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A CRIADA
A CRIADA
Autor: Sandra Rummer

JADE

last update Data de publicação: 2026-08-17 20:53:11

“Limpa tua casa, pois não sabes quem baterá à tua porta; lava teu rosto, pois não sabes quem o beijará.”

Provérbio árabe.

Jade Al-Sabbah

Chego ao meu destino com as mãos escondidas nos bolsos do caftan. O tecido é bonito demais para alguém como eu, uma criada que tenta parecer menos assustada do que realmente está. Endireito os ombros, ergo o queixo e encaro a governanta parada no topo da escadaria de pedra.

Ela me observa em silêncio, dos pés à cabeça, como se estivesse avaliando uma mercadoria recém-entregue. Não há acolhimento em seu rosto, muito menos curiosidade. Apenas uma frieza cuidadosa, quase profissional, como se já soubesse exatamente quem eu sou e por que estou ali.

Por um instante, desejo estar em qualquer outro lugar.

Desvio os olhos dela e observo o jardim do palácio. A visão deveria me encantar, mas acontece justamente o contrário. A imensidão do lugar oprime o meu peito. As palmeiras perfeitamente alinhadas, as fontes de mármore, as flores exóticas e os caminhos iluminados pelo sol do fim da tarde parecem pertencer a outro mundo. Um mundo onde pessoas como eu não entram pela porta principal, muito menos sob a condição humilhante de uma dívida que não contraíram.

Meu estômago se revira.

É a primeira vez que trabalho para a realeza árabe. Na verdade, é a primeira vez que trabalho para alguém. Até poucos dias atrás, minha vida era confortável. Eu tinha uma casa, uma família respeitada e a esperança — ainda que pequena — de escolher o homem com quem me casaria. Agora, tudo isso desaparece de uma hora para outra, destruído pelo erro do homem que deveria proteger a nossa família.

Ali Al-Kudsi, o sheik de Godan, é um dos homens mais poderosos e influentes do Barein. Seu nome é respeitado por reis, empresários e autoridades. A fortuna dele se estende por hotéis, empresas e propriedades espalhadas por vários países. Depois que seu filho se casou com Hanna Al-Sabbah, a influência da família aumentou ainda mais. Mas Hanna morreu em um acidente trágico, quando a aeronave em que viajava para visitar parentes no Catar caiu, deixando para trás um marido marcado pela culpa e uma família ainda mais poderosa.

Agora, eu estou diante do palácio desse homem.

E tudo o que existe ao meu redor foi pago, em parte, com o dinheiro que meu pai roubou.

Tenho consciência de que muitas moças se sentiriam honradas por receber uma oportunidade como essa. Trabalhar para um homem tão importante poderia representar segurança, prestígio e até uma chance de mudar de vida. Algumas talvez olhassem para o palácio e agradecessem a Allah por terem sido escolhidas.

Mas eu não consigo agradecer.

Não na minha condição.

Meu baba desviou dinheiro das empresas do sheik. Durante um ano, roubou aquele homem enquanto fingia administrar os negócios com honestidade. E, quando tudo foi descoberto, não perdeu apenas o cargo. Perdeu a honra, o respeito e o direito de decidir o destino da própria família.

A realeza árabe valoriza a honra e a integridade acima de qualquer coisa. O dinheiro pode ser recuperado, mas uma traição jamais é esquecida. Meu pai tentou negociar. Prometeu que encontraria uma maneira de devolver cada dinar. Disse que venderia propriedades, pediria empréstimos e trabalharia até o último dia de sua vida.

Não houve misericórdia.

O sheik decidiu que a punição precisava ser pública e humilhante. Meu baba foi rebaixado de controller a um homem responsável por fazer todos os serviços necessários dentro do palácio. De administrador, passou a carregar caixas, supervisionar empregados, limpar estábulos e obedecer a ordens que antes jamais teria aceitado.

Mas isso não foi suficiente para o sheik.

Ele exigiu que toda a nossa família trabalhasse para pagar a dívida. Não por alguns meses. Não até que uma quantia específica fosse devolvida. Por tempo indeterminado. Até que ele se sentisse vingado.

Agora, minha família inteira está presa a esse palácio.

E eu também.

