MasukCAPÍTULO 90 - PONTO DE VISTA RAGNAR Um ano após o julgamento sob as estrelas na praça alta, a primavera finalmente quebrou a espinha das geleiras antigas que cercavam Ashfall. O degelo das montanhas do Norte não descia mais como torrentes barrentas de cinzas e desespero. Pelas gargantas rochosas onde antes ecoava o ribombar das catapultas rebeldes de Valdor e o trote desesperado de batedores feridos, agora serpenteavam caravanas comerciais carregadas de linho do Sul, grãos dourados das Planícies Ocidentais e especiarias trazidas pelos navios mercantes do Leste. As velhas trincheiras cavadas no permafrost haviam sido aterradas com terra fértil trazida dos vales baixos; as cercas de estacas pontiagudas deram lugar a postos de pedágio organizados, onde guerreiros com armaduras limpas conferiam selos de trânsito em vez de desembainharem espadas ao menor sinal de movimento na neblina. Sobre as ameias de ferro da fortaleza, não tremulavam mais estandartes divididos pela desconfiança de v
CAPÍTULO 89 - PONTO DE VISTA SELENE O ranger das ferragens e o murmúrio disperso dos soldados que abandonavam a praça alta de Ashfall foram engolidos pela vastidão gélida das montanhas. O Grande Conclave recolhera os seus homens, as suas dúvidas, os seus elmos de ouro e as suas pretensões tolas de tutela. Nas lajes frias onde o sangue quase fora derramado pela insolência de um herdeiro mimado, restara apenas a serenidade límpida de uma lua cheia que brilhava no centro exato do céu de inverno. Não havia vento cortante. A brisa que descia das geleiras perdera a aspereza da tempestade, transformando-se em um sopro fresco que roçava a barra do meu vestido de seda cinzenta enquanto deixávamos o círculo de pedra para trás. Ragnar caminhava ao meu lado. Subíamos a escadaria espiral em um silêncio denso, quase sagrado. Seus passos largos e pesados adaptavam-se com precisão militar ao ritmo dos meus pés descalços sobre o granito. Ele não soltara a minha mão esquerda desde o instante em que
CAPÍTULO 88 - PONTO DE VISTA RAGNAR A mão de Selene desceu da lateral do meu pescoço, mas a eletricidade suave que seus dedos deixaram na minha pele continuava a correr por todas as minhas veias, apaziguando o rosnado do meu lobo interior. Nossos dedos permaneciam entrelaçados no centro da praça alta. Diante de mais de trezentos guerreiros embasbacados, a maior força deste continente testemunhava o Alfa do Norte segurando a mão de sua fêmea com a reverência de quem protege o sopro da própria vida. Nenhum dos três embaixadores se mexia. O velho Dorian engoliu em seco, a mão pesada congelada sobre a coronha de osso de seu machado de guerra. O patriarca Vane, do Leste, desviava o olhar entre a marca estelar no meu peito nu sob o couro e o fulgor celestial que brotava dos cabelos de Selene. Mas era no jovem Cassian que a vergonha ardia como ácido puro. O herdeiro do Oeste tremia sob as placas de ouro polido. O queixo erguera-se com o desespero de um garoto mimado que nunca tivera uma
CAPÍTULO 87 - PONTO DE VISTA SELENE A noite desceu sobre os picos de Ashfall com a clareza cortante do gelo eterno. No centro da praça alta da fortaleza, cercada por ameias de granito e vigiada pelas sombras colossais das torres, dezenas de tocheiros de ferro ardiam com chamas altas, tingindo a pedra escura de cobre e fuligem. O vento que uivava do Desfiladeiro dos Dentes fora amansado por uma barreira quase imperceptível de energia estelar, deixando o ar dentro do recinto imóvel, tenso e rarefeito. O Conclave aguardava reunido. Trezentos cavaleiros de elite formavam uma muralha de aço polido nas laterais da praça, com os estandartes do Leste, Oeste e das Cordilheiras Centrais tremulando sob o céu coalhado de constelações. À frente deles, dispostos em um semicírculo que tentava impor autoridade territorial, estavam os três lordes: Dorian, com sua couraça de placas pesadas e barba trançada; Vane, envolto em veludo carmesim bordado com fios de ouro; e o jovem Cassian, que tentara re
CAPÍTULO 86 - PONTO DE VISTA RAGNAR As portas do grande salão fecharam-se atrás de nós com um eco pesado, deixando os embaixadores do Conclave atordoados sob a luz trêmula das tochas. Eu não olhei para trás. A imagem do jovem lorde Cassian encolhido pelo pavor, com o rosto desprovido da coragem vazia com que entrara em Ashfall, já não tinha importância alguma. A única coisa que ocupava a vastidão dos meus sentidos era a mulher que caminhava à minha frente na escadaria espiral da Torre do Luar. Selene não apressava o passo. O tecido branco de seu manto roçava suavemente os degraus de granito a cada movimento cadenciado. Seus longos cabelos, inteiramente prateados e densos como luar líquido, ondulavam até a curva dos quadris, refletindo a penumbra azulada que descia das frestas altas da torre. Ela parecia inatingível, esculpida em gelo e sabedoria ancestral. Mas o fio que nos unia — a raiz viva cravada no centro do meu esterno sob a armadura — revelava a verdade que nenhum lorde estr
CAPÍTULO 85 - PONTO DE VISTA SELENE O toque das cornetas de bronze ainda vibrava contra as vidraças da Torre do Luar quando me ergui da cama. A claridade da alvorada entrava fria pelas frestas, banhando a câmara circular em tons de cinza e prata. O vínculo no centro do meu peito, que durante dezessete dias fora uma ferida aberta de luto e silêncio, agora ardia com uma têmpera forjada no fogo ancestral. A consumação com Ragnar não apagara a memória de Kael; Kael permanecia como um pilar sagrado no templo da minha existência, a chama que se apagara para que a deusa não tombasse. Mas Ragnar... Ragnar era a terra arada pelo arrependimento, o aço temperado na vergonha que agora servia de alicerce para o império que se erguia sobre a neve. Virei o olhar para o lado. Ragnar já estava de pé, ajustando as correias de couro das coxotes. O peito largo, marcado pelas cicatrizes de antigas campanhas no gelo, exibia no centro exato do esterno o círculo prateado que a minha essência estelar grav







