Share

2

Author: AnglicaLuiza
last update publish date: 2026-02-26 07:51:19

A sala de reuniões era ampla, de madeira escura, com janelas altas que deixavam entrar a luz fria da manhã. O símbolo da alcatéia, a lua marcada por três garras, estava entalhado na parede principal, observando-os como um juiz silencioso.

Cinco homens ocupavam a mesa.

Cinco irmãos.

Todos fortes. Todos lobos.

O sobrenome deles carregava peso na cidade e fora dela: Blackmoor. Um nome antigo, associado a liderança, fortuna e sangue.

Na cabeceira estava Adrian Blackmoor, o primogênito. Ombros largos, cabelos escuros já tocados por fios grisalhos. O olhar dele era sempre calculado, como se estivesse vários passos à frente de qualquer conversa.

À sua direita, Rowan Blackmoor, o segundo mais velho. Sorriso fácil demais para quem era conhecido por ser o mais violento quando provocado. Era o tipo que ria antes de lutar.

No centro, sentado com o corpo ligeiramente inclinado para frente, estava Ethan Blackmoor. O filho do meio. O homem da noite anterior. Mais contido que Rowan, menos rígido que Adrian. Os olhos dele, porém, eram atentos demais. Observadores. Era quem costumava enxergar o que os outros ignoravam.

Ao lado dele vinha Caleb Blackmoor, sério, silencioso, com as mãos sempre cruzadas. O estrategista. Preferia ouvir antes de falar, e quando falava, ninguém costumava interromper.

Por fim, o mais novo: Lucas Blackmoor. Jovem, mas já grande demais para a idade, com uma inquietação constante no corpo. Ainda aprendendo o peso de pertencer àquela linhagem.

E acima de todos eles, mesmo ausente, pairava a sombra do pai: Magnus Blackmoor.

O primeiro.

O primeiro a nascer com a marca.

O primeiro a carregar aquele símbolo que não era apenas carne, era poder.

Um legado que, até então, apenas os homens da alcatéia herdavam.

Ethan foi direto. Como sempre.

— Ontem vi uma garota qualquer com a nossa marca — disse, sem rodeios. — A marca do papai. A marca da nossa alcatéia.

O silêncio durou menos de um segundo.

— Uma garota com a nossa marca? — Rowan riu, recostando-se na cadeira. — Você bebeu ontem à noite, irmão?

Lucas franziu a testa, confuso.

— Isso não faz sentido. Só nós herdamos aquilo.

— Não é só genética — completou Caleb, baixo. — É um legado. Algo que desperta força. Nenhuma mulher jamais…

— Eu sei exatamente o que vi — Ethan cortou, a voz firme. — Não era parecida. Não era algo próximo. Era idêntica. No mesmo lugar. O mesmo desenho.

Adrian descruzou os braços devagar.

— Continue.

— Uma garota comum — Ethan prosseguiu. — Boba. Desajeitada. Claramente sem treinamento algum. Mas a marca estava lá.

— E onde está essa raridade? — Rowan debochou. — Escondida debaixo de uma pedra?

Ethan sustentou o olhar dele.

— Sendo tratada como criada na casa dos Halley. Não tem mais de dezessete anos. Disse que a mãe se chamava Janet Marshall.

O nome caiu na mesa como algo morto.

Caleb foi o primeiro a reagir.

— Marshall? Nunca ouvimos falar.

— Eu também não — disse Lucas. — Nenhuma fêmea com esse sobrenome passou pela alcatéia.

Adrian estreitou os olhos.

— Os Halley são nossos aliados — disse lentamente. — Amigos de longa data. Como esconderiam por dezessete anos alguém com a nossa marca?

Rowan deixou o sorriso morrer.

— Ainda mais uma mulher com a nossa marca.

A sala ficou pesada.

Porque, se aquilo fosse verdade, só havia duas possibilidades:

ou alguém traíra a alcatéia…

ou o legado de Magnus Blackmoor não era tão simples quanto eles acreditavam.

