LOGINLeolina, uma jovem bastarda criada nos campos de uma propriedade rural, sempre carregou um amor silencioso por Dante, o herdeiro de um poderoso marquês. Na infância, dividiam brincadeiras e momentos simples. No entanto, a distância social e os desígnios da nobreza os separaram. Dante casou-se com Manuela por conveniência e obrigações da corte, enquanto Leolina enfrentou a miséria após a morte do pai: teve seu dote queimado pela madrasta, vendeu seus pertences (inclusive os cabelos) e foi acolhida por Dona Inês em uma casa de chá para sobreviver.
View MoreCastela, Reino da Espanha — Ano de 1507.
O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.
Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.
Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.
Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.
Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escutava as mesmas cortesias ocas e identificava, a metros de distância, as manobras dos pretendentes. Sabia exatamente qual fidalgo fingia rir dos gracejos do duque para obter favores e qual dama mantinha o olhar baixo apenas para projetar uma modéstia estrategicamente calculada.
Tudo era previsível. E, por ser previsível, era exaustivo.
— Meu querido Dante.
A voz de Doña Constanza cortou o som das vihuelas antes mesmo que ele pudesse se esquivar entre as pilastras.
Ela avançava com a imponência rígida que o título exigia, arrastando a cauda pesada de seu vestido de brocado negro. Ao seu lado, trazia duas jovens nobres de rostos pálidos e trajes impecáveis. Ambas mantiveram os ombros encolhidos e os olhos fixos no chão a postura perfeita da submissão treinada.
Dante curvou-se em uma reverência impecável, impecavelmente fria.
— Senhoritas.
— Lembra-se da nossa conversa sobre a necessidade de recompor a casa dos Marquêses? — Constanza não pedia autorização; apenas apresentava fatos. Seu olhar perscrutava o filho com a precisão de um inquisidor.
— Mãe — Dante levou o cálice de prata aos lábios, usando o gesto para ganhar tempo. — Vim cumprir com os deveres da corte. Não para assinar contratos matrimoniais.
O sorriso de Constanza congelou, tornando-se uma linha fina e severa.
— Um marquês não escolhe quando deixa de ser marquês. A linhagem exige estabilidade, Dante. Lógica e dever sobrepõem-se ao gosto pessoal.
— Racionalmente falando, a estabilidade de um feudo depende de sua gestão financeira e da ordem nas terras, não de um banquete de noivado — respondeu ele, usando a própria lógica como um escudo pragmático para se esquivar da dor. — Com sua licença.
Antes que a mãe pudesse retrucar, Dante retirou-se com passos firmes. Sentiu o olhar de censura da matriarca cravado em suas costas, mas apenas respirou fundo. Uma pequena esquiva.
— Pela urgência dos seus passos, imagino que Doña Constanza tentou lhe impor mais uma futura marquesa.
Álvaro de Medina aproximou-se, apoiando-se contra a balaustrada e ostentando um sorriso abertamente divertido.
— Que expressão é essa? Parece que acabou de escapar de um julgamento do Santo Ofício.
Dante soltou uma respiração pesada, quase um riso sem humor.
— Ela insiste na ideia de que preciso de uma esposa.
— E ela está errada? — Álvaro bebeu um gole longo. — Dante, já se passaram sete anos. A Casa precisa de um rumo e a pequena Beatriz precisa de presença materna.
Sete anos.
A menção ao tempo fez a racionalidade de Dante oscilar. Ele podia somar dias, calcular datas e organizar seus domínios com maestria, mas não conseguia formular uma explicação matemática para o vazio do peito. Lembrou-se da pele fria de Manuela naquela noite fatídica, do silêncio ensurdecedor que tomara conta do castelo após os ritos fúnebres e da pequena Beatriz, chorando no berço com os mesmos olhos castanhos da mãe.
Dante aprendera a administrar a dor tratando-a como um fato consumado. Mas nunca aprendera a deixar de ser viúvo.
— Não é uma questão simples de substituição — murmurou ele, afastando-se para a sacada aberta.
O ar frio das montanhas de Castela atingiu seu rosto, purificando seus pulmões do ar carregado do salão. A noite era um manto escuro que cobria os vales.
— Sabe do que sinto falta, Álvaro? — Dante encarou o horizonte.
— Do quê? De um bom vinho que não venha acompanhado de cobranças da nobreza?
— Da infância. De quando as coisas tinham respostas simples.
Álvaro soltou uma gargalhada genuína, quebrando a sobriedade do momento.
— Deus me livre! Eu não sinto a menor falta. Leolina vivia me dando socos e me empurrando nos espinhos.
Dante arqueou uma sobrancelha, o canto dos lábios cedendo a um sorriso involuntário.
— Você roubava as maçãs dela. Era uma reação perfeitamente proporcional.
— Ela era um demônio de cabelos ruivos! — Álvaro esfregou o braço como se ainda sentisse a dor de vinte anos atrás.
Pela primeira vez naquela noite, o olhar de Dante perdeu a rigidez calculada. Lembrou-se da menina descalça correndo pelos pomares de Valdeolmos, com o rosto manchado de terra, os olhos brilhando em desafio e a língua afiada pronta para chamá-lo de covarde sempre que ele usava a prudência como desculpa para não saltar os muros de pedra.
Ela não aceitava suas desculpas lógicas. Ela simplesmente o puxava pelo braço.
— Ainda pensa nela? — perguntou Álvaro, percebendo a mudança na postura do amigo.
Dante demorou a responder. A brisa da noite agitou suas capas escuras.
— Sim — confessou baixo. — Onde quer que esteja, tenho certeza de que continua desafiando qualquer um que tente lhe dizer o que fazer.
O vento levou a frase para a imensidão da noite castelhana. E longe dali, alheia aos dilemas do marquês, a menina dos pomares havia se tornado uma mulher cujas palavras cortavam mais fundo do que qualquer espada e cujo destino estava prestes a colidir novamente com a lógica imperfeita de Dante.
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des
Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:— O senhor vai atrás da fada ruiva.Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.Então, seus olhos a localizaram.Leolina sustentava uma cesta de vime no
A carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.— Ainda falta muito?A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de






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