LOGINO dia seguinte ao acidente não trouxe o alívio que o sono — quando vinha — costumava prometer. Para Hunter, o amanhecer foi o início de um pesadelo lúcido, uma realidade fria e cortante que ele não podia evitar. O mundo lá fora continuava a girar, os carros passavam pelas avenidas de Los Angeles e o sol insistia em brilhar, mas dentro dele, tudo estava estagnado, congelado no momento em que recebeu a notícia.
Como Hunter já esperava, seu irmão Alistair assumiu as rédeas da situação. O médico, apesar de também estar sofrendo pela perda da cunhada, manteve a compostura necessária para organizar o que Hunter jamais teria forças para fazer: o funeral. Alistair cuidou de cada detalhe, desde as flores até os comunicados à imprensa, garantindo que Clara tivesse a despedida mais digna e bela possível. A cerimônia foi um evento silencioso e pesado. Clara estava dentro daquele caixão de mogno, parecendo mais uma escultura de porcelana do que uma pessoa morta. Ela estava linda, vestida com seu vestido favorito, os cabelos arrumados e uma expressão serena no rosto, como se estivesse apenas em um sono profundo e restaurador. Para Hunter, no entanto, aquela visão era a mais assustadora de sua vida. Era como uma cena de um filme de terror psicológico; o contraste entre a beleza dela e a imobilidade eterna era desesperador. Ele queria gritar para ela acordar, queria sacudi-la até que aqueles olhos castanhos brilhassem novamente, mas ele permanecia ali, parado como uma estátua de gelo. Todos os seus amigos e colegas estavam presentes. O time de futebol americano compareceu em peso, homens grandes e fortes que pareciam pequenos diante da tragédia do seu quarterback. Eles prestavam suas homenagens em silêncio, tocando o ombro de Hunter em um sinal de apoio que ele mal sentia. O capitão da equipe aproximou-se, os olhos marejados. — Hunter, tire o tempo que precisar — disse o capitão, a voz baixa. — A equipe está com você. Não se preocupe com treinos ou jogos agora. Apenas cuide de si mesmo e da sua pequena. Hunter apenas assentiu, as palavras entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Nada daquilo importava. O futebol, a fama, os títulos... tudo parecia cinza e sem valor. Depois da cerimônia excruciante e do sepultamento, o retorno para casa foi, sem dúvida, a missão mais difícil que Hunter já enfrentou. Cada metro percorrido no carro era um passo em direção ao vazio. Ao chegarem ao portão da mansão, Alistair estacionou o carro e olhou para o irmão com preocupação genuína. — Hunter, eu vou entrar com você. Vou ficar aqui hoje — insistiu Alistair, segurando o volante com força. — Você não precisa passar por isso sozinho. — Não, Alistair — Hunter interrompeu, sua voz saindo seca e sem vida. — Eu preciso começar a enfrentar a solidão que se tornará os meus dias. Eu preciso ficar sozinho. Agora. Alistair tentou protestar, disse que a dor compartilhada era mais leve, mas Hunter apenas saiu do carro e fechou a porta. Ele não queria consolo; ele queria se afogar no próprio silêncio. Ao entrar na casa, o cheiro de Clara ainda estava por toda parte. Estava nas flores nos vasos, no perfume que pairava no hall de entrada, nas almofadas do sofá. Hunter caminhou direto para o bar da sala. Ele nunca fora um homem de beber muito; como atleta de elite e CEO, sua saúde era seu templo. Mas naquela noite, ele não era um atleta. Ele era apenas um homem destruído. Ele encheu um copo de uísque puro e virou de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta, buscando desesperadamente uma anestesia que demorava a chegar. A dor, que já era insuportável, tornou-se um monstro ainda maior quando ele abriu uma pasta que o hospital havia entregue junto com os pertences de Clara. Ali, entre exames de rotina, estava o resultado de um exame de sangue que ela havia feito dias antes: Clara estava grávida de três meses. Um grito de agonia escapou dos lábios de Hunter. Ele não tinha perdido apenas a esposa; ele tinha perdido o futuro, um filho ou filha que jamais conheceria a luz do dia. Ele acabou com a garrafa inteira de uísque sozinho, sentado no chão do bar. Cambaleando, foi até o seu escritório, onde se trancou. Ali, ele chorou até soluçar, gritou xingamentos para todos os santos, para Deus e para qualquer força divina que tivesse permitido aquela crueldade. Ele socou a mesa, jogou livros no chão e, exausto pelo álcool e pelo sofrimento, acabou dormindo ali mesmo, no tapete frio. Os dias que se seguiram transformaram-se em uma névoa sombria. A rotina de Hunter era um ciclo de autodestruição. Ele bebia, chorava e quebrava mais algumas coisas sempre que a raiva superava a tristeza. Ele passava horas beijando as fotos de Clara, assistindo a vídeos antigos no celular, ouvindo os áudios dela repetidamente apenas para sentir a vibração daquela voz em seus ouvidos. Ele dormia abraçado às roupas dela, aspirando o perfume que começava a desaparecer do tecido, sentindo-se cada vez mais louco. Já haviam se passado quinze dias. Alistair ligava constantemente, vinha até a casa, batia na porta, mas Hunter não atendia e não permitia a entrada de ninguém. Ele estava se tornando um fantasma dentro da própria casa. No vigésimo dia, no entanto, Hunter foi surpreendido. Ao descer para a sala, encontrou Alistair sentado no sofá. O irmão devia ter usado sua chave reserva.Sete anos se passaram como um sopro de vento, transformando a mansão Blackwood em um cenário de movimento constante. Onde antes reinava o silêncio do luto, agora ecoavam as batidas de música pop, os gritos de Thomas correndo pelos corredores e, mais recentemente, as longas conversas ao telefone de uma adolescente que descobria o mundo. A festa de 15 anos de Lily não era apenas um evento; era o baile do ano. Hunter não poupou recursos. O salão principal da cidade estava decorado como um jardim de inverno encantado, com cristais pendendo do teto e milhares de rosas brancas. °°° Elena terminou de ajustar o colar de pérolas em Lily e deu um passo para trás, emocionada. A menina retraída de oito anos havia dado lugar a uma jovem deslumbrante. Lily usava um vestido de baile azul-claro que realçava seus olhos, e seu sorriso tinha uma confiança que Elena ajudara a cultivar dia após dia. — Você está maravilho