Respiro fundo, mas o ar parece não chegar aos meus pulmões. Penso na minha juventude escorrendo entre aquelas paredes, nos anos que talvez nunca consiga recuperar. Penso nas festas que não frequentarei, nas amizades que deixarei para trás e nos sonhos que serão enterrados antes mesmo de terem a chance de nascer.

Não quero perder a minha juventude aqui.

E, pior do que isso, quem vai querer se casar comigo depois de tudo o que meu baba fez? O nome Al-Sabbah está manchado. Nenhuma família respeitável desejará se unir à nossa. Nenhum homem aceitará carregar a vergonha de uma mulher cujo pai roubou do sheik de Godan.

Talvez eu esteja condenada a ficar solteira para sempre.

A ideia me assusta, mas, ao mesmo tempo, não sei se consigo considerá-la pior do que me casar com um homem que não amo.

Subo o primeiro degrau. Depois o segundo.

A governanta não se move. Continua me esperando no alto da escada, como se fosse a guardiã do meu novo destino. Cada passo parece me afastar da vida que conheço. Quando chego ao topo, paro diante dela e tento esconder o tremor das minhas mãos.

Não sei o que me espera dentro daquele palácio.

Só sei que, a partir daquele momento, minha liberdade deixa de me pertencer.

E tudo porque meu pai decidiu apostar o nosso futuro em uma última tentativa desesperada de recuperar o dinheiro que havia perdido.

 

 

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Último capítulo

  • A CRIADA    —Aquilo foi puro orgulho. Uma forma de camuflar que eu te amava como a própria vida.

    Epílogo“Cada vez mais desesperadamente o homem procura dilatar o tempo que já não o tem.” Khalil GibranJade—Allah! Nádia como seu bebê é lindo. Como ele se parece com você.—O sheik acha diferente. Ele disse “Esse meninão é a cara de Saad quando era pequeno.” Eu rio.—E você? Quando pretende engravidar. Rashid se aproxima de nós dizendo:—Não temos pressa. Estamos apreciando um ao outro. Ainda quero levar Jade para conhecer muitos lugares. Precisamos viajar mais.—Mais? —Nádia diz rindo.—Sim. Quem sabe uma volta ao mundo? —Rashid diz me olhando com um sorriso no rosto.—Seria ótimo —digo extasiada com a ideia.Saad entra no quarto e se aproxima da esposa. Observa o filho mamando em seu peito emocionado.—Vamos deixá-los agora... —sussurro no ouvido de Rashid.Minutos depois, bem longe do hospital, no aconchego do nosso quarto eu ergo os braços para Rashid retirar meu vestido. Ao se livrar da peça, seus olhos gulosos passam pelo meu corpo. Esse homem é insaciável... Ele me pux

  • A CRIADA   esculpe-me mas estou seguindo para a minha festa de noivado. 

    —Esta festa será para oficializar minha união com Jade. Ficaremos noivos perante todos.Saad sorri. —Uma ótima ideia. O que acha baba?—Eu aprovo. Rashid abraça o seu baba. O sheik estende a mão para mim e eu emocionada e avanço até o sheik e o abraço forte.Ergo meu rosto banhado em lágrimas.—Obrigada por tudo. Obrigada por me aceitar na família.O sheik sorri e beija minha testa e então se afasta de mim e une minhas mãos com as de Rashid. —Em nome de Allah! Eu abençoo a união de vocês. Espero que sejam muito felizes e que me concedam muitos netos. — Likun! —Rashid diz, emocionado.— Likun! —digo.—O que é tudo isso? —Nádia diz entrando no quarto.—Rashid e Jade ficarão noivos hoje à noite.—Vocês ficarão noivos? —Soraia ao lado de Nádia avança questionando, incrédula.Rashid sorri.—Sim, e antes que digam que estou fora de mim, saibam que estou bem, que minha memória voltou. E eu amo Jade e faz tempo. Hoje irei oficializar meu noivado com ela e pretendo me casar o mais rápido

  • A CRIADA   Eu amo Jade, baba.

