Mag-log inAo redor da maca, um outro médico e três enfermeiras ainda tentavam manobras de reanimação.— Saiam da frente. Se já não sabem o que fazer, parem de fingir que estão ajudando. — Disparou Cecília.Ela avançou sem a menor cerimônia, afastando o médico com o ombro e assumindo o controle da situação.— Quem você pensa que é? — Esbravejou o homem, franzindo a testa. Ao focar no rosto dela, os seus olhos se arregalaram. — Cecília? É você mesma!O choque inicial logo deu lugar a um sorriso cínico.— Você ainda tem a coragem de pisar neste hospital? — Provocou ele, com um tom carregado de hostilidade.Para a surpresa do sujeito, Cecília o ignorou por inteiro, concentrando toda a sua atenção em avaliar os sinais vitais de Jaqueline. Helena e eu observávamos a cena do canto da sala, confusos com aquela interação. "O que está acontecendo aqui? Eles se conhecem?", me perguntei, notando a clara inimizade no ar.Naquele momento, o médico que havia tentado nos barrar no corredor invadiu a sala esbaf
— Doutor, eu imploro, salve a vida dela. Eu não posso viver sem a minha avó! — Suplicou Helena, à beira de um colapso nervoso. Ela chorava em desespero, quase se ajoelhando no chão frio do corredor para implorar por um milagre.O médico, no entanto, balançou a cabeça com uma expressão de profunda impotência.— Senhora, por favor, tente manter a calma. De fato, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. O coração da sua avó está fraco demais, chegou ao limite e não consegue mais resistir. Continuar com as manobras de ressuscitação só traria mais sofrimento a ela. Se quiserem, podem entrar agora para se despedirem...Após dar a terrível notícia, ele se virou, pronto para voltar à sala.— Vó! Vou fazer aqueles desgraçados pagarem por isso! — O grito de Helena, carregado de uma dor insuportável, ecoou pelos corredores do hospital.Foi naquele exato momento de desespero que uma voz firme e serena soou não muito longe dali:— Quem foi que disse que não tem mais jeito? Me deixem dar uma olh
Puxei Helena para um abraço protetor, sentindo o seu corpo tremer de forma incontrolável contra o meu peito. A sua dor era visível.— Obrigada, Gustavo. — Murmurou ela, escondendo o rosto na minha camisa.— Vai dar tudo certo, confie em mim.Enquanto o motorista acelerava pelas ruas da cidade em direção ao Hospital Central, peguei o celular e disquei o número de Cecília. Não demorou muito para que ela atendesse.— Alô, Gustavo? — A voz do outro lado da linha soou calma e melodiosa.— Sou eu, Cecília. Aconteceu uma tragédia. A avó de uma amiga minha, uma senhora de setenta anos com histórico de insuficiência cardíaca, passou por um estresse muito grande. Ela cuspiu sangue e desmaiou. O estado dela é crítico, e estamos a caminho do Hospital Central. Você acha que consegue ajudar?Fui direto ao ponto, despejando as informações sem tempo para formalidades. Ao perceber a gravidade da situação, o tom de Cecília mudou na mesma hora, tornando-se profissional e focado.— Certo. Me passe o númer
O silêncio de Marcelo era sepulcral, com o rosto mergulhado em uma sombra de desespero. Raquel, por outro lado, lançou um olhar impaciente para Sandro e sussurrou por entre os dentes:— O que mais a gente pode fazer? Fugir, é claro! Se continuarmos aqui, a Helena e o Gustavo vão acabar com a nossa raça!Ao dizer isso, mãe e filho voltaram os olhos suplicantes para Marcelo, esperando uma atitude.— Você é o chefe desta casa, faça alguma coisa! Vai ficar aí parado? — cobrou Raquel, com a voz esganiçada. — Ou será que quer que eu e o seu filho afundemos junto com a sua mãe? Ela já está com o pé na cova mesmo...Antes que ela pudesse terminar a frase, um estalo alto ecoou pelo salão. Marcelo havia desferido um tapa com toda a força no rosto da esposa, deixando-a atordoada.— Cale a boca! Aquela é a minha mãe! — rugiu ele, com as veias do pescoço saltadas.Apesar da explosão de fúria, ao olhar para a idosa caída e sem sentidos, um lampejo de hesitação cruzou o olhar de Marcelo. O medo falou
— Não quero saber de desculpas. Ou a senhora manda trazer tudo de volta e me dá a minha metade, ou pode esquecer que tem neto! — Exigiu Sandro, com os olhos injetados de ganância. O garoto estava tão cego pelo dinheiro que sequer percebeu a gravidade da situação.O rosto de Jaqueline havia passado da palidez extrema para um tom arroxeado alarmante, e os seus lábios estavam escuros por conta da falta de ar.— Seu... seu sangue-suga! Você vai me matar de desgosto! — A voz da idosa saiu como um chiado doloroso. — A culpa foi toda minha. Eu fracassei. Criei um filho covarde que abandonou a própria família e um neto que não passa de um monstro egoísta... A culpa é minha!Com um grito de dor que ecoou pelo salão, Jaqueline jogou a cabeça para trás. Uma golfada de sangue escuro manchou a sua roupa antes que o seu corpo amolecesse por completo na poltrona, mergulhando em uma inconsciência profunda.— Vó! — Gritou Helena, em desespero.— Sra. Jaqueline! — Exclamou Luiz, arregalando os olhos.A
— A senhora já tem idade suficiente para ter algum juízo, mas pelo visto não pensa um segundo sequer no bem-estar dos próprios filhos e netos. Só pode estar caduca! — Disparou Raquel, incapaz de aceitar a perda daquela fortuna incalculável. O ressentimento em seu olhar era tão intenso que parecia prestes a engolir a sogra viva.— Calem a boca, todos vocês! Não estão vendo que ela está passando mal? — Helena gritou, com a voz embargada pela angústia. Ao notar a palidez assustadora no rosto da avó, ela se colocou protetoramente na frente da poltrona. — Hoje era para ser uma noite de festa, e olhem o estado em que vocês a deixaram! Sumam daqui agora mesmo! E podem tirar o cavalinho da chuva, pois com essa atitude nojenta, vocês nunca vão colocar as mãos naqueles presentes!As palavras de Helena atingiram os parentes da família Lopes como um tapa na cara. A reação deles, no entanto, não foi de arrependimento, mas sim de uma indignação hipócrita por terem suas verdadeiras intenções exposta