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Capítulo 2

Author: Cláu
last update publish date: 2026-09-20 21:35:48

A gargalhada de Henrique desapareceu rápido, quase como se ele próprio tivesse estranhado o som, mas Helena percebeu.

Percebeu o instante exato em que a criança relaxou os ombros pela primeira vez desde que ela chegara naquela casa. Foi breve, pequeno, delicado mas foi real.

Ela sorriu discretamente.

- Então acho melhor me comportar bem na frente do Tobias.

Henrique abraçou o urso azul contra o peito antes de sentar-se na cama devagar.

Os cabelos bagunçados caíam sobre os olhos sonolentos enquanto ele observava Helena com uma atenção curiosa.

- Você gosta de panquecas?

A pergunta surgiu do nada.

Helena piscou.

- Isso foi aleatório.

- O que é aleatório?

Ela conteve uma risada.

- Significa que você mudou de assunto muito rápido.

Henrique pareceu pensar sobre aquilo.

- Ah.

Depois apontou para ela.

- Mas você não respondeu.

Helena apoiou o cotovelo no braço da poltrona.

- Gosto muito.

O menino assentiu com seriedade.

- Então talvez você possa ficar.

Ela arqueou levemente a sobrancelha.

- Porque eu gosto de panquecas?

- Sim.

- Critério rigoroso.

Henrique quase sorriu outra vez.

Marta observava os dois da porta, claramente surpresa com a facilidade daquela interação. Nas últimas semanas, Henrique recusara aproximação de praticamente todos os adultos ao redor.

Mas com Helena parecia diferente, talvez porque ela não o tratasse como alguém quebrado.

Helena levantou-se da poltrona lentamente.

- Vamos negociar uma coisa.

Henrique inclinou a cabeça.

- O quê?

- Você escova os dentes sem reclamar e eu faço panquecas.

Os olhos dele arregalaram-se ligeiramente.

- Você sabe cozinhar?

- Isso pareceu ofensivo.

- A última babá queimou arroz.

Helena colocou a mão no peito dramaticamente.

- Queimar arroz devia ser crime.

Henrique riu baixo, dessa vez, sem se controlar.

E Marta sentiu os próprios olhos marejarem discretamente.

Porque fazia tempo que aquela casa não escutava uma criança rir.

---

Na cozinha, cerca de meia hora depois, Helena tentava encontrar os utensílios certos enquanto Henrique permanecia sentado sobre a bancada observando tudo com extrema atenção.

- Você está me fiscalizando?

- Sim.

- Tobias mandou?

O menino assentiu imediatamente.

Helena balançou a cabeça em falsa indignação.

- Esse urso claramente não confia em mim.

Henrique abraçou Tobias.

- Ele confia um pouquinho.

A cozinha começou a ganhar vida aos poucos, o cheiro doce da massa na frigideira espalhou-se pelo ambiente enquanto a luz da manhã atravessava as enormes janelas de vidro.

Pela primeira vez desde a morte de Bianca, funcionários começaram a circular pela casa sem aquele silêncio pesado e quase fúnebre.

Helena percebia.

As pessoas ali andavam como quem tinha medo de fazer barulho, como se alegria fosse proibida naquela casa agora.

Ela virou a panqueca habilmente.

Henrique arregalou os olhos.

- Uau.

- Impressionado?

- Um pouco.

Helena aproximou-se dele com o prato.

- Experimente.

O menino pegou um pedaço pequeno ainda desconfiado, mastigou lentamente e depois olhou para ela.

- Você pode ficar.

Ela sorriu.

- Que honra.

Henrique estava prestes a responder quando passos firmes ecoaram pela entrada da cozinha.

O ambiente mudou imediatamente, Helena ergueu os olhos, Dário acabara de chegar.

O terno escuro perfeitamente alinhado contrastava completamente com o semblante cansado. Ele segurava o celular numa mão enquanto retirava lentamente o relógio do pulso com a outra. Mas então percebeu a cena diante dele, Henrique sentado na bancada, conversando, comendo e sorrindo.

O movimento dele desacelerou, muito discretamente.

Helena observou a mudança no olhar dele, surpresa e confusão.

E algo perigosamente próximo de alívio, Henrique virou-se imediatamente.

- Papá! Ela sabe fazer panquecas!

Dário manteve os olhos em Helena por alguns segundos antes de responder.

- Estou vendo.

A voz grave saiu mais baixa do que o habitual.

Helena sentiu um leve desconforto crescer sob aquele olhar atento, porque agora ele não parecia apenas avaliando uma funcionária, parecia tentando entendê-la.

Henrique pegou outra panqueca.

- E ela não queimou nada.

Dário tirou lentamente o casaco.