    —Isso pode ser tudo uma jogada de seu irmão para você se lembrar de tudo. Segundo seu neurologista, as emoções exacerbadas te trariam de volta.—Não foi meu irmão que me disse isso! Foi meu baba! Por acaso meu baba sabe de nós? —Não — Minha voz sai sussurrada. Rashid solta o ar cheio de angústia. Eu caminho até ele e o abraço forte, então ergo meu rosto enquanto seguro o seu com minhas mãos. —Olha para mim. O importante é que você se lembrou de nós e agora sabe que eu te amo. Podemos chamar todos aqui no quarto e finalmente contar a nossa história e eu não serei prometida a ninguém. Ele amansa.—Você me ama mesmo? —questiona ainda incrédulo.Eu o abraço forte- adoro seu cheiro- então o encaro:—Eu te amo. Eu te amo muito. Por que acha que contei a nossa história para Saad? Para cuidar de você, estar ao seu lado e tentar estimular a sua memória a se lembrar de nós.Quando Rashid assimila as minhas palavras e lê a verdade nos meus olhos, solta um gemido e toma meus lábios com paixã

  • A CRIADA   Essa festa é só minha apresentação na sociedade. 

    —Rashid, melhor você ir. Isso não vai acabar bem.—Responda o que eu te perguntei. Como fará? Tem algum truque na manga? Já pensou nisso?Provoque as lembranças para ele se lembrar!—Eu...dou um jeito. As mulheres sabem simular essas coisas. Ele olha para mim, ofegante:—Allah!—Rashid. Por favor, vá. Quando se lembrar de algo, me procure novamente, está certo?Ele ri amargo.—É essa a sua desculpa agora para fugir de mim?Eu respiro fundo. —Entenda de uma vez que eu não estou fugindo de você. Simplesmente eu não posso te dizer nada. Não posso por ideias em sua cabeça! Que força tem minhas palavras ante a sua amnésia?Rashid me estuda.—É? E se eu te disser que eu me lembrei de tudo?Meus lábios tremem, meus olhos se estreitam.—Você se lembrou?Ele confirma levemente com a cabeça. Seus olhos transmitem seu sofrimento.—Rashid... —gemo o nome dele em pura satisfação e o abraço forte. Rashid estremece, como se esperasse minha reação. Ele me afasta de um jeito firme, decidido e me en

  • A CRIADA   Allah! Como ele sabe que não sou virgem?

    Eu desvio meus olhos dela e sem me importar com que ela irá pensar da minha atitude, vou atrás de Rashid tentar acalmá-lo um pouco.Alcanço Rashid já do lado de fora do palácio.—Rashid, espere, por favor.Ele para e então se volta para mim. Seus olhos me encaram altivos:—Por que está aqui? Meu irmão te mandou vir atrás de mim?—Não. Eu vim por vontade própria.Correm os minutos com ele olhando para mim.—Gostei muito de ter dispensado Selima. Ele funga.—Ela se referiu a você como odalisca, isso me tirou do sério. Essa garota realmente te odeia. Eu sorrio para ele, meus olhos o encaram com admiração.Esse homem pagou a dívida de meu baba, melhorou minha imagem com a finalidade de se casar comigo. E mesmo não se lembrando das coisas ainda me defende.Allah! Eu o amo tanto.—Shucran. Ela já aprontou muito comigo no passado.— E eu pensando que era ciúme de mim...Bem, já me agradeceu voltarei para a minha caminhada. —Posso te acompanhar?Ele endurece a servis.—Não!—Rashid. Por fav

  • A CRIADA   Nádia me olha como se me dissesse: “não disse que esse homem é não ama ninguém, que ele é complicado?”.

    Allah! Suas palavras me levam ao limite da minha raiva. —Não. Pode deixar. Eu me viro sozinho. Você está dispensada! Não preciso mais de ajuda. Sei de cor e salteado os remédios que devo tomar e seus horários. E hoje mesmo tomei a resolução de sair do quarto. Como você mesma pode ver, já me sinto bem melhor. Irei andar por aí e você, nem ninguém irá me impedir.Seus lábios tremem, mas seu narizinho se empina. Flashes dela agindo dessa mesma maneira em uma biblioteca atravessam meu cérebro e minha respiração fica agitada. —Tudo bem —ela diz e se afasta. Destranca a porta e sai do quarto.Minha cabeça dói com a lembrança. Caminho até a cama e me sento nela.—Você está bem? —Selima diz entrando no quarto. Ergo meu rosto e encaro a empregada. Tinha até me esquecido dela.—Selima, mudei de ideia quanto a conversamos. Eu quero que saia agora. Quero ficar sozinho. Selima fica vermelha.—Allah! O que essa odalisca falou de mim?Odalisca? É isso mesmo que ouvi?Eu me enfureço com sua ati

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