E nenhuma das duas opções era segura.

Ethan apoiou as mãos na mesa.

— Seja o que for — disse, firme —, aquela garota é da nossa família.

Do lado de fora da sala de reuniões, o ar parecia mais pesado.

Ele caminhava de um lado para o outro, passos longos, impacientes, como um lobo jovem preso em território alheio. As mãos fechavam e abriam com frequência, o maxilar tenso, os pensamentos acelerados demais para alguém que deveria estar esperando em silêncio.

Theo Blackmoor tinha dezessete anos.

E não se parecia com ninguém.

Não com Ethan, o pai de traços duros e postura contida.

Nem com a mãe, de beleza clássica e sangue antigo.

Theo era uma ruptura.

O primeiro Blackmoor a nascer com cabelos dourados, claros demais para aquela linhagem de sombras. Por isso os pintava de preto havia anos, cansado dos olhares, das comparações, dos sussurros. Ainda assim, algo nele sempre denunciava a diferença; o jeito inquieto, o temperamento explosivo, a sensação constante de não caber.

Ao menos a marca estava ali.

No ombro, nítida. Incontestável.

A lua marcada pelas três garras. A prova definitiva. Algo que valia mais do que qualquer teste de DNA, mais do que palavras, mais do que dúvidas.

Ele era um Blackmoor.

Gostassem ou não.

E estava furioso por não estar naquela reunião.

Da nova geração, era o único menino. Os tios, como a mãe dele costumava dizer, tinham sangues fracos. Todos tiveram meninas. Nenhum herdeiro homem. O novo bebê de Adrian até era um garoto, mas pequeno demais para contar.

Não era justo.

Ele não deveria estar ali fora. Não com as mulheres. Não esperando.

— Theo… — a voz da mãe soou calma demais para alguém que já conhecia o filho.

Ela se aproximou devagar, pousando a mão em seu braço, num gesto conciliador.

— Eles estão resolvendo algo sério. Seu pai…

— Eu devia estar lá — ele cortou, ríspido. — Isso diz respeito à alcatéia. A mim.

Ela suspirou.

— Você ainda é menor.

— Eu tenho a marca — ele rebateu, girando o corpo. — Isso sempre foi o que importou.

Os olhos dele faiscavam. Impulsivo. Irritadiço. Mimado, como Rowan gostava de provocá-lo sempre que podia.

— Você precisa aprender a esperar — disse ela, firme, mas suave.

Theo riu sem humor, afastando-se um passo.

— Esperar sempre foi coisa de quem não manda.

Antes que ela respondesse, a porta da sala se abriu.

Os cinco homens saíram juntos.

Cara fechada. Ombros rígidos. Nenhuma palavra.

Quando alguém tentou perguntar, ninguém respondeu. Nenhum deles.

Eles apenas atravessaram o corredor como uma muralha silenciosa, levando consigo um peso que ninguém ali fora parecia autorizado a carregar.

Theo sentiu o estômago revirar.

Se os Blackmoor estavam calados…

algo grande tinha acabado de ser decidido.

E, novamente, ele não tinha sido incluído.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A Bastarda do Alfa: Sob a Lua das Três Garras   75

    Andy a deixou em casa depois do jantar, sem cerimônia. A moto parou em frente à casa, ele nem desligou o motor.— Te aguardo amanhã cedo. Vá com seu próprio carro.Lucy deu de ombros, já descendo da garupa e lhe entregando o capacete.— Boa noite pra você também — respondeu com ironia, já que o treinador não havia feito aquela saudação educada.Andy não respondeu. Apenas deu partida e sumiu na esquina.Lucy entrou em casa. O silêncio era o de sempre, mas ela sentia que Theo e Ethan estavam ali — em seus respectivos quartos, provavelmente. Pelo menos era o que esperava.Mas quando chegou perto da pr