- Isso realmente eleva o nível da casa.

Helena arqueou uma sobrancelha.

- Espero que esteja me elogiando.

Ele aproximou-se da bancada.

- Ainda estou decidindo.

Os olhos dos dois se encontraram por um segundo longo demais e Henrique percebeu, crianças sempre percebiam.

O menino olhou discretamente entre os dois antes de voltar a comer em silêncio.

Helena desviou primeiro, melhor assim.

Porque havia alguma coisa desconfortavelmente intensa naquele homem quando ele a observava sem frieza e isso era perigoso.

Dário pegou uma xícara de café já preparada por uma funcionária e recostou-se parcialmente contra a bancada.

- Ele dormiu bem?

- Melhor que o esperado.

Henrique respondeu antes dela.

- Porque ela ficou no meu quarto até eu dormir.

Dário voltou os olhos para Helena.

Ela manteve a calma.

- Crianças lidam melhor com mudanças quando se sentem seguras.

Ele permaneceu olhando para ela por alguns segundos.

- E acha que já fez ele se sentir seguro?

Helena apoiou a espátula sobre o balcão.

- Acho que ele está cansado de se sentir sozinho.

Silêncio, outra vez.

Ela tinha um talento irritante para tocar em pontos delicados.

Dário tomou um gole lento do café.

- Você sempre responde perguntas com críticas?

- Só quando necessário.

Henrique observava os dois como quem assistia a uma partida de tênis.

- Vocês brigam estranho.

Os dois olharam imediatamente para ele.

Helena quase riu.

Dário fechou os olhos rapidamente, soltando uma respiração cansada.

- Estamos conversando.

Henrique mastigou mais um pedaço de panqueca.

- Parece briga.

Helena apoiou os braços na bancada.

- Talvez seja uma conversa competitiva.

- O que é competitiva?

- Quando duas pessoas querem ganhar.

Henrique pensou por um instante, depois apontou para Helena.

- Acho que você está ganhando.

Dário soltou uma pequena risada nasal inesperada, muito breve e aquilo surpreendeu até ele próprio.

Helena percebeu imediatamente.

Aquela foi provavelmente a primeira reação espontânea daquele homem em dias, talvez semanas.

Dário endireitou-se quase no mesmo instante, como se tivesse consciência do deslize.

- Tenho uma reunião daqui a uma hora - disse secamente. - O motorista vai levar Henrique à terapia às três.

Henrique imediatamente perdeu parte da animação.

Helena percebeu.

- Você não gosta da terapia?

O menino deu de ombros.

- A doutora fica perguntando se eu estou triste.

O olhar de Helena suavizou.

- E você está?

Henrique ficou quieto, muito to quieto, depois abaixou os olhos para o prato.

- Quando eu digo que sim, ela faz cara de pena.

Aquilo apertou o peito dela instantaneamente, Dário também percebeu.

E pela primeira vez em dias, sentiu culpa de verdade atravessá-lo sem defesa.

Porque talvez estivesse tão focado em manter tudo funcionando que não percebeu como o próprio filho se sentia observado, analisado, tratado como um problema a ser resolvido.

Helena aproximou-se lentamente de Henrique.

- Você não precisa gostar de pessoas com cara de pena.

O menino levantou os olhos.

- Não?

- Não, mas precisa conversar com alguém quando estiver triste.

Henrique refletiu por alguns segundos.

- Tobias escuta.

Helena sorriu suavemente.

- Aposto que ele é muito sábio.

Dário observava tudo em silêncio agora.

E algo dentro dele começava a ficar perigosamente atento à presença daquela mulher.

Porque Helena não parecia tentar impressionar ninguém.

Ela simplesmente entrava nos espaços emocionais das pessoas sem forçar, sem fazer barulho e isso tinha impacto, muito impacto.

---

Mais tarde, Helena ajudava Henrique a montar um quebra-cabeça enorme na sala de brinquedos quando ouviu vozes alteradas vindas do escritório principal.

Ela ergueu discretamente o olhar, a porta estava parcialmente aberta.

Henrique continuou concentrado nas peças.

- Esse aqui vai no canto.

Mas Helena já havia reconhecido o tom da discussão.

Dário e outro homem.

A voz desconhecida parecia irritada.

- Você não pode continuar adiando isso!

Helena desviou os olhos imediatamente, não era da sua conta, mas então ouviu Dário responder num tom perigosamente controlado.

- Minha esposa morreu há menos de um mês. Não vou discutir fusões agora.

O silêncio seguinte foi pesado até mesmo dali.

Henrique continuava distraído.

- Achei!

Helena forçou a atenção de volta ao menino.

- Boa.

Mas a discussão continuou.

- O conselho está pressionando.