O jardim da mansão Blackwood estava diferente de qualquer outra celebração que já havia passado por ali. Não havia a rigidez dos eventos corporativos, nem a sombra do luto que pairou por tanto tempo. Hoje, o ar estava preenchido pelo som de risadas infantis, pelo aroma de pipoca e pelo brilho de balões em tons de azul e dourado que flutuavam sob o céu claro de domingo. Thomas completava seu primeiro ano de vida. Elena observava a cena da varanda, sentindo um calor no peito que nenhuma palavra conseguiria descrever. Ela estava radiante, com os cabelos soltos e um vestido leve. Ao seu lado, Hunter se aproximou, envolvendo sua cintura com um braço e depositando um beijo em seu ombro. Ele parecia anos mais jovem; as linhas de tensão em seu rosto tinham sido substituídas por uma serenidade profunda. — Olhe para isso — Hunter sussurrou, apontando para o gramado. — Quem diria que esta casa voltaria a ter tanta vi
Dias depois... A madrugada estava silenciosa na mansão Blackwood quando o mundo de Elena mudou. Não houve um grande alarde, apenas uma sensação estranha e úmida que a fez despertar de um sono leve. Ao se sentar na cama, sentiu a primeira contração — uma pressão forte e ritmada que a fez prender o fôlego. — Hunter… — ela chamou, tocando o ombro do marido. Ele, que andava dormindo em alerta máximo, despertou no mesmo instante. Bastou um olhar para a expressão de Elena para que o "General" assumisse o controle, mas desta vez com um brilho de ansiedade nos olhos que ele não conseguia esconder. — Está na hora? — ele perguntou, já se levantando e pegando o telefone. — Está na hora. Enquanto Hunter ligava para o Dr. Aris e para Steve, Elena tentava manter a calma, respirando fundo como havia praticado. Sônia que ultimamente estava dormindo na mansão foi acordada para ficar com Lily, que ainda dormia o
A festa finalmente tinha acabado. O silêncio da casa era gostoso, quebrado apenas pelo som distante do vento lá fora. No quarto, a luz estava baixinha, deixando tudo com um clima acolhedor e calmo. Hunter fechou a porta devagar e caminhou até Elena, ele parou a milímetros dela, encostando a testa na sua. Eles ficaram ali por um momento, apenas respirando o mesmo ar, sentindo o alívio de que, agora, eram oficialmente um só. — Sra. Blackwood... — ele murmurou. A voz de Hunter, geralmente um comando de autoridade nos campos e nas salas de reunião, saiu como um segredo sagrado, carregado de uma reverência que fez os olhos de Elena arderem. Elena sorriu, sentindo um friozinho bom na barriga ao ouvir o nome. Aquele nome não era apenas um sobrenome; era o símbolo da sua vitória sobre a infertilidade, sobre a solidão e sobre as mentiras de Vanessa. — Soa bem, não soa? — ela respondeu em um sussurro, passando os dedos pela nuca dele, sentindo a te
O jardim estava mergulhado em um silêncio reverente. O vento soprava suave, agitando as pétalas de lírios, enquanto o sol dourava o rosto dos convidados. Hunter e Elena estavam frente a frente, as mãos entrelaçadas sobre o ventre dela, onde Thomas parecia inquieto, como se soubesse da importância daquele instante. O celebrante fez um sinal, e Hunter deu um passo à frente. Ele não precisava de papel; as palavras estavam gravadas em sua alma. — Elena... — a voz de Hunter falhou por um milésimo de segundo, revelando a vulnerabilidade que apenas ela conhecia. — Há onze meses, eu achava que o meu coração tinha se tornado um lugar onde ninguém mais poderia morar. Eu vivia entre as sombras, acreditando que a felicidade era algo que eu só veria no espelho retrovisor. Mas aí, você chegou. Você não pediu licença; você simplesmente trouxe sua luz para a minha escuridão. Ele apertou as mãos dela, os olhos escuros brilhando com uma intensidade avassal
Três semanas depois... A mansão Blackwood amanheceu envolta em uma aura mágica. O jardim, que antes carregava o peso da solidão de Hunter, fora transformado em um cenário etéreo. Arcos de flores brancas e lírios do campo — a flor favorita de Elena — adornavam o caminho até o altar, enquanto cadeiras de madeira rústica esperavam pelos poucos e seletos convidados. No andar de cima, o quarto estava mergulhado em um caos organizado. Elena observava seu reflexo no espelho, sentindo uma emoção que transbordava. Ela já estava com quase oito meses de gestação, e sua barriga era uma curva majestosa sob o vestido de noiva. Sarah, a esposa de Steve, ajudava a ajustar os últimos detalhes. O vestido era uma obra-prima de seda fluida, em um tom de pérola que iluminava a pele de Elena. O corte império, logo abaixo dos seios, permitia que o tecido caísse com leveza sobre o ventre, conferindo-lhe uma elegância serena e materna. Seu cabelo estava preso em







