LOGINEla estava de pé diante da mesa dele. Trazia um bloco de anotações. Se tinha que trabalhar para Rafe, por gratidão a Judith e James, faria do seu jeito. E ela não era uma secretária.
Após a saída de Jason, teve que segui-lo até o seu escritório. Lá, ele informou a sua senha e login da semana, e, mais tarde, ela teve acesso à agenda do dia. Mal conseguiu ler as inúmeras atividades que um CEO tinha de cumprir, pois seus pensamentos se encontravam num lugar onde somente a luxúria vivia. Controlou um risinho ao se lembrar da expressão exasperada de Rafe ao vê-la quase nos braços do irmão. Mas não controlou tão bem assim, pois ele marcou em cima. — Por acaso é engraçado não ter a mínima ideia de como se prepara uma reunião com a diretoria? Ele havia encarnado novamente o espírito arrogante e prepotente de um executivo que não conseguia ser simpático. Ou melhor, a sua alma havia voltado ao corpo. Infelizmente. — Acho um pouco engraçado, sim. Ah, e também não sei digitar rápido nem mexer com planilhas, fazer café ou qualquer outra merda relacionada à chateação de ser-uma-secretária-da-presidência. — Falou, assim, bem satisfeita consigo mesma. Do outro lado da mesa, sentado e encurvado ligeiramente para frente enquanto digitava algo no laptop, Rafe lia a sua própria agenda e tentava explicar a Sophia o que ela tinha de fazer. Ela tinha certeza de que ele jamais treinara alguém na vida. E que ele também odiava ter de fazer isso agora. — Vem aqui e anota o que vou lhe dizer nesse...céus, regredimos décadas... nesse seu bloquinho. Obedeceu-lhe e, sem querer, encostou a coxa no braço dele. — Desculpa, Sr. Sommers. — disse, com um sorriso irônico. Ele a olhou detidamente e falou sem esboçar reação: — Abaixe-se para ler melhor. E foi o que ela fez, embora tivesse a impressão de que ele fosse afastar a cadeira, abrir as pernas e mandá-la chupar o seu pau. E por mais que tivesse a mente suja (e ela tinha uma mente bem porquinha), imaginou se ele não pensou a mesma coisa, pois seus olhos escureceram ao observá-la demoradamente. Ela não ia falar nenhuma besteira como no dia anterior. Talvez não houvesse conotação sexual alguma nos olhos de Rafe. Talvez ele nem se sentisse atraído por ela. Máquinas, por mais evoluídas que fossem, não tinham desejos sexuais. E Rafe Sommers era o protótipo perfeito de uma máquina com pele e órgãos humanos. — Pretende foder com o Jason? A súbita pergunta a pegou de surpresa como um soco no meio da cara. Eles ainda se olhavam, então o que Rafe viu no rosto dela foi uma boca ligeiramente aberta (porque o xingamento travou e não saiu voando direto na cara dele) e um par de bochechas maquiadas tingidas de blush natural vermelho pimentão. Rafe estava sério, circunspecto, à espera da resposta. Fez uma pergunta sem pé nem cabeça como se lhe tivesse perguntado algo normal, trivial, do cotidiano de ambos. — Vá você se foder, Rafe. — Responde, Sophia. — Insistiu, numa voz baixa, bem semelhante a um rosnado, aquele de aviso, de um rottweiler alertando sobre o perigo. — Isso não lhe diz respeito. Quer que eu repita? Vá-se-foder-Rafe! Posso falar essa mesma frase em espanhol, que tal? Ele sorriu de leve e se ajeitou na cadeira, deitando as costas contra o encosto. — O que o seu corpo quer? — Uma barrinha de cereal. — Como uma mulher pode ser engraçada e sem graça ao mesmo tempo? Você não é o tipo que atrai um Sommers. Definitivamente lhe falta paixão, obsessão, algum componente maluco que encha a vida de cores fortes. Você é pragmática e mesquinha, se preocupa com orçamento do mês, faz cálculos, sofre por besteira e todas as idiotices que transformam uma existência plena em uma estadia burocrática no planeta. Tenho certeza de que nunca sofreu por um homem, por querer demais um homem, porque na sua cabeça isso é fraqueza. Você é uma menina chata, só isso. Ela sorriu, aparentando autoconfiança e torcendo para que os seus lábios não tremessem. — Todo esse papo aí é dor de cotovelo? Eu jamais iria pra cama com você. Ele também sorriu. — Muito interessante essa sua observação, mas não pretendo te comer numa cama. Ela estava presa dentro dos olhos dele, enquanto o cérebro, entorpecido, lançava a pergunta do século: onde pretende me comer? Tapou a boca com a mão antes que sua impulsividade a metesse numa fria. Acontecia apenas que ela não tinha sangue de barata. — Talvez eu durma com o Jason, sim. Ele é o melhor dos Sommers. Manteve os olhos grudados na fúria de cores dos olhos dele, riscos de todos os tons de cinza e azul pareciam compor o quadro de uma tormenta daquelas. — Você nunca dormirá com o Jason. — Era isso que eu precisava