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Capítulo 3

Penulis: Caçador de Flores
— Alô, capitão. — Atendi, sentindo um peso imediato na voz do outro lado da linha.

— Gustavo, tenho péssimas notícias. — A voz do capitão soava rouca, carregada de exaustão. — O incêndio na serra oeste saiu completamente de controle ontem à noite. Já perdemos três esquadrões inteiros na tentativa de contenção, e o fogo continua avançando. Chegou a nossa vez.

— Sem problemas, capitão. Estou pronto. — Respondi de imediato.

Meus nervos se retesaram num instante. A dor emocional que eu sentia até um momento atrás foi suprimida pela adrenalina do dever; nem sequer pensei em pegar meu carro, já calculando o tempo para chamar um táxi e correr para o quartel. Um incêndio fora de controle era o pesadelo de qualquer bombeiro. Se as chamas se alastrassem, não havia como prever quantas famílias inocentes seriam destruídas. Comparado à magnitude daquela catástrofe, meu drama pessoal com Ariana parecia insignificante.

— Não precisa vir correndo agora. — Interrompeu o capitão, percebendo minha ansiedade. — A situação é crítica e... você sabe o que isso significa. Quero que tire o dia para se despedir da sua família. Especialmente da sua esposa. Me lembro que você é casado, certo?

Meus passos estacaram bruscamente. Um misto de sentimentos amargos me invadiu.

Na verdade, todos no batalhão sabiam que eu era casado. No entanto, Ariana nunca apareceu para me visitar, usando sempre o trabalho como escudo para evitar as confraternizações. Aquela ausência constante fez com que ela se tornasse quase uma lenda urbana no batalhão. Meus colegas e até o capitão já haviam praticamente esquecido de sua existência.

— Entendido, capitão. — Murmurei, com a garganta seca.

Ao desligar o telefone, deixei escapar um suspiro profundo que parecia vir do fundo da alma. Em cinco anos de casamento, eu conhecia bem o temperamento de Ariana. Ela, que se dizia dedicada à espiritualidade e aos ensinamentos budistas, paradoxalmente nunca demonstrava compaixão por mim. Mesmo quando sabia das minhas missões perigosas, sua preocupação não passava de frases protocolares, vazias de afeto.

Havia anos que eu me acostumara com sua frieza, aprendendo a não incomodá-la com minha vida. Mas dessa vez era diferente. A morte pairava sobre a serra oeste e, mesmo que fosse para encarar aquele rosto gélido mais uma vez, eu precisava voltar para casa.

O trajeto de cinco minutos pareceu durar segundos. Ao chegar, me deparei com uma cena inesperada. Era Ariana, não mais indiferente no sofá, mas sim saindo de casa, deslumbrante. Ela se vestia com uma elegância etérea, uma beleza que doía de se ver, pois eu jamais a havia visto tão cuidadosamente arrumada para mim.

— Preciso falar com você. — Disse eu, aproximando-me do carro.

Ela nem sequer se virou para me olhar. Continuou ajeitando a bolsa no banco, com o tom de voz monocórdico de sempre:

— Conversamos quando eu voltar. Tive um imprevisto.

— Aonde você vai? — Questionei, franzindo a testa e bloqueando a passagem da porta do motorista.

Com a emergência do incêndio, eu não sabia se teria tempo de esperar seu retorno. Os "imprevistos" de Ariana geralmente se resumiam a problemas na empresa ou visitas ao templo. No entanto, meu sangue gelou ao olhar para o banco do passageiro e ver que Heitor estava lá, sentado com um sorriso casual.

Enquanto Ariana me ignorava, foi ele quem tomou a iniciativa de explicar, com uma polidez fingida:

— Sr. Gustavo, mil perdões. Tenho uma confraternização da minha empresa ao meio-dia e a Ariana gentilmente se ofereceu para me acompanhar.

Ele então se virou para ela, fazendo um jogo de cena.

— Ariana, talvez seja melhor eu ir sozinho, não quero atrapalhar.

— Não precisa, o que ele tem a dizer não é urgente. O seu compromisso é mais importante. — Retrucou Ariana sem hesitar, ligando o motor.

Antes que eu pudesse processar a humilhação, ela acelerou, deixando-me para trás na calçada. Fiquei paralisado, sentindo como se uma pedra gigante tivesse sido enfiada em minha garganta. A dor era física, cortante. Durante nossos cinco anos juntos, perdi a conta de quantas vezes ela recusou meus convites, mas para a festa da empresa de Heitor, ela não apenas aceitou, como se vestiu de gala e saiu de manhã para um almoço.

"Ariana", pensei, sentindo o frio penetrar meus ossos, "você sempre disse que, quem segue o caminho da iluminação não mente e não trai. Mas, vendo vocês dois, Heitor parece muito mais seu marido do que eu jamais fui."

Será que ela ia a esses eventos por causa da criança? A ideia me fez rir de escárnio, um riso triste e solitário. Não havia motivo para eu continuar ali. Aquela casa, que um dia transbordara promessas de calor e acolhimento, agora me repelia. Cada passo que dei para longe dali parecia pisar nos fragmentos estilhaçados das minhas memórias felizes, transformando o passado em pó.

Ao cair da noite, meu celular vibrou com uma mensagem dela.

[Estou livre agora à noite. Vamos jantar fora. O que você queria me dizer?]

O convite seco soava como uma esmola jogada a um pedinte. Hesitei, lutando contra meu orgulho, mas decidi ir. Precisava encará-la uma última vez para discutir o divórcio. Se o destino na serra oeste fosse realmente fatal, eu queria partir sem amarras, sem deixar para trás uma história mal resolvida.

