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Capítulo 4

Author: Caçador de Flores
Era a primeira vez que eu presenciava Ariana em tal estado de pânico. Seus olhos estavam marejados, prestes a verter lágrimas, e, por um breve momento de ilusão, acreditei que fosse por mim. Fiquei atordoado, permitindo-me a fantasia de que ela ainda me amava.

Contudo, a realidade cruel se impôs no segundo seguinte, trazida pelo choro desesperado de Daniel.

— Mamãe, o papai também está sangrando! Estou com medo...

Ariana se virou bruscamente e viu Heitor, que cobria o braço com uma expressão de dor exagerada. Os estilhaços de vidro haviam causado apenas dois cortes superficiais nele, mas isso bastou para que ela perdesse o chão.

— Heitor, vou levá-lo ao hospital agora mesmo. — Decidiu ela, sem hesitar.

Ela já estava me deixando para trás, puxando Heitor para longe, quando ele, mantendo sua fachada de bom moço e deixando sua voz se misturar aos soluços do filho, interveio com a voz embargada:

— Ariana, leve o Sr. Gustavo conosco. Os ferimentos dele parecem mais graves que os meus.

A resposta de Daniel foi imediata, carregada de repulsa ao olhar para mim:

— Não, papai! Tenho medo de sangue, não quero ele aqui!

Heitor não insistiu e lançou um olhar significativo para Ariana. A decisão dela foi tomada em questão de segundos, fria e pragmática.

— Não podemos. Daniel passa mal ao ver sangue, não dá para levá-lo junto. Esqueça ele. — Decretou ela, dura. — Gustavo é bombeiro, sabe primeiros socorros e pode se virar sozinho. Vamos embora!

Ariana pegou Daniel no colo, segurou firme a mão de Heitor e partiu sem olhar para trás uma única vez.

O sangue que escorria da minha testa começou a turvar minha visão, misturando-se às lágrimas quentes que eu já não conseguia conter. A dor física e a humilhação se fundiam em meu rosto. No fim, foi o dono do restaurante quem se apiedou da minha situação e ordenou que seus funcionários me levassem à emergência.

Por sorte, não era nada grave, apenas ferimentos externos que foram devidamente limpos e enfaixados. A dor no corpo, no entanto, era insignificante comparada à agonia que me consumia por dentro. A imagem de Ariana me abandonando sem qualquer remorso perfurou meu peito como milhares de agulhas, deixando meu coração em frangalhos, drenado de qualquer esperança.

Deitado na cama do hospital, entorpecido, desisti de esperar qualquer coisa dela. Minha única preocupação passou a ser se os ferimentos atrapalhariam minha missão de combater o incêndio florestal no dia seguinte. Passei a noite oscilando entre a dor latejante e cochilos agitados, enquanto meu celular permanecia em silêncio absoluto.

Nem uma única mensagem de Ariana. Ficou claro que, para ela, Heitor e Daniel eram seu universo; eu não passava de um estranho irrelevante que cruzara seu caminho.

Ao amanhecer, o toque estridente do telefone me despertou. Era o capitão.

— Alô, capitão. — Atendi, com a voz rouca de sono.

— Gustavo, está pronto? — Perguntou ele, direto.

— Sim, estou apto a me apresentar agora mesmo. — Garanti, tentando me levantar.

A dor de cabeça havia diminuído consideravelmente em relação à noite anterior. Testei meus movimentos e constatei que não havia grandes sequelas. Quanto a Ariana, que fizesse o que bem entendesse. Eu era apenas um mortal, e ela, uma deusa intocável e distante.

— Ótimo, mas não precisa correr. — Tranquilizou o capitão. — A situação do incêndio é crítica e a equipe está aguardando a chegada de novos equipamentos enviados pelo comando. Assim que chegarem, partiremos. A previsão é para o período da tarde, eu aviso o horário exato.

Desliguei o telefone e fiquei paralisado, olhando para o nada. Tinha meio dia livre, mas para onde ir? Voltar para casa? Melhor não. Não queria buscar mais humilhação nas minhas últimas horas na cidade.

Foi nesse momento de indecisão que o nome de Ariana brilhou na tela do meu celular.

— Gustavo, não volte para casa por enquanto. — Ordenou ela, dispensando cumprimentos. — Daniel não gosta de você. Ele diz que sempre que você aparece, o pai dele fica triste ou se machuca. É uma criança, precisa de tempo para se adaptar. Reservei um hotel para você e pedi ao mordomo para enviar suas malas.

Ela fez uma pausa breve antes de soltar a próxima bomba:

— Ah, Heitor vai ficar lá em casa durante esse período. Ele vai dormir no seu quarto. Mas não se preocupe, não há nada entre nós.

