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Capítulo 2

Author: Caçador de Flores
Desde o início do nosso casamento, Ariana sempre usou a desculpa de que precisava de tranquilidade para seus estudos budistas, proibindo-me terminantemente de passar a noite em seu quarto. Mesmo na única exceção mensal, o dia dezesseis, logo após cumprirmos nossas obrigações conjugais, eu era obrigado a trocar os lençóis e me retirar para a solidão do meu próprio aposento.

Contudo, naquele instante, a dura realidade se abateu sobre mim, pois percebi que todas aquelas regras rígidas de Ariana eram, na verdade, barreiras erguidas exclusivamente contra mim.

A dor foi tamanha que me roubou a voz. Um formigamento frio começou nas extremidades e se alastrou até que meu corpo inteiro perdesse a sensibilidade, restando apenas a agonia de sentir meu coração ser perfurado por milhares de agulhas invisíveis.

Em vez de oferecer qualquer explicação ou demonstrar remorso, o rosto de Ariana endureceu, assumindo uma expressão gélida ao perceber minha presença.

— Quem te deu permissão para entrar sem bater? — Disparou ela, com a voz carregada de irritação e desprezo. — Esqueceu-se das regras de etiqueta básica? Saia daqui agora!

Apontei para o meu próprio peito e, em seguida, lancei um olhar incrédulo para Heitor. Uma risada amarga subiu pela minha garganta diante do absurdo da situação. Minha esposa permitia que um homem estranho pernoitasse ali, deixando-o secar seu cabelo enquanto ela vestia apenas uma toalha de banho, mas eu, seu marido legítimo, precisava bater à porta para entrar no próprio quarto?

"Ariana, você não apenas me despreza, como também despreza o nosso casamento", pensei, sentindo a decepção apagar qualquer resquício de esperança.

— Vamos nos divorciar, Ariana. — Declarei, com uma voz calma.

Durante cinco anos, acatei cada exigência fria e irracional dela, moldando-me para tratá-la sempre com doçura e submissão. Aquela, porém, foi a primeira vez que minha voz soou desprovida de qualquer calor.

— Divórcio? Só por causa disso? — Ariana estancou, a surpresa transfigurando suas feições. Num reflexo quase automático, ela balançou a cabeça em negação. — Não, não concordo com o divórcio.

Sua recusa categórica me pegou desprevenido. Eu imaginava que, com o relacionamento dela e de Heitor tão evidente, ela apenas aguardava a minha saída de cena. Minha mente tola, condicionada por anos de devoção, tentou buscar uma justificativa para aquela relutância, mas as palavras seguintes de Ariana me empurraram direto para o abismo.

— Estou no meu período de preceito e voto espiritual. A separação seria uma quebra desse voto. — Declarou ela, com o tom autoritário de quem dita uma lei. — Se você quer mesmo o divórcio, terá que esperar o fim do meu período de resguardo.

O ar gelou ao meu redor. Soltei um riso escarninho, sentindo o estômago revirar de nojo e dor. Era muita presunção minha achar que havia algum afeto ali. Aos olhos dela, eu não era um marido, nem sequer um ser humano digno de consideração. Eu, um homem de carne e osso, estaria sempre em segundo plano, atrás de seus dogmas religiosos e hipocrisias. Cinco anos de união e eu não tinha sequer o direito de pedir a separação.

— Ariana, me perdoe. Não quero ser o motivo da sua separação do Sr. Gustavo, nem destruir seu lar. — Interveio Heitor, com um suspiro pesaroso, pegando o filho no colo com ares de mártir. — Daniel, vista-se. Este não é o nosso lugar.

Fechei os olhos, recusando-me a assistir àquela performance teatral de vitimismo. Ele tinha razão num ponto. Afinal, aquela casa, que sustentei e cuidei com tanto sacrifício por cinco anos, não era dele. Mas com que direito ele agia como se fosse o dono do pedaço?

Para minha total descrença, Ariana bloqueou a passagem dele.

— As coisas do Daniel já estão arrumadas, não faz sentido vocês irem embora agora. Fiquem. Este é um assunto entre mim e Gustavo, não envolve vocês. — Disse ela, antes de se virar para mim com um olhar de puro gelo. — Quem deve sair não é ele, mas sim você. O menino é apenas uma criança; será que você, um homem feito, não pode ter um pingo de generosidade? Precisa mesmo colocar pai e filho na rua?

Cada sílaba dita por ela penetrava em mim como uma lâmina afiada. Generosidade? O que ela esperava? Que eu aplaudisse a intimidade deles? A vontade de gritar essas perguntas morreu na minha garganta ao ver a expressão impiedosa no rosto dela. Não havia mais sentido em lutar ou discutir.

