algumas folhas, entretanto, já estavam assinadas.
Fiquei olhando para aquela informação.
Não sabia quantas pessoas tinham assinado, o que compreenderam dos documentos ou se as declarações continham informações capazes de produzir consequências.
E não permitiria que ninguém inventasse essas respostas para facilitar nosso trabalho.
Abri a pauta da reunião extraordinária e acrescentei a necessidade de examinar as condições em que aquelas confirmações foram solicitadas, preservando os registros e respeitando os direitos dos envolvidos.
A suspensão tinha sido necessária.
Mas chegara depois de algumas pessoas colocarem seus nomes em documentos cujo alcance talvez não compreendessem.
Era isso que precisaríamos esclarecer.
E, desta vez, não aceitaria que a palavra de um diretor substituísse as provas que ainda faltavam.