Era sempre assim, pois ela apenas comunicava suas decisões, sem espaço para diálogo.

— É isso. Tenho uma reunião agora, vou desligar.

A linha ficou muda antes que eu pudesse responder. Senti uma pontada aguda no peito. Ariana estava ultrapassando todos os limites do desrespeito.

Desde os primeiros sinais suspeitos que notei, passando pela adoção da criança, até instalar Heitor na nossa mansão e, finalmente, me expulsar da minha própria casa. Faltava muito pouco para ela admitir o caso abertamente. Mas talvez uma "santa" nobre não se rebaixasse a dar satisfações a um mero mortal como eu.

Que fosse. Considerei aqueles cinco anos de juventude desperdiçados. Prestes a enfrentar a linha de frente do fogo, decidi não me prender a mesquinharias sentimentais.

Após receber alta, fui para o hotel e encontrei minhas malas na recepção. Mas tive uma surpresa. Por engano, o mordomo havia enviado o notebook de Ariana junto com as minhas coisas.

Ele devia ter confundido os pertences, já que fui eu quem deu aquele computador a ela de presente de aniversário. Me lembrei de ter comprado na cor preta por engano, mas ela nunca reclamou e o usava para o trabalho até hoje. Hesitei em ligá-lo, mas uma onda de nostalgia me atingiu. Lembrei que o disco rígido guardava fotos e vídeos do nosso namoro, de uma época em que ela ainda não era obcecada pelo budismo e éramos genuinamente felizes.

Já que eu estava partindo, talvez fosse melhor apagar tudo e não deixar rastros que pudessem incomodar. Abri o notebook com a intenção de deletar nossos arquivos, mas o WhatsApp Web conectou automaticamente assim que o sistema iniciou.

Foi um golpe ver que Heitor era o nome fixado no topo da lista de conversas.

Ariana não apenas o destacava como prioridade máxima, como também salvava seu contato com um apelido carinhoso que era Heitinho. Um diminutivo simples, mas carregado de uma intimidade inegável e ambígua.

E eu? Apesar das dezenas de mensagens que eu enviava diariamente, meu nome não estava à vista. Sentindo o estômago revirar, rolei a tela para baixo, procurando por mim mesmo. Heitor era o único contato pessoal fixado. Abaixo dele, seguiam-se grupos da empresa, vice-presidentes e clientes.

Mais abaixo, grupos de estudos budistas, colegas de meditação e o abade do templo. Só então, perdido entre centenas de conversas, aparecia eu, muito depois da centésima posição. E o pior era que não estava salvo como "amor" ou sequer pelo meu nome completo, mas apenas pelo meu apelido de usuário da rede.

Cinco anos de casamento e eu não merecia nem um registro digno na agenda dela?

O golpe final foi ver o ícone de "silenciado" ao lado da minha conversa. Era o único. Isso explicava por que, apesar das minhas inúmeras tentativas de contato, ela raramente respondia, se limitando a uma ou duas palavras a cada três dias. Ariana nunca me priorizou, em momento algum. Minha suposta felicidade conjugal não passava de uma farsa cruel.

Uma ironia amarga tomou conta de mim. Aquele apelido, Heitinho, parecia um monstro zombando da minha desgraça, rasgando o que restava do meu coração e me empurrando para um abismo gelado. O ar me faltou, uma sensação de sufocamento tomou conta do quarto.

Eu queria fechar o computador e esquecer tudo aquilo, mas o WhatsApp apitou. Novas mensagens de Heitor.

Uma sequência de mais de dez fotos chegou, mostrando Ariana e ele na escola, acompanhando Daniel em uma gincana divertida.

Na primeira, os três vestiam roupas combinando, de mãos dadas e sorrindo como uma família perfeita. Na segunda, os corpos de Ariana e Heitor estavam colados enquanto levantavam Daniel para estourar um balão. Na terceira, ambos mordiam o mesmo biscoito segurado pelo menino, seus lábios a meros centímetros de se tocarem.

Cada imagem seguinte era mais íntima que a anterior. Senti uma dor física no coração, quase insuportável; nunca tinha visto minha esposa, a "santa" sempre tão contida e distante, expressar tanta alegria espontânea e desinibida.

O carimbo de data no canto das fotos confirmava que elas tinham sido tiradas há dez minutos.

Um riso sem vida escapou da minha garganta. Então era por isso que eu não podia voltar para casa: ela tinha medo que eu descobrisse a verdade.

— Ariana, você disse que estava em uma reunião... — Sussurrei para a tela, com amargura. — Não dizem que quem segue o caminho da iluminação não mente? Por que, então, nosso casamento é construído sobre tantas falsidades?
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