تسجيل الدخولMinha rotina era cheia demais para permitir distrações. Tentava manter a mente ocupada com coisas úteis.
Passava por treinos longos, analisava relatórios, simulações, reuniões que nunca acabavam. O corpo cansava, mas a mente não podia. Se eu parasse, tudo voltava. O passado tinha esse vício de aproveitar o silêncio para povoar a mente com lembranças indesejáveis.
Por isso, a academia não era só um hábito. Para mim, era terapia.
Ali, eu não precisava falar. Não precisava lembrar. Só precisava sentir o peso certo, a dor controlada, o suor queimando músculos que ainda obedeciam a mim.
Naquela noite, fui em um horário diferente.
Uma mudança simples. Quase banal.
Se eu acreditasse em coincidências, diria que foi só isso.
O ambiente estava mais vazio do que o normal. Pouca música, poucos olhares curiosos. Perfeito pra mim. Coloquei os fones, respirei fundo e comecei o treino. O corpo respondeu rápido, como sempre. Era ali que eu me sentia inteira. Mais forte e dona de mim.
Eu estava carregando alguns pesos de volta ao suporte quando aconteceu.
O choque veio seco e violento.
Um impacto lateral forte o suficiente para me fazer perder o equilíbrio. Os halteres escaparam das minhas mãos e caíram direto sobre o meu pé.
A dor que explodiu foi aguda e ardida, cruel na forma como o corpo reconheceu algo que já tinha sentido antes — violência sem aviso.
— Porra… — gemi, tentando me apoiar em qualquer coisa antes de cair de vez.
Tentei me levantar, mas a dor me fez gemer. Foi então que vi uma sombra se aproximar. Mãos firmes me tocaram, sustentando meu corpo com cuidado.
— Calma — a voz masculina soou baixa, controlada, bem próxima. — Eu te seguro.
Levantei os olhos ainda ajoelhada — e o mundo parou. O coração acelerado pela dor e pelo susto.
Era Heitor Castro. Ali, bem na minha frente.
Por um instante, tudo ao meu redor desapareceu. O barulho da academia, as vozes, a dor. Só havia aquele rosto, tão familiar e tão distante. Os mesmos olhos verdes, agora mais intensos, marcados pelo tempo. O mesmo porte imponente, mas com algo diferente: um peso invisível nos ombros, como se carregasse batalhas que ninguém vê.
— Você está bem? — perguntou, a voz grave, carregada de preocupação.
O destino estava jogando a meu favor ou me testando? Antes mesmo de eu colocar meu plano de infiltração em prática, o alvo literalmente caiu sobre mim.
Meu coração disparou. Respirei fundo, tentando controlar a avalanche de emoções. Ele não me reconheceu. Claro que não. Depois da cirurgia, meu rosto tinha mudado. Mas eu o reconheci no mesmo instante — e isso foi suficiente para me desestabilizar.
— O pé… — respondi, com a voz mais controlada do que me sentia. — Um dos pesos caiu em cima.
Ele se abaixou um pouco mais, avaliando rápido, atento demais. Os dedos tocaram meu tornozelo com cuidado, quase íntimos. Meu coração bateu errado.
— Consegue apoiar? — perguntou.
Assenti, mesmo sabendo que não tinha escolha.
Ele passou o braço pelas minhas costas, apoiando meu corpo contra o dele. O toque reacendeu algo que eu pensei ter enterrado. Meu coração gritava, mas minha mente lembrava: ele é meu alvo. Ele é o chefe da máfia que destruiu minha vida. Ainda assim, bastou a proximidade para meu corpo reagir como antes — a pele arrepiou, o calor subiu pelo pescoço, e cada músculo parecia lembrar o que era estar perto dele.
O perfume discreto, a firmeza das mãos, a respiração próxima... tudo me atingiu como uma onda, trazendo de volta a química que sempre existiu entre nós, aquela força invisível que me puxava para ele, mesmo quando eu queria fugir.
Chamou um funcionário com um gesto curto.
— Gelo, por favor.
