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Capitulo 3 : Altamente confidencial

Autor: Ane Santos
last update Data de publicação: 2025-10-31 14:25:56

NARRADORA

O relógio marcava 11h15. O escritório de advocacia era calmo, e o advogado a quem ela reportava estava ao telefone.

A porta do escritório de Almeida se fechou com um clique suave, mas o som ressoou na mente de Sofia como o toque final de um martelo. O Dr. Almeida, que estava absorto em um calhamaço de papéis, levantou a cabeça.

— Sim, Sofia? Algum problema com a agenda da semana?

Sofia colocou o envelope sobre a mesa, exatamente ao lado da pilha de processos que ela havia organizado cuidadosamente naquela manhã.

— Nenhum problema com a agenda, Doutor. Na verdade, estou aqui para formalizar meu desligamento. Esta é a minha carta de aviso prévio. Meu último dia será daqui a trinta dias.

A caneta na mão do advogado parou de rabiscar. Ele a encarou por um longo momento, avaliando-a não mais como a eficiente recepcionista, mas como uma peça fundamental que estava sendo removida do tabuleiro.

— Desligamento? Mas... por quê? — Sua voz carregava um misto de surpresa e traição profissional. — Alguma oferta melhor?

— Sim, Doutor. Uma irrecusável.

— Ora, se é uma questão de remuneração... podemos conversar. Você sabe o quanto o seu trabalho na recepção é valorizado.

Sofia conteve um sorriso sarcástico. Valorizado, sim, mas nunca pago adequadamente. O valor de seu novo salário mal caberia na folha de pagamento do escritório.

— Agradeço a consideração, Dr. Almeida. Mas não se trata apenas de salário. É uma oportunidade de crescimento que não posso recusar. É definitiva.

Almeida suspirou, resignado. Ele sabia que não conseguiria competir com o que a Titan Investimentos, ou qualquer empresa desse calibre, poderia oferecer.

— Bem. Sinto muito. Você era a única que conseguia entender meu sistema de arquivamento. — Ele pegou a caneta e assinou o recibo do aviso prévio. — Boa sorte, Sofia.

Ela deu um aceno profissional, pegou sua cópia do papel e deixou o escritório sem olhar para trás. Aquele era o fim de sua jornada dupla de sobrevivência.

Chegando em seu pequeno apartamento, o contraste com o mármore frio da Titan a atingiu. O cheiro de frango assado e o som animado da TV a receberam. Sua filha, Lara, (a quem ela tinha feito a promessa silenciosa de um futuro melhor no elevador) estava na sala.

— Oi, mãe! O senhor do mercado ligou perguntando sobre a conta de novo — Lara disse, sem tirar os olhos do desenho animado.

Sofia fechou a porta e sentou-se ao lado da filha, respirando fundo. O peso de meses de estresse finalmente se dissipou, mas foi substituído pela vertigem do salto que acabara de dar.

— Filha, eu tenho uma notícia que vai mudar tudo

— ela começou, segurando a mão de Lara.

Lara desligou a TV, a seriedade da mãe a alertando.

— O que foi? Você foi demitida do trabalho?

— Não. Eu pedi demissão dos dois. De todos os meus empregos. — Sofia sorriu, forçando-se a parecer confiante. — Eu consegui um novo trabalho. Um único emprego.

Lara a encarou, confusa, depois alarmada.

— E como vamos pagar as contas?

— Não, meu amor. Eu consegui o emprego de Assistente Pessoal do CEO da Titan Investimentos. E ele é altamente confidencial e bem remunerado.

Sofia abraçou a filha com uma força renovada. Ali, naquele pequeno sofá, ela selava o pacto de um novo futuro.

Lara, uma criança de apenas cinco anos, apertou a mãe. Seu rosto se ergueu, os olhos grandes e castanhos cheios de uma curiosidade infantil misturada a uma compreensão precoce.

— Mas, mamãe, o que é "confidencial"? — Lara sussurrou.

— Significa que é um segredo, meu amor. Um segredo muito importante. — Sofia tocou o nariz de Lara. — Eu não posso contar a ninguém, nem mesmo à vovó, sobre o que eu faço lá ou sobre o Sr. Monteiro. Combinado?

— Como uma missão de espionagem? — Lara perguntou, os olhos brilhando com a ideia de aventura.

— Exatamente como uma missão de espionagem! -Sofia riu baixinho, aliviada pela simplicidade da aceitação infantil.

Diana, que estava de pé à porta da cozinha, finalmente se moveu, pegando a chaleira no fogão.

— Isso não é uma missão, é um precipício — Diana comentou, a voz grave, mas com uma ponta de orgulho. — Você se livrou de dois empregos insalubres e se amarrou ao homem mais implacável de Nova York...

Sofia colocou Lara no chão.

— Não fale assim na frente dela. E não, Diana. É a nossa única chance. Quatro vezes o meu salário! Você sabe o que isso significa para as contas, para a escola da Lara, para tudo!

As duas se sentaram à pequena mesa da cozinha, enquanto Lara voltava a desenhar no chão, agora totalmente engajada em imaginar a mãe como uma espiã de terninho.

Sofia e Diana escutavam com atenção o silêncio da noite, que prometia a calmaria antes da tempestade.

— Você precisa ter cuidado, Sofi — Diana aconselhou, a voz mais baixa. — O Monteiro não contratou você pelo seu currículo. Ele a contratou por ele ter visto você... "lidar com o problema". Se ele souber que você tem uma filha e uma vida caótica, pode usar isso contra você.

— Eu sei. Por isso a Márcia, do RH, não viu o meu histórico completo. E por isso, a partir de amanhã, eu sou apenas Sofia Fields, a nova Assistente Pessoal. A frieza que ele viu na briga com o pai da Lara... é o que ele vai ter. Nenhuma emoção, nenhum erro.

Diana colocou as mãos sobre as de Sofia.

— Você vai conseguir. Mas e o seu guarda-roupa? E os sapatos? Você não pode ir para a Titan parecendo que acabou de sair do turno do restaurante.

Sofia riu, a tensão finalmente se quebrando em um som fraco.

— Eu tenho menos de doze horas para resolver isso.

Diana se levantou, batendo as mãos.

— Então, sem dormir. Eu te empresto o meu melhor terninho de entrevistas e passamos a noite com ferro de passar e tesoura. Precisamos que a nova "Senhorita Fields" tenha a aparência que o Sr. Monteiro espera.

Aquele não seria um descanso, mas o início de uma longa noite de preparativos, onde a amizade de Diana se transformaria em consultoria de imagem e estratégia de guerra. O futuro de Sofia e Lara dependia de uma transformação completa até as 7h da manhã.

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