LOGINMARCUS Eu estava perdendo o controle da situação. E sabia disso. A reunião havia começado como uma conversa. Terminou como uma guerra. Hagen andava de um lado para o outro no escritório. Inquieto. Nervoso. Parecendo um animal enjaulado. Eu nunca o tinha visto assim. Nem antes do acidente. Nem depois. — Ela precisa de tempo. Repeti pela terceira vez. Tentando manter a calma. — Evelyn está assustada. Hagen passou a mão pelos cabelos. Visivelmente irritado. — Assustada? Ele soltou uma risada sem humor. — Quanto tempo mais ela precisa? Seu olhar encontrou o meu. Cheio de frustração. — Quando meus filhos tiverem dezoito anos? É isso, Marcus? O silêncio tomou conta da sala. Porque eu entendia os dois lados. Entendia a dor de Evelyn. Mas também entendia a angústia daquele homem. Um pai que tinha acabado de descobrir que possuía filhos. Um pai que perdeu três anos da vida deles. Um pai desesperado para recuperar o tempo perdido. — Hagen... — Não. Ele interrom
EVELYN Eu estava guardando os contratos recém-assinados quando meu celular tocou. Nem precisei olhar para saber quem era. Marcus. Atendi imediatamente. — Oi. Do outro lado da linha houve um pequeno silêncio. Um silêncio que fez meu coração acelerar. — Evelyn... A forma como ele pronunciou meu nome já me preparou para o que viria. Fechei os olhos. Respirei fundo. — Ele quer falar comigo? Marcus demorou alguns segundos para responder. — Sim. Meu coração disparou. Depois afundou. Porque havia uma pergunta mais importante. Uma única pergunta. A pergunta que eu tinha medo de fazer. — Ele perguntou por mim? O silêncio do outro lado foi resposta suficiente. Mesmo assim Marcus respondeu. Com honestidade. Como sempre. — Ele ainda não lembra de você. Fechei os olhos. A dor veio. Mas dessa vez não me destruiu. Talvez porque eu já esperasse. Talvez porque estivesse me preparando para isso desde o dia em que soube que Hagen estava vivo. — Entendi. Minha voz saiu cal
EVELYN Quando a última assinatura foi colocada no contrato, fiquei alguns segundos em silêncio. O representante do ateliê de Nova York apertou minha mão. — Parabéns, senhora Moore. Sorri. Mas mal consegui responder. Porque naquele momento eu não estava pensando nos números. Nem nos lucros. Nem na expansão da empresa. Estava olhando para o documento diante de mim. Um contrato que mudaria o futuro do meu ateliê. Um contrato que garantiria trabalho pelos próximos anos. Um contrato que a Evelyn de três anos atrás jamais imaginaria assinar. Assim que os clientes foram embora, a sala explodiu em comemoração. Palmas. Abraços. Risadas. Algumas costureiras choravam. Outras comemoravam como se tivessem ganhado na loteria. E talvez tivessem. Porque aquele contrato significava estabilidade. Crescimento. Novas oportunidades. Olhei ao redor. Para cada rosto. Cada pessoa que construiu aquele sonho comigo. E meus olhos começaram a arder. Passei o
EVELYN Chorei por alguns minutos. Talvez muitos. Talvez poucos. Não importava. Porque a reunião começaria em menos de vinte minutos. E o mundo não parava porque meu coração estava quebrado. Novamente. Respirei fundo. Fechei o notebook. Levantei da cadeira. E caminhei até o banheiro privativo do meu escritório. A mulher refletida no espelho parecia cansada. Os olhos vermelhos. A maquiagem borrada. O rosto molhado pelas lágrimas. Por um segundo vi a Evelyn de anos atrás. A menina assustada. Grávida. Sozinha. Abandonada em um país estrangeiro. A garota que acreditava que amor era suficiente para vencer qualquer coisa. Aquela garota que chorava todas as noites sentindo falta do marido. Que se perguntava o que tinha de errado consigo. Que acreditava em contos de fadas. Mas aquela garota não existia mais. Abri a torneira. A água fria escorreu sobre meu rosto. Lavando as lágrimas. Lavando a dor. Ou pelo menos escondendo-a por algumas horas. Depois peguei a toalh
EVELYN Faltavam poucos minutos para minha reunião. Os croquis estavam prontos. As amostras de tecido separadas. Os contratos organizados sobre a mesa. Eu deveria estar revisando tudo. Mas minha atenção estava longe dali. Sentada no escritório do ateliê, navegava distraidamente pela internet enquanto esperava o horário. Foi quando uma manchete apareceu. "O GRANDE RETORNO DE HAGEN VON STRAUSS À ALTA SOCIEDADE." Meu coração apertou imediatamente. Antes mesmo de abrir a matéria. Antes mesmo de ver as fotografias. Eu já sabia que iria me machucar. Mas cliquei. Porque algumas dores parecem ter vontade própria. A primeira imagem apareceu na tela. E meu mundo ficou silencioso. Hagen. Lindo. Elegante. Impecável. Usando um terno preto perfeitamente ajustado. Mais maduro. Mais homem. Mais distante. Ao lado dele estava Isabella. Segurando sua mão. Sorrindo para as câmeras. Como se aquele fosse o lugar dela. Como se sempre tivesse sido.
A festa continuava atrás das portas de vidro.Música.Risadas.Taças se chocando.A elite de Nova York celebrando meu retorno.Mas eu precisava de ar.Precisava de silêncio.Precisava pensar.Por isso fui para a sacada.E Marcus me acompanhou.Durante alguns minutos apenas observamos a cidade iluminada.Sem falar nada.Até que finalmente quebrei o silêncio.— Eu quero conhecer meus filhos.Marcus não respondeu imediatamente.— E preciso falar com a mãe deles.Foi então que ele soltou uma risada curta.Sem humor.Daquelas que escondem alguma coisa.Franzi a testa.— O que foi?Marcus balançou a cabeça.— Nada.— Marcus.— É só que...Ele suspirou.— Você continua fazendo isso.— Fazendo o quê?— Chamando ela de "a mãe dos meus filhos".O silêncio tomou conta da sacada.— Hagen...Você não consegue nem pronunciar o nome dela.Olhei para a cidade.Tentando ignorar o desconforto.— É difícil.— Não.A resposta veio imediata.— Não é difícil para alguém que amou.Aquilo me atingiu em cheio