ouvir para comprar um lingerie sexy e levá-lo para a minha cama amanhã, após o nosso encontro. Posso lhe enviar uma foto da nossa mesa do café da manhã, prometo alimentar muito bem o seu irmão, como uma legítima latina de rabo quente. Ela odiava a postura esnobe de Rafe. Como ele podia ser tão diferente do resto da família? Essa porra de homem só pode ter sido adotado, pensou, engolindo as lágrimas de raiva. Inesperadamente ele a pegou nos ombros e a trouxe para perto do seu rosto. — Pode bancar a piranha à vontade, porque o Jason sempre cumpriu os nossos acordos. Quando marco uma mulher como minha mulher, ele sabe que nunca vai rolar sexo com ela. — Bom pra você... e para suas mulheres. ― Ela pensou rapidinho na história do rodízio... ― Cacete, então é isso? Vocês dois transam com a mesma mulher? Tarados, pervertidos! Não tenho nada a ver com isso, e vê se me solta, ogro dos infernos! Além de não soltá-la, ele se levantou, trazendo-a consigo. — Você já é minha mulher, Sophia, a minha putinha. — O tom que usou foi de um tipo de malignidade que a assustou. — Seu louco! — Xingou, tentando soltar-se dele. Ele pegou um punhado de cabelos dela e puxou sua cabeça para trás o suficiente para ter o rosto exposto, a boca entreaberta dando vazão ao ar que não entrava de todo pelas narinas ofegantes. — Tudo o que você tem é meu. Tudo o que você é fui eu quem construiu. Prometi a Pilar que cuidaria de você e cumpri a minha promessa. As lágrimas rolavam dos olhos de Sophia, de pura raiva, manchando a maquiagem. — Não fala da minha mãe, você não tem o direito de... Ele a interrompeu, desferindo cada palavra como um projétil para acertá-la em cheio. — A sua mãe e eu combinamos que você seria minha. Ela me pediu que cuidasse da sua filha, dando você de presente para mim. Faz cinco anos que você é minha, Sophia. Cinco anos. Ela não conseguia pensar direito. A mão agarrada nos seus cabelos não mais os puxava, afagava-os, acariciava a nuca. — O que está falando? — Indagou, numa voz trêmula e com muito medo de ter a confirmação de uma suspeita. — Que eu cumpro promessas. — Repetiu. Não, por favor, não, pensou, agarrada a um fiapo de esperança de que toda a sua vida não tivesse sido uma ilusão. James e Judith eram os seus padrinhos, por assim dizer. Ela era a filhinha que eles nunca tiveram. Eles cuidaram para que nada lhe faltasse após a morte da mãe. Eles! Somente Judith e James! — É você quem faz os depósitos na minha conta? E que paga a minha faculdade, aluguel, roupas, comida? É você que me alimenta e me agasalha no inverno?, pensou. O dinheiro que conseguia como garçonete não servia para quase nada, mas a fazia se sentir menos inútil. Não, não podia estar nas mãos de Rafe. Era humilhante demais. O olhar dele se suavizou e, por um segundo ou dois, ele hesitou em responder. Para ela, um suspense sem utilidade, pois já sabia a resposta. Pilar morreu cinco anos atrás, quando Sophia tinha 15 anos e, pelo visto, um ano antes a entregou a Rafe. Como? Em que condições? Havia um contrato? Como se livraria desse contrato? A sua cabeça rodava como num desses brinquedinhos infantis, mas em vez de ela se divertir como as crianças, quem o empurrava velozmente era um palhaço psicopata como nos livros de Stephen King.BUENOS AIRES, ARGENTINA Paul atendeu o celular sem tirar os olhos do trânsito, embora quem dirigisse o Audi fosse a sua irmã mais velha, Brigitta, de 17 anos. Uma loirinha irritadiça que não suportava a opinião de quem sentava no banco do passageiro, como ele, por exemplo.— A Bri pegou o caminho mais longo, por isso ainda não chegamos, mas está tudo bem... Sim, sim, ela é teimosa e não vai admitir que seis meses com a carteira de habilitação não a torna uma Mick Schumacher.Se eles ainda estivessem nos Estados Unidos, Paul também poderia dirigir, pois tinha 16 anos. Mas na Argentina era diferente, pelas leis de trânsito, a pessoa precisava ter 17 anos completos para ter permissão para dirigir.Bri mostrou a língua para o irmão e elevou a voz para ser ouvida no celular:— O Paul está omitindo a verdade, mãe. A gente parou num Mcdonalds, por isso estamos un poquito atrasados.— Tudo bem, mas não precisa correr. Estarei com a equipe de filmagem logo à entrada da Galeria para a tomada da
