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Capítulo 5

Author: Caçador de Flores
Meu instinto inicial foi ligar para Ariana e exigir satisfações, mas logo percebi a inutilidade daquele gesto. Os fatos já estavam claros demais e, mesmo que ela recusasse o divórcio, eu estava partindo para uma missão de alto risco da qual talvez não retornasse vivo.

Resignado, deixei o celular de lado, pois não queria levar mais essa amargura comigo nos meus momentos finais antes da partida.

Eu estava prestes a desligar o computador e pegar minha bagagem quando, inesperadamente, chegou outra mensagem de Heitor. Dessa vez, era um arquivo de vídeo. A imagem de capa mostrava ele e Ariana juntos em um palco, com uma felicidade tão radiante que parecia transbordar da tela.

Aquilo havia sido filmado agora?

Com um tremor interno e o coração disparado, dei play. A cena mostrava um professor convidando os pais de Daniel para subirem ao palco e compartilharem sua história de amor. Ariana subiu os degraus segurando a mão de Heitor. Aquela deusa que sempre pregou o desapego e a frieza, agora exibia um rosto corado, com uma expressão de timidez que eu jamais vira.

Ela tomou a iniciativa de falar ao microfone.

— O Heitor é meu namoradinho de infância. — Começou ela, com a voz doce. — Estudamos na mesma sala desde o ensino fundamental, e só na faculdade ele finalmente se declarou para mim... Depois da formatura, nos casamos felizes. A maior sorte da minha vida foi encontrar um homem tão perfeito e que me ama tanto.

Arregalei os olhos, incrédulo, sentindo o sangue gelar. Heitor era o primeiro amor dela? Quando namorávamos, Ariana jurou que eu tinha sido o primeiro. Ela costumava dizer que era como uma folha em branco e pedia que eu cuidasse bem dela. Concordei prontamente, sendo submisso durante o namoro e, após o casamento, fazendo o impossível para buscar as estrelas e satisfazer suas vontades, respeitando cada um de seus caprichos.

E era aquele o final que eu merecia?

Senti como se meu coração fosse brutalmente arrancado do peito, atirado ao chão e pisoteado até virar pó. A dor era tão intensa que me faltou o ar. Desabei no chão do quarto, tremendo em espasmos incontroláveis, enquanto as lágrimas embaçavam minha visão.

— Ariana, então você mentiu para mim o tempo todo... — Sussurrei para o vazio.

As falsidades da minha "santa" começaram lá atrás, no início do nosso namoro. Não é que nosso casamento tivesse enganos pontuais. A verdade cruel é que ela nunca foi honesta comigo, nem por um segundo.

O vídeo continuava, e se ouvia a plateia aplaudindo entusiasmada. Alguns pais começaram a pedir detalhes, curiosos sobre quais coisas românticas eles viveram. Soltei uma risada de escárnio, amarga. No início da nossa relação, eu preparava pequenas surpresas românticas, mas a reação dela era cada vez mais fria. Ariana dizia odiar o romantismo, alegando que, para quem segue o caminho budista, isso eram truques inúteis, inferiores à sinceridade. Eu acreditei nela. Reprimi meu afeto para acompanhá-la em sua vida insossa, apenas para provar meu amor, mas meu coração já estava despedaçado por ela há muito tempo.

A voz tímida e apaixonada de Ariana voltou a soar no vídeo:

— Eu e o Heitor temos muitas histórias românticas, é claro. Ele é um homem muito galante e preparou inúmeras surpresas para mim. Logo que ficamos juntos, ele passou três noites em claro tricotando uma bolsa à mão para mim. Estava com olheiras profundas e, com vergonha de me entregar o presente, mentiu dizendo que ganhou num sorteio. Naquele momento, ao ver o estado dele, jurei que ele seria o homem da minha vida.

No vídeo, Ariana e Heitor entrelaçaram os dedos, trocando olhares apaixonados.

— Guardo essa bolsa com carinho até hoje. — Continuou ela. — E teve uma vez, logo após o casamento, que reclamei que a comida da empresa não estava boa. Quando cheguei em casa à noite, o Heitor tinha preparado um banquete digno de reis. Cada prato era um dos meus favoritos. Só depois descobri que ele rodou a cidade a tarde toda atrás dos melhores ingredientes e queimou as mãos cozinhando.