  • A Bastarda do Alfa: Sob a Lua das Três Garras   74

    — Seu tempo acabou.A voz do funcionário cortou o silêncio como uma lâmina. Theo ergueu os olhos e viu o homem parado na porta, a expressão neutra, o corpo já meio virado para sair.Ele olhou para Helena. Ela olhou para ele.Nenhum dos dois disse nada.Theo se levantou. As pernas estavam pesadas, o corpo inteiro parecia ter sido preenchido com chumbo. Ele caminhou até a porta sem olhar para trás, sem se despedir, sem conseguir formar uma palavra sequer.— Theo.A voz dela o parou.Ele não se virou.

  • A Bastarda do Alfa: Sob a Lua das Três Garras   73

    Helena estava apoiada numa mesa simples de madeira, ao lado de duas cadeiras igualmente simples. A sala era pequena, de paredes cinzentas, iluminada por uma luz fria que vinha de algum lugar no teto.Ela usava roupas sóbrias: calça escura, blusa de manga comprida, nada dos vestidos elegantes que Theo lembrava. O cabelo, antes sempre impecável, estava preso num coque baixo, com alguns fios soltos.Mas ainda assim, havia algo nela. Uma postura. Uma dignidade que a prisão não conseguira apagar.Theo esperava encontrar uma versão destruída da mãe. Alguém que sofria, que comia comidas ruins, que era torturada de alguma forma. Sua imaginação tinha criado cenas terríveis ao longo das últimas semanas.Nada daquilo parecia r

  • A Bastarda do Alfa: Sob a Lua das Três Garras   72

    A paisagem urbana foi ficando para trás, engolida pelo retrovisor.Theo encostou a testa no vidro frio do carro, os olhos fixos nas árvores que começavam a engrossar às margens da estrada. A viagem durava mais do que ele esperava. O estômago protestava baixinho, um enjoo surdo que ele reconhecia dos tempos de infância; nunca ficou bem em viagens longas de carro.Ethan não tinha dito quase nada desde que bateu na porta do quarto dele, horas atrás. Apenas: "Vista uma roupa confortável. Vamos sair."Sem explicações. Sem negociação. Apenas aquele tom curto que Theo aprendera a reconhecer como definitivo.Agora estavam ali, no meio do nada, a estrada de terra substituindo o asfalto, a floresta fechando ao redor como um a

  • A Bastarda do Alfa: Sob a Lua das Três Garras   71

    O trio improvável passou a noite toda junto.Lucy não sabia dizer exatamente quando o tempo tinha escapado pelos dedos. Em algum momento entre a carta, as fotos e as risadas, a madrugada simplesmente... desapareceu.Dustin resgatou um jogo de tabuleiro empoeirado do fundo do armário, com peças faltando e instruções rasgadas. Inventaram regras novas, trapacearam descaradamente, discutiram estratégias impossíveis. Liam se revelou um estrategista terrível, Dustin um trapaceiro contumaz, e Lucy uma competidora feroz que não perdoava nenhum movimento errado.A casa dos Miller permaneceu silenciosa. Os pais de Dustin não apareceram — nem quando eles gritaram comemorando uma vitória, nem quando Liam quase derrubou a mesa de centro, nem quando Lucy ameaçou virar o tabuleiro de tanta

  • A Bastarda do Alfa: Sob a Lua das Três Garras   70

    Lucy e Liam saíram da festa rindo.Ela não sabia exatamente do que estavam rindo — talvez de nada, talvez de tudo, talvez só do absurdo da noite. O ar frio da madrugada atingiu o rosto dela como um tapa bem-vindo.No estacionamento, Liam parou na frente da moto.— Ah, não — ele murmurou.— O quê?— Os capacetes. Algum engraçadinho levou.Lucy olhou para ele, depois para a moto, depois para a rua vazia.— E agora?Liam deu de ombros, um sorriso preguiçoso no rosto.&n

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status