Era o fim. Melhor encerrar aquela farsa do que continuar vivendo aquela humilhação.

Sem dizer uma palavra, dei as costas e caminhei em direção ao meu quarto. Comecei a recolher minhas roupas e pertences para deixar a casa. Era irônico constatar que, após cinco anos de casamento dedicados inteiramente a Ariana e àquele lar, eu nunca havia comprado nada para mim mesmo. Tudo o que eu possuía cabia em uma pequena mala de mão, pronta em menos de uma hora.

Ao ver o quarto vazio de minha presença, escrevi uma breve carta de despedida, notificando-a apenas para me encontrar no cartório na segunda-feira seguinte.

Quando abri a porta, contudo, deparei-me com Ariana bloqueando a saída. Ao notar a mala em minha mão, suas sobrancelhas se uniram numa expressão carrancuda.

— Aonde você pensa que vai? — Questionou ela.

— Estou abrindo espaço para a sua nova família. Acabou, Ariana. — Respondi, tentando contorná-la.

Ela me empurrou bruscamente de volta para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si.

— Gustavo, o menino está lá embaixo! Você quer mesmo fazer um escândalo na frente de todos? Quando disse para você sair, era para vir para o seu quarto, não para ir embora de casa!

O ambiente estava impecável, e o envelope sobre a mesa chamou imediatamente a atenção dela. Ao ler o conteúdo, Ariana rasgou o papel com fúria e me encarou, os olhos faiscando de indignação.

— Vou repetir apenas uma vez, Gustavo, não autorizo o divórcio. Se você ousar insistir nessa ideia absurda, sabe muito bem quais serão as consequências cármicas!

— Consequências? — Retruquei, o sarcasmo transbordando em minha voz, fruto de um coração partido. — Está preocupada em quebrar seus votos? Mas me diga, Ariana, onde estava sua preciosa doutrina quando você se deitou nos braços de Heitor? Ou quando, vestindo apenas uma toalha, deixou que ele secasse seu cabelo? Quando brincou de ser mãe do filho dele, você se lembrou dos seus preceitos? Lembrou-se do seu Buda?

Antes que eu pudesse terminar, a mão de Ariana estalou contra o meu rosto com violência.

— Cale essa boca! — Gritou ela, lívida. — Como ousa blasfemar contra o Buda?

Fiquei imóvel, atordoado pelo golpe. Em cinco anos, por mais fria que ela fosse, sempre mantivemos um respeito mútuo; jamais havíamos descido ao nível da agressão física. Aquele tapa não feriu apenas minha pele, mas estilhaçou o último vínculo que ainda me prendia a ela.

— Entenda como quiser, Ariana. Digamos apenas que cansei das suas regras. — Falei, com uma calma assustadora. — Vamos nos separar de forma civilizada. Não há necessidade de tornar isso ainda mais degradante.

Minha postura resoluta pareceu trazê-la de volta à realidade, suavizando ligeiramente sua expressão colérica.

— Errei ao bater em você, peço desculpas. — Admitiu ela, embora o tom ainda fosse defensivo. — Mas você sabe que a minha fé é o que tenho de mais sagrado. Por que me provocar justamente nesse ponto?

Diante daquela inversão de culpa, soltei um riso de escárnio.

— Pense o que quiser.

Devolvendo a frase que ela tantas vezes usara contra mim, vi a confusão e a raiva retornarem ao seu olhar.

— Gustavo, por que não podemos ter um pouco mais de confiança um no outro? — Insistiu ela, tentando argumentar. — Quem segue o caminho da iluminação não mente. Se eu digo que não traí nosso casamento, é a verdade. Por que você insiste em ser meu inimigo?

— Apenas estou cortando minhas perdas antes que o prejuízo seja maior. — Respondi, inexpressivo.

Exasperada com minha indiferença, Ariana arrancou a mala da minha mão num gesto impetuoso.

— Vá para onde quiser, mas não espere que eu assine o divórcio. — Decretou ela, saindo do quarto e me deixando sozinho.

Foi só então que o tremor tomou conta do meu corpo. Senti como se uma mão invisível esmagasse meu coração, dificultando minha respiração. Ariana achava que, ao confiscar minha bagagem, me impediria de partir? Quão enganada ela estava.

Eram apenas roupas e objetos, coisas que eu preferia comprar novamente a ter que passar mais um minuto sob aquele teto. Sem olhar para trás, saí da casa apenas com a roupa do corpo.

Assim que pisei na calçada, sentindo o ar da noite, meu telefone tocou. Era uma chamada dos bombeiros.

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