Ariana ergueu as mãos de Heitor e as beijou diante de todos, visivelmente emocionada.

— Vou lembrar disso para sempre. Na época, fiquei com pena e o chamei de bobo, mas ele respondeu que não se arrependia, pois fez tudo só para me ver sorrir. E ainda teve a vez que tive febre alta; o Heitor ficou três dias e noites acordado cuidando de mim, até parar no hospital. Ele disse que a minha vida valia mais que a dele...

A cada relato de Ariana, ouviam-se suspiros de inveja dos outros pais na gravação. Aqueles sons eram como facadas penetrando meu peito, causando uma dor física insuportável. O vídeo ainda tinha um longo trecho, mas desliguei o aparelho, incapaz de ouvir mais.

Era uma tortura, um sofrimento além do que eu podia aguentar. Cada história romântica que Ariana contava era como se milhares de pessoas me cortassem vivo.

— Essas coisas... fui eu quem fez por você! — Gritei até minha voz falhar, sentindo um frio gélido tomar conta da minha alma.

Ariana não era incapaz de amar ou desapegada das emoções mundanas. Sua frieza era exclusiva para mim. Ela se lembrava de cada gesto de carinho, de cada sacrifício que fiz, mas creditava tudo a outro homem.

A realidade era muito diferente do conto de fadas que ela narrava.

A bolsa que levei três noites inteiras para fazer? Ela apenas agradeceu de forma protocolar e nunca a usou. Sempre que eu perguntava, ela dizia não gostar do modelo. Fiquei dias me culpando, arrependido por não ter entendido o gosto dela antes de começar. O banquete que preparei com tanto esmero? Ela não tocou na comida. Pelo contrário, me repreendeu severamente, dizendo que budistas evitam o desperdício e o luxo, e que eu fiz aquilo por falta de respeito. Minha explicação de que só queria vê-la sorrir foi ignorada, e ela passou uma semana dormindo no templo como protesto.

Quanto às minhas mãos queimadas, sempre achei que ela não tivesse notado. Agora eu sabia que ela viu tudo, apenas não se importou o suficiente para demonstrar compaixão.

E a vez da febre alta... Fui eu quem pediu licença no quartel para cuidar dela dia e noite. Mas ela me expulsou do quarto. Ingênuo, achei que ela estava preocupada comigo, dizendo que a vida dela era mais importante. Mas minha dedicação só recebeu desprezo. Ela alegou que a febre era uma provação de Buda, uma bênção, e me proibiu de entrar, dizendo que eu era impuro e ignorante. Perdi o sono de culpa, estudei textos budistas tentando entender, mas nunca encontrei essa tal teoria de que "doença é bênção". Pensei que fosse minha falta de cultura, mas não passava de uma desculpa para me afastar.

Ela entendia meu amor, sim. Só que o coração de Ariana pertencia a outro, e ela desprezava o meu afeto.

— Ariana, o erro foi meu. Eu errei por ter te conhecido. — Murmurei, com as lágrimas já secas no rosto.

A tristeza extrema deu lugar a uma estranha sensação de dormência, quase um alívio. Agradeci por esse acaso do destino que, nas minhas últimas horas, me revelou toda a verdade.

Realmente, era o fim. Aquele casamento ridículo precisava acabar. Se Ariana não tinha coração, eu também deveria matar o que restava do meu.

Desci até a recepção do hotel, pedi papel e caneta, e escrevi minha despedida final.

[Ariana, independente da sua concordância ou se você está em período de preceito, nós acabamos oficialmente. Deixo o caminho livre para você, para seu primeiro amor, Heitor. Daniel é filho de vocês dois, não é? Não consigo compreender por que você sustentou essa mentira cansativa e se casou comigo. Cinco anos. Foi o tempo necessário para você me mostrar o quanto fui patético. Confesso que chorei até não ter mais lágrimas, mas não por você. Choro por mim mesmo, por ter desperdiçado minha vida. Como seu marido, sinto um ódio profundo por você. Mas, como bombeiro, não me arrependo de ter salvado vocês três no hotel. Agora, estou partindo para uma missão. Considere que morri nela. Não nos veremos mais. Esta carta é o meu adeus.]
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