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Capítulo 6

Author: Caçador de Flores
Um único papel assinado selou o fim do meu casamento de cinco anos. Sem nostalgias, sem olhar para trás. Daqui em diante, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, eu não tinha mais qualquer vínculo com Ariana Freitas, CEO do Grupo Freitas. A página estava virada.

Mal cruzei a porta, porém, um odor estranho invadiu minhas narinas. Não era o cheiro da liberdade, mas algo muito mais alarmante.

— Tem alguma coisa queimando... — Murmurei para mim mesmo.

Meus instintos de bombeiro dispararam no mesmo instante. Segui o rastro do cheiro pelo corredor até parar diante de um quarto onde, pelas frestas da porta, escapavam fios cinzentos e preocupantes de fumaça.

— Merda! É um incêndio!

A adrenalina tomou conta do meu corpo. Sem pensar duas vezes, agarrei o extintor preso na parede e comecei a chutar a porta com violência. O estrondo ecoou no corredor.

Um chute, dois... precisei de cinco golpes vigorosos até que a madeira cedesse e a porta se escancarasse. Fui recebido por uma lareira de calor e um fedor sufocante de queimado. As chamas dançavam no interior do quarto. O fogo ainda não era grande, mas se continuasse sem controle, consumiria tudo em minutos.

Com a destreza de anos de profissão, arranquei o pino de segurança do extintor e avancei para combater o foco. O alvo era a cama king size, mas o que vi, que era uma mulher sentada bem no meio do colchão, me paralisou por uma fração de segundo.

Ela era deslumbrante, de pele alva e curvas acentuadas mal cobertas por um roupão de banho, mas seus olhos estavam turvos de embriaguez. Pior ainda, ela segurava uma taça e despejava o líquido alcoólico diretamente sobre o fogo que começava a lamber os lençóis.

Álcool sobre o fogo. A receita para o desastre.

— Sai daí agora! Você quer morrer? — Gritei, incrédulo, largando o equipamento por um segundo para puxá-la com força para longe do perigo, colocando-a atrás de mim.

— Ai, você está me machucando! — Reclamou ela, a voz pastosa e arrastada. — Cai fora! Quem é você? Esse quarto é meu, quem deixou você entrar?

Talvez eu tivesse usado força excessiva no calor do momento, pois ela começou a me esmurrar as costas, indignada. Ignorei os golpes desajeitados e apontei o bico do extintor para a base das chamas. Um jato branco e preciso bastou; em três segundos, o fogo estava extinto.

Respirei aliviado. Tinha chegado a tempo de evitar que as chamas se alastrassem, caso contrário, nem eu daria conta sozinho. Foi só então que me virei para checar a mulher.

Para minha surpresa e horror, enquanto eu apagava a cama, ela havia se esgueirado até a parede e usado um isqueiro para incendiar um quadro decorativo.

Outro foco de incêndio.

— Você ficou maluca? — Bradei, chocado.

Com uma mão, imobilizei os pulsos dela e, com a outra, ergui novamente o extintor para sufocar o novo princípio de fogo na parede. Mas a mulher parecia possuída. Livrou-se do meu aperto com uma agilidade surpreendente e correu de volta para a cama, tentando agora atear fogo no travesseiro.

Havia um limite para a minha paciência, e ela acabara de cruzá-lo.

Não haveria terceira vez. Avancei sobre ela, derrubando-a no colchão chamuscado, e arranquei o isqueiro de sua mão, arremessando-o para longe.

— Fica quieta! Eu estou te avisando, isso é crime de incêndio doloso!

— Não me venha com ameaças, eu não tenho medo de cara feia! — Retrucou ela. Minha bronca só serviu para atiçar ainda mais a fúria da desconhecida, que se debatia com violência. — Me solta! Sou Nanda Moretti, herdeira da família Moretti. Se encostar um dedo em mim, você vai se arrepender amargamente!

Aproveitando-se da minha surpresa momentânea ao ouvir o sobrenome famoso, Nanda reuniu forças de onde não tinha e se desvencilhou, esticando o braço na direção do isqueiro caído, decidida a continuar sua obra destrutiva.

— De novo? — Rosnei.