O plano era dar uma surra em Jason. Uma segunda surra, já que a primeira não o consertou. Chamá-lo para um lugar afastado, sem testemunhas, um beco ou uma academia de boxe fechada e descer o sarrafo. Mas não brigaria para educá-lo, e sim para machucar, ferir, cortar, tirar sangue e fazê-lo sentir dor nem que fosse apenas a merda da dor física, que passava com iodo e analgésico.Certa vez, quando eram adolescentes, Jason e Kevin se pegaram. Rafe não lembrava o motivo, mas nunca esqueceu a ferocidade do caçula sobre o do meio a ponto de acertá-lo de modo a deixar Kevin desacordado. Ele rapidamente foi levado ao hospital, passou por exames e teve o corte na testa suturado. Meses depois desenvolveu uma lesão cerebral que, durante anos, causava-lhe convulsões. A partir de então Kevin era medicado para evitar tais crises.Ainda assim, Jason não deixou Kevin em paz. E por causa de uma garota, que preferiu dançar com Kevin e não com ele, Jason jogou o irmão no chão com uma fúria violenta e te
Não houve uma cerimônia solene de entrega de bastão ou tocha olímpica. Quando Rafe determinou a sua saída da presidência e a consequente substituição por Kevin, tudo foi feito a portas fechadas em uma conversa nada emotiva.Rafe queria cair fora.Kevin se sentia preparado para assumir os negócios da família.Mas, antes disso, havia Jason, o irmão mais novo.Sophia estava sentada no longo sofá de couro do escritório do marido. Sair de casa lhe fez bem, pelo menos se distraiu enquanto dirigia. E pensar em Jason fodido num hospital, depois de perder o noivado tão desejado pelos pais dele, arejava bastante a sua mente.O seu foco, no entanto, era outro.O seu foco vestia um terno cinza chumbo de corte italiano. O cabelo penteado sem um fio fora do lugar. O rosto barbeado destacando o azul dos olhos. A coluna reta, o queixo altivo, a postura de alguém que não se dobrou à dor da perda, mas, por hora, apenas a alma se encolhia. O corpo não. A força mental de Rafe tinha o poder de uma lâmina
O CEO e filho mais jovem do fundador do segundo maior grupo varejista do país, Jason Sommers, foi preso ontem à noite em uma blitz de trânsito no Brooklin, Nova York. Durante a revista no carro, foram encontradas quatro armas e cocaína. O executivo havia anunciado há poucos dias o seu casamento com Laila Ben Khalifa, filha de um bilionário saudita. Por meio de nota à imprensa, a assessoria da família da noiva lamentou o ocorrido e anunciou o rompimento do casal.Guilhermo levou a mão à cabeça, como se tivesse levado um tiro na têmpora. Ruth continuou com os olhos grudados na televisão.— Nunca pensei que o Sr. Jason tivesse problemas com drogas.Sophia ignorou o comentário dele. Todo o inferno pelo qual ela passava tinha a ver com aquela manhã, na calçada do spa, quando Jason deixou claro que a perseguiria enquanto ela estivesse casada com Rafe. Porque Jason o invejava e o temia na mesma medida.— Judith deve estar mal. — Pensou na mãe de Rafe — Vou ligar para ela...— Posso dar a min
O quarto da maternidade era calmo. A luz do fim da tarde filtrava pelas cortinas claras, deixando tudo com cara de pausa.Sophia estava na poltrona perto da janela, com a bebê aninhada no colo, mamando tranquila. A expressão dela era de exaustão... mas também de paz.A porta se abriu devagar.Rafe entrou, com um copo de café na mão e os cabelos ainda úmidos do banho rápido. Estava sem blazer, a camisa escura arregaçada nos antebraços.— Ela ainda está mamando? — perguntou baixinho, se aproximando.— Sim — respondeu Sophia, sorrindo de lado. — Demora um pouquinho.— Não estou com pressa.Ele chegou perto da poltrona e se abaixou ao lado das duas.Olhou o rostinho da filha, encostado no peito da mãe, os olhinhos fechados de contentamento absoluto. E então olhou pra Sophia, com uma calma rara.— Precisa de alguma coisa?— De você aqui.Rafe respirou fundo. Estava ali, inteiro, mas parecia que o corpo ainda não tinha acompanhado a alma.— Eu ainda estou tentando entender que isso está aco
Eles chegaram ao pronto socorro e imediatamente Sophia foi atendida. No caminho, Rafe telefonou relatando o episódio de sangramento e cólica, e a médica disse que precisava novamente examiná-la. Aconselhou que se tranquilizasse, pois sangramento em início de gravidez era normal.Ele lhe repassou as palavras da médica, aparentando sua constante serenidade autossuficiente, mas Sophia sabia que Rafe era um homem de negócios e sabia como mascarar os próprios sentimentos. Caso contrário, por que estaria correndo e gritando com os automóveis mais lerdos?A Dra. Virginia Lang era uma obstetra experiente. Mas ela não mimava as futuras mães, não tinha tato, o que era ruim. Tratava-as como uma espécie de madrasta recém-casada com o pai delas, ou seja, com aquele tipo de cortesia distante. Porém, era muito requisitada e isso afetava a sua disponibilidade para casos de emergência como aquele. Ela falou com Rafe por telefone, mas não pôde ir ao hospital, enviando uma de suas assistentes, que també