Reservei uma mesa no restaurante do nosso primeiro encontro e pedi que ela fosse sozinha. Já que nossa história começou ali, seria poético que terminasse no mesmo lugar.

Me sentei à mesa familiar, notando que até o sino de vento no canto da janela permanecia o mesmo, intacto. Apenas nós havíamos mudado, ou melhor, apodrecido.

O tempo passou. Nove horas da noite. O restaurante começava a se preparar para fechar a cozinha e Ariana não aparecia. Ela não respondia às mensagens. Era típico de Ariana a falta de coração e de consideração. Eu já estava me levantando, resignado com mais esse descaso, quando a vi entrar.

Mas ela não estava sozinha. Heitor e o pequeno Daniel a acompanhavam.

— O que eles estão fazendo aqui? — Perguntei, incapaz de esconder a irritação, assim que se aproximaram. Eu queria tratar de vida ou morte, de um fim digno, e não ter plateia.

Ariana deu de ombros, como se minha frustração fosse irrelevante.

— Trabalhei até agora e o Heitor e o Daniel também não tinham comido. Qual o problema de virem junto?

Enquanto ela falava, Heitor e Daniel já se acomodavam do outro lado da mesa. Havia um lugar vazio ao meu lado, mas Ariana apenas lançou um olhar rápido para a cadeira e se sentou junto a eles, do lado oposto a mim.

— O Heitor insistiu em pagar o jantar como pedido de desculpas pelo ocorrido mais cedo. Gustavo, aprenda com ele, deixe de ser tão mesquinho. — Disparou ela.

A naturalidade com que ela me agredia verbalmente rasgava meu peito mais uma vez. Era nosso último jantar, e eu não tinha forças para discutir. Minhas palavras de despedida, ensaiadas com tanta dor, ficaram presas na garganta diante da presença dos intrusos.

Se você soubesse, Ariana, que vim aqui para dizer adeus para sempre, se arrependeria de ter trazido estranhos? Provavelmente não. Seu coração era impenetrável.

— Sr. Gustavo, peçam o que quiserem, é por minha conta! A Ariana é uma mulher de ouro e sou eternamente grato por você aceitar o Daniel tão bem. — Disse Heitor, erguendo a taça em minha direção com um sorriso vitorioso.

Permaneci imóvel, deixando-o com o brinde suspenso no ar, num silêncio constrangedor.

— Não ligue para ele, vamos beber nós. O Gustavo tem a mente fechada, nunca terá a sua grandeza de espírito. É um desperdício da sua bondade. — Consolou Ariana, tocando a taça de Heitor com a dela.

Sua voz era suave, quase carinhosa, ao incluir Daniel no brinde:

— Saúde!

Os três sorriam, celebravam, conversavam sobre a decoração da casa e os hobbies do menino. Eu, sentado à frente, sentia-me um estranho que havia pedido permissão para sentar na mesa de uma família feliz.

— Ariana. — Interrompi, subitamente ligando os pontos. — Foi você quem quis me encontrar, ou foi ele quem sugeriu?

Ela franziu o cenho, impaciente.

— Claro que foi o Heitor quem sugeriu para se desculpar. Você acha que eu teria tempo para isso hoje?

A frase dela despedaçou a última ilusão que eu nem sabia que ainda tinha. Que ironia cruel consistir em meu último encontro com minha esposa ter sido uma caridade concedida pelo amante dela. A dor era tanta que ultrapassou o limite do sofrimento e se transformou em uma coragem fria e libertadora.

Respirei fundo e soltei a bomba:

— O batalhão me convocou hoje. Vamos para a linha de frente do incêndio na serra. A situação é catastrófica e há uma grande chance de eu não voltar vivo. Por isso, quero o divórcio agora. Vou deixar o caminho livre para vocês.

Falei tudo de uma vez, sentindo um alívio imenso. Mas, para minha descrença, o trio à minha frente não demonstrou qualquer reação. Eles continuavam rindo de alguma piada interna, sem sequer olhar para mim. Ninguém havia escutado uma palavra.

Eu era uma piada. Um fantasma em vida.

O alívio se transformou em uma pontada aguda de humilhação.

— Ariana, você ouviu o que eu disse? — Insisti, elevando um pouco a voz.

Sem desviar os olhos do prato de Daniel, onde ela colocava mais comida, ela respondeu com um desdém automático:

— Sim, ouvi. Tá bom, cuidado lá.

Sua indiferença foi o golpe final. Soltei um riso breve e autodepreciativo, questionando como fui capaz de suportar cinco anos dessa tortura emocional. Se ela não tinha a decência de ouvir, então não havia mais nada a ser dito.

— Acabou. — Sussurrei para mim mesmo.

Empurrei a cadeira para trás e me levantei para ir embora. Foi naquele exato momento que um rangido metálico veio do teto. Antes que eu pudesse reagir, o lustre de cristal acima de mim se soltou.

Houve um estrondo ensurdecedor.

O vidro pesado explodiu contra o meu crânio e ombros, e o mundo girou violentamente. Caí no chão, atordoado, sentindo o sangue quente escorrer pelo meu rosto e cegar minha visão. O restaurante inteiro silenciou, com todos os olhares voltados para a cena brutal.

Ariana também olhou.

— Gustavo!

O grito dela foi de puro horror. Pela primeira vez em anos, vi sua máscara de frieza cair enquanto ela se levantava num salto, correndo desesperada em minha direção.
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