Enquanto esperávamos, o silêncio entre nós ficou denso. Ele me observava com atenção demais, como se algo ali o deixasse desconfortável. Não era reconhecimento. Era outra coisa. Uma tensão contida que eu senti na forma como ele respirava, como evitava me tocar de novo.
Meu corpo, traidor, sentia tudo.
Quando o gelo chegou, ele mesmo posicionou sobre meu pé, rápido demais, como se precisasse criar distância.
— Isso ajuda a conter o inchaço.
— Obrigada.
Nossos olhares se cruzaram por um segundo longo demais.
Havia algo ali. Um choque silencioso. Uma força antiga que não tinha desaparecido, apenas aprendido a se esconder.
O celular dele vibrou.
Heitor se afastou um passo, como se aquilo fosse um resgate. Atendeu.
— Fala.
O tom mudou. Frio. Autoritário e controlado.
— Não, hoje não dá. Eu já disse. — Passou a mão pelos cabelos, impaciente. — Eu preciso resolver isso logo. Não posso deixar as crianças com qualquer pessoa.
Meu corpo ficou alerta na mesma hora.
— Babá, governanta… o que você puder conseguir. Desde que seja alguém de confiança — continuou. — A Beatriz vai viajar de novo. Eu não tenho tempo pra esse tipo de problema.
Babá.
Crianças.
A palavra ecoou na minha cabeça como uma chave girando.
Ele encerrou a ligação, respirou fundo e voltou a me encarar. O olhar estava mais fechado agora. Blindado.
Enfiou a mão no bolso e tirou algumas notas dobradas, estendendo para mim.
— Vai a um hospital — disse, seco. — Isso cobre uma consulta.
A humilhação veio quente.
Afastei a mão dele sem tocar no dinheiro.
— Não precisa se preocupar.
— Eu insisto.
— Guarda isso — respondi, firme. — Não sou um problema pra você resolver com dinheiro.
Os olhos verdes escureceram por um instante. Algo passou ali. Irritação? Culpa? Controle perdido?
Ele assentiu uma única vez.
— Como quiser.
Virou de costas e se afastou.
Fiquei sentada mais alguns segundos, respirando fundo, sentindo o gelo derreter sobre a pele e algo muito mais perigoso se formar dentro de mim.
Aquilo não tinha sido só um encontro.
Era uma porta.
E tinha acabado de se abrir.
Saí da academia mancando levemente, mas com a mente afiada demais para sentir qualquer outra coisa. Entrei no carro, joguei a bolsa no banco do passageiro e liguei antes mesmo de colocar o cinto.
— Carla, sou eu.
— Mirtes? Aconteceu alguma coisa?
— Acabei de encontrar com o Heitor Castro.
Silêncio do outro lado da linha.
— Como assim? Onde?
— Na academia que vim malhar hoje. — Respirei fundo. — E ele estava ao telefone falando sobre precisar de uma babá para os filhos. Acho que encontrei a brecha que precisamos para nos infiltrarmos.
Fiz uma pausa.
— Quero me candidatar a essa vaga de babá.
A resposta dela veio rápida demais.
— Você tem certeza?
— Absoluta.
Contei tudo. Como nos esbarramos por acidente. A ajuda que me ofereceu. A ligação que recebeu e citou o assunto “babá”. Cada detalhe que poderia parecer irrelevante, mas que, juntos, desenhavam uma oportunidade perfeita demais para ignorar.
— No dossiê consta que ele tem três filhos — Carla disse, já digitando alguma coisa. — Um adolescente, um menino pequeno e uma menina.
— Eu sei.
Eu sabia mais do que deveria.
Enquanto eu precisei juntar cada caco quebrado para reconstruir aminha vida. Ele formava uma família. Tem esposa e filhos, levando uma vida aparentemente feliz, e isso só intensifica o meu ódio e desejo de vingança.
— A esposa viaja muito, não é?
— Sim. Beatriz Castro. Filantropa. Sempre em eventos, projetos sociais, campanhas a favor dos necessitados. — Ela fez uma pausa. — Isso pode funcionar.
— Vai funcionar.