Eu não podia permitir aquilo. Puxei-a de volta e, dessa vez, usei o peso do meu corpo para prendê-la contra o colchão, imobilizando-a por completo.

— Você está bêbada e vou relevar isso. Mas entenda uma coisa, não me importa de que família rica você vem, colocar fogo em um hotel é crime!

— Eu não estou nem aí! — Cuspiu Nanda, encarando-me com ódio, mesmo presa sob mim. Ela continuava a lutar, cravando o olhar assassino no meu. — Seu pervertido! Quem é você para me dar lição de moral? Me solta agora ou vou te denunciar por invasão e tentativa de abuso!

Soltei uma risada seca, incrédulo com a inversão de valores.

— Sua vontade é incendiar o prédio inteiro, por acaso não posso impedir isso? — Questionei.

— Mentira! Você quer se aproveitar de mim, senão por que estaria deitado em cima de mim?

— Para garantir que você pare de brincar com fogo.

— Se eu quiser me queimar, o problema é meu! Me solta!

Foi então que percebi a mudança em seu rosto. A raiva nos olhos dela deu lugar a uma névoa de lágrimas e uma expressão de pura mágoa, beirando o choro. Baixei o olhar e notei que, na luta corporal, o roupão dela havia deslizado, expondo uma quantidade generosa de pele alva e o colo.

A realidade me atingiu em cheio. A proximidade era perigosa, a posição era comprometedora. Estávamos mais íntimos ali do que eu e Ariana estivemos nos últimos tempos, e éramos dois completos estranhos.

— Desculpe, não tive intenção de te desrespeitar. Só entrei para apagar o fogo.

Me levantei depressa, recuando para manter uma distância segura. Ela se encolheu de imediato sob o edredom, deixando apenas a cabeça de fora, os olhos fixos em mim como os de um gato arisco.

— Conta outra. Você acha que eu sou idiota? Acredita mesmo que vou engolir que você é bombeiro e entrou aqui só para salvar o dia?

— Sou bombeiro de verdade. Aqui está minha identificação.

Tirei o documento do bolso e mostrei a ela, sentindo o absurdo da situação. Nanda examinou o cartão, depois meu rosto. A desconfiança diminuiu um pouco, mas a hostilidade permaneceu.

— E daí? Bombeiro ou não, homem é tudo igual, nenhum presta!

— Problemas no paraíso? — Arrisquei, observando o estado deplorável dela. — Seja lá o que for, uma desilusão amorosa não vale a pena para você morrer queimada tão jovem.

Nanda bufou, virando o rosto num gesto infantil de desprezo.

— Não é da sua conta. A vida é minha, faço o que eu quiser com ela.

Senti uma pontada de irritação profunda. Como bombeiro, vi pessoas lutarem desesperadamente para viver em meio às chamas, muitas vezes em vão. Ver alguém desperdiçar a vida assim, de propósito, me repugnava.

— Tem razão, a vida é sua. Mas se quer morrer, não faça isso em um lugar público pondo outros em risco. É irresponsabilidade e, francamente, uma morte feia e sem dignidade.

— Você... está me insultando? — Ela parecia chocada, apontando para o próprio peito.

— Estou te dando um choque de realidade. Quer estragar essa beleza toda virando um monte de carvão irreconhecível? Sabe qual é a sensação de morrer queimado? — Minha voz ficou sombria, e eu me inclinei levemente. — É como ter dez mil facas perfurando sua pele ao mesmo tempo, sem pausa. A dor é tão insuportável que a maioria morre pelo choque da dor antes mesmo de o fogo terminar o serviço. É cruel, nojento e, depois, você vira uma massa deformada.

Embora ela não desse valor à própria vida, eu não podia ficar parado vendo-a se matar. Precisava ser duro.

— P-para com isso, não tente me assustar! — Gaguejou Nanda, o rosto perdendo a cor ao imaginar a cena gráfica que descrevi. Ela estremeceu.

— Não estou assustando, é a pura verdade. Se não acredita, procure um terreno baldio de concreto, bem longe de todos, e vá em frente. Eu não vou te impedir. Mas aqui, onde há outras pessoas inocentes? Nem pensar.
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