- Então diga ao conselho para esperar.

- Você está emocional demais para tomar decisões importantes.

A expressão de Helena endureceu involuntariamente.

Que tipo de idiota dizia aquilo para um homem recém-viúvo?

Ela ouviu o som seco de algo sendo colocado violentamente sobre a mesa.

Depois a voz de Dário saiu fria o suficiente para congelar o ambiente inteiro.

- Saia da minha casa.

Silêncio.

Passos fortes atravessaram o corredor logo depois.

Segundos mais tarde, um homem alto de cabelos grisalhos passou pela sala sem sequer notar Helena e Henrique.

A porta principal bateu com força, o ambiente ficou silencioso outra vez.

Henrique continuou encaixando peças, mas então perguntou baixinho.

- O papá está bravo outra vez?

Helena olhou para o corredor.

- Acho que ele está cansado.

O menino ficou quieto por um instante.

- Antes da mamã morrer, ele ria mais.

Aquilo atingiu Helena de forma inesperada, ela desviou o olhar discretamente, porque às vezes esquecia que crianças observavam tudo, até aquilo que os adultos tentavam esconder.

Henrique encaixou outra peça.

- Você acha que ele sente saudades dela?

Helena respirou fundo lentamente.

- Acho que sim.

- Então por que ele age como robô agora?

Ela quase sorriu da sinceridade brutal.

Quase.

- Talvez algumas pessoas fiquem frias quando estão muito machucadas.

Henrique pareceu pensar seriamente naquilo, depois voltou a olhar para o quebra-cabeça.

- Igual gelo?

- Mais ou menos.

- Então você tem que colocar ele no sol.

Helena piscou.

- O quê?

Henrique deu de ombros.

- Gelo derrete no calor.

Ela ficou olhando para ele por alguns segundos.

Meu Deus, crianças realmente enxergavam o mundo de maneira assustadoramente simples às vezes.

Antes que pudesse responder, passos aproximaram-se da sala.

Dário apareceu na porta.

A tensão ainda estava estampada no rosto dele, mas suavizou ligeiramente ao ver Henrique no chão cercado pelas peças coloridas e então os olhos dele encontraram Helena.

Ela percebeu imediatamente, que ele ouvira parte da conversa, talvez tudo.

O clima mudou.

Dário aproximou-se lentamente.

- Henrique, vai tomar banho.

O menino fez careta.

- Mas eu quero terminar.

- Depois termina.

Henrique bufou dramaticamente antes de levantar-se devagar com Tobias debaixo do braço.

Ao passar pelo pai, parou subitamente.

- Papá?

- Hum?

- Você devia ficar mais no sol.

Dário franziu levemente a testa.

- O quê?

Mas Henrique já saía correndo corredor afora antes de explicar.

O silêncio instalou-se entre os dois adultos.

Helena continuou sentada no chão entre as peças do quebra-cabeça e Dário afrouxou lentamente a gravata.

- O que disse a ele?

- Nada demais.

Ele aproximou-se mais alguns passos.

- Helena.

Ela suspirou discretamente.

- Ele perguntou por que você parece frio.

Os olhos dele escureceram levemente.

- E você respondeu?

- Que algumas pessoas ficam assim quando estão machucadas.

Dário permaneceu em silêncio, depois soltou uma respiração lenta, cansada.

- Ótimo, agora meu filho acha que sou um cubo de gelo emocional.

Helena finalmente sorriu de verdade, um sorriso pequeno e curto.

Dário sentiu algo estranho acontecer no peito naquele instante, porque aquela foi a primeira vez que viu o sorriso dela sem defesas, sem profissionalismo, sem distância, foi rápido, mas um pouco perigoso.

Ela começou a recolher algumas peças espalhadas pelo tapete.

- Ele sente sua falta, sabia?

Dário apoiou as mãos nos bolsos.

- Eu estou aqui.

Helena ergueu lentamente os olhos para ele.

- Fisicamente, sim.

A frase caiu suavemente, sem acusação, mas acertou em cheio, fazendo Dário desviar o olhar por um instante.

Porque talvez estivesse começando a perceber uma coisa desconfortável, Helena Duarte não apenas enxergava as rachaduras daquela casa, ela enxergava as dele também e isso começava a abalá-lo mais do que deveria.

Então o celular dela vibrou sobre a mesa lateral.

Helena pegou-o rapidamente, mas a expressão dela mudou no instante em que leu a mensagem, toda cor pareceu desaparecer do rosto dela.

Dário percebeu imediatamente.

- O que aconteceu?

Ela levantou-se rápido demais, tensa, nervosa e assustada.

E aquilo foi a primeira vez que Dário viu Helena perder completamente a compostura.

- Eu preciso ir. Agora.

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