Nos encontramos virtualmente poucas horas depois. A equipe inteira conectada, rostos atentos, cautelosos. Não precisei convencer ninguém por muito tempo. Os dados se encaixavam. O momento era perfeito. O risco, calculado.
— Vamos inserir seus dados nas plataformas de recrutamento — explicou Carla. — Currículo impecável, referências sólidas, tudo dentro do perfil que ele procura.
— Tem que ser um perfil de confiança — completei.
— Exatamente. E você se chamará Valentina Cruz.
Eu observei os rostos na tela enquanto falavam de prazos, ajustes, documentos falsos. Tudo muito técnico. Muito frio.
Mas dentro de mim, algo queimava.
Porque aquela infiltração não era só estratégica.
Era íntima.
Entrar na casa de Heitor Castro não significava apenas desmontar uma organização criminosa por dentro. Significava entrar no território dele. No espaço que ele protegia. Na vida que construiu depois de me deixar para trás.
Significava olhar nos olhos do homem que me destruiu e fingir que eu não o conhecia.
Ou talvez não fingir tanto assim.
Quando a reunião terminou, desliguei o computador e fiquei alguns minutos em silêncio, encarando a parede vazia do apartamento.
Babá.
A palavra ecoava na minha cabeça com um peso estranho.
Valentina Cruz vai cuidar dos filhos dele.
Estar onde a esposa não estava.
Ser presença onde havia ausência.
O destino tinha um senso de humor cruel.
Ou talvez estivesse, finalmente, me oferecendo a chance de reescrever a história.
Eu toquei o pé machucado, agora inchado, e sorri de canto.
A dor passaria. Aquela oportunidade, não.
Heitor Castro achava que precisava de alguém para cuidar dos filhos.
Mal sabia ele que estava prestes a deixar entrar em sua casa a mulher que carregava a chave da ruína dele.
Eduardo Arruda O sol da manhã na Costa Rica parecia ter sido polido para o dia de hoje. O céu era um manto azul infinito, sem uma única nuvem para ousar fazer sombra ao meu casamento. Eu estava parado diante do espelho, ajustando o colarinho da minha camisa de linho branco. Minhas mãos, que nunca tremeram em um campo de batalha, agora insistiam em uma leve vibração. — O grande capitão está nervoso? — a voz de Heitor ecoou na porta. Olhei pelo reflexo e vi meu pai, usando camisas e calças de linho azul claro. — Mais do que quando saltava de paraquedas em zona de guerra, pai. É uma sensação diferente. É como se meu coração estivesse fora do peito. — Isso se chama amor, Eduardo. E é a única coisa que realmente vale a pena proteger com a vida — ele disse, colocando a mão no meu ombro. Caminhamos juntos até o altar montado sob um arco de orquídeas brancas e folhagens tropicais, bem onde a areia se encontrava com o mar. A música começou a tocar, uma melodia suave que parecia flutuar
Heitor Arruda Eu estava ali, sentindo o balanço suave das águas do Caribe, mas meu interior ainda rugia como as tempestades de areia do sertão de Pernambuco. Eu observava o horizonte, onde o céu começava a sangrar os primeiros tons de um laranja carregado. Ali, naquele convés manchado de pólvora, eu vi o reflexo de quem eu fui e de quem o meu filho se tornou. Vim de longe. Saí do solo rachado do Brasil, fugindo de uma sina que eu não compreendia, deixando para trás a Mirtes. Deixei a mulher que amava com o ventre crescendo, carregando o Eduardo, porque me senti pequeno diante das chantagens. Naquela época, eu era apenas um peão no tabuleiro de um homem frio, sem saber que aquele monstro era o meu próprio pai. Fui covarde. Escolhi a fuga, acreditando que a distância protegeria quem eu amava, enquanto os entregava aos lobos. Mas o destino é um moinho que tritura o orgulho. Anos depois, a vida me deu a chance de reencontrar Mirtes e conhecer o meu verdadeiro destino. Hoje, olhando
Eduardo Arruda O mar das águas caribenhas, que costumava ser um espelho de paz, agora fervia sob o impacto dos motores de alta performance e da iluminação fria das lanchas de combate. Dante Mancuso não veio para brincar. Ele trouxe o peso da máfia italiana, um arsenal que fazia a lancha de Bashir parecer um brinquedo de plástico à deriva. Adam Foster — o nome real do Bashir. Dessa vez seria aniquilado e nunca mais iria traficar vidas — estava encurralado, asfixiado pelo poder dos Arruda. Eu estava na proa da lancha líder, o vento cortante batendo no meu rosto, sentindo o peso do fuzil nas mãos e a fúria pulsando nas têmporas. Ao meu lado, meu pai, Heitor, mantinha o olhar fixo no alvo. Ele não era mais o pai protetor de momentos antes; era o executor implacável. Abel operava os controles táticos nos fundos, coordenando os drones que agora sobrevoavam a embarcação de Bashir como abutres eletrônicos. — Ele está sem saída, Eduardo — Abel anunciou pelo rádio. — O motor principal de
Eduardo Arruda Aquele desgraçado Bashir não vai destruir a paz que conquistamos aqui. Quantas vidas ele tem? Vou manter minha família segura e ele não tocará um sedo na Melina. Eu estava na varanda, observando o movimento dos drones de patrulha do tio Abel, enquanto minha mente voltava para o passado. Lembrei-me de quando fui enviado para aquele internato na Europa. Meu pai queria me proteger de Beatriz e das sombras que rondavam os Arruda. Eu era apenas um garoto confuso, sentindo o peso do abandono, até que a vi pela primeira vez nos jardins daquela instituição. Melina. Ela era um raio de sol em meio à rigidez daquele lugar. Sua amizade foi o bálsamo que me impediu de sucumbir à solidão. — Você está com aquele olhar de quem está carregando o mundo nas costas, meu filho — a voz doce de minha mãe me trouxe de volta. Mirtes aproximou-se, colocando a mão em meu ombro. Senti o calor do seu toque, algo que me fez sentir, por um segundo, o garoto de anos atrás. — Eu não devia ter es
Abel Arruda Eu curtia o sol e o clima do Caribe na varanda da casa principal, mas a coisa mudou no instante em que meu telefone via satélite tocou. Era um canal criptografado que poucas pessoas no mundo possuíam. Dante, o novo rei da máfia italiana e latina, não ligava para jogar conversa fora. — Abel. Temos um problema cruzando o Atlântico — a voz de Dante veio fria, sem preâmbulos. — Diga, Dante. Estou ouvindo — respondi, fazendo um sinal para Heitor, que estava por perto, se aproximar. — Meus informantes na Sicília confirmaram. Bashir Danjuma está vindo para o seu quintal. Senti um calafrio que não tinha nada a ver com a brisa do mar. O nome Bashir era sinônimo de pesadelo no submundo. — Ele é o maior traficante de carne humana da Europa e África. Por que ele viria até aqui? — perguntei, já sentindo o sangue ferver. — Ele não quer dinheiro, Abel. Ele quer a garota que está com seu sobrinho. Melina. Ele a vê como propriedade privada. Desliguei o aparelho e encarei Heitor.
Eduardo Arruda O sol da Costa Rica era o bálsamo que nossas almas precisavam. Após o casamento duplo, a ilha mergulhou em uma calmaria que parecia saída de um sonho. Meus pais e os tios partiram para uma lua de mel curta, mas necessária, deixando a responsabilidade da ilha e dos meus irmãos em nossas mãos. Era um teste de fogo para o que estava por vir. Eu e Melina, cuidando de Alice, Pedro e do pequeno Lion, como se fôssemos ensaiar para a nossa própria família. — Eles finalmente dormiram — Melina sussurrou, surgindo na varanda com os cabelos levemente úmidos e o rosto iluminado pelo luar. — Alice tem energia para três exércitos — rí baixo, puxando-a para sentar-se no meu colo, sentindo o calor do seu corpo contra o meu. — Ela me lembra você, Eduardo. Teimosa, decidida e com um coração que não cabe no peito. Acariciei seu ventre, um gesto que se tornou meu vício nos últimos dias. A ideia de que havia uma vida ali, nossa, era o que me mantinha são. — Jack ligou hoje cedo. Nada







