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3 – REIVINDICADA PELO INIMIGO

Author: Bianca C. Lis
last update publish date: 2026-08-19 02:02:19

POV: ELOWEEN

Me debati, chutei, tentei acertar sua cabeça. Foi inútil.

— Me põe no chão, seu desgraçado! — gritei, batendo os punhos contra suas costas.

Nada. Ele nem hesitou, nem se incomodou.

Enquanto atravessava o salão comigo pendurada, vi corpos caídos, rastros de sangue escuro se espalhando pelas fendas do piso de mármore. O cheiro de carne queimada se misturava aos incêndios que começavam a tomar conta de tudo, mais gritos, choros desesperados, mais banho de sangue. A alcateia do Norte estava caindo!

Fui jogada sem delicadeza no banco do passageiro, um gemido agudo escapando da minha garganta com o impacto, involuntário. A ferida na lateral do abdômen latejava, manchando ainda mais o tecido fino do vestido colado à pele.

— Para onde está me levando? — rosnei, pressionando a ferida com a mão trêmula.

Silêncio. Ele avançou a mão em minha direção, e o instinto tomou conta de mim antes que eu pudesse pensar, cravei as unhas no ombro dele, arranhando fundo o suficiente para rasgar o tecido da camisa.

Ele nem se abalou.

Em um movimento rápido demais para eu acompanhar, prendeu meus dois pulsos em uma das mãos, os ergueu acima da minha cabeça, os pressionando contra o encosto do banco. Meu corpo ficou preso ali, arqueado, indefeso, o rosto dele descendo perto demais do meu.

Um rosnado baixo vibrou em seu peito, não de dor. De deleite.

— Guarde essas garras, pequena Ômega. — Um sorriso torto surgiu em seus lábios manchados de sangue, enquanto seus olhos cintilavam com algo selvagem e inominável. — Vai precisar dessa ferocidade mais tarde.

Minha respiração ficou presa na garganta. Não consegui responder, não com aquele peso me imobilizando, não com o coração martelando tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.

Só então ele soltou meus pulsos, devagar, quase relutante, e agarrou meu queixo, virando meu rosto de um lado para o outro, examinando o quanto seu prêmio havia sido danificado. Seu rosto ficou perto, perto demais, o hálito quente roçando minha face, o cheiro dele invadindo cada centímetro do meu espaço.

— Eu te fiz uma pergunta! — Ergui o queixo, o alinhando à altura dos olhos dele. Meus lábios quase tocaram os dele, inconscientes demais para recuar. Foi quando nossos olhares se encontraram. — O que pretende fazer comigo?

As pupilas dele se dilataram, o azul se mesclando ao cinza, perigosas, dando um ar ainda mais sombrio àquele rosto coberto de respingos de sangue.

— Pare de se debater — rosnou, franzindo o nariz, a voz baixa, perigosa. — Ou vou colocar uma coleira em você.

Travei no lugar, arregalando os olhos, abrindo e fechando a boca sem conseguir formar uma única palavra.

O carro começou a se mover, balançado pela estrada de terra, deixando para trás o clarão alaranjado das chamas engolindo o que restava do meu reino.

— Pretende me matar? — insisti, teimosa. — O que você quer de mim?

— Talvez, mas não hoje. — Ele bufou baixo, mal-humorado.

Engoli em seco. Cada fibra do meu corpo gritava em alerta. Quem era aquele Lycan que derrubou o Alfa do Norte com tanta facilidade?

Eu precisava fugir.

Ele dirigiu em silêncio, o olhar fixo na estrada, enquanto eu olhava para os lados, agitada, buscando qualquer brecha, até que ele quebrou o silêncio.

— Antes... — O tom dele desceu uma nota. Olhou-me de canto. — Você não temia, Ômega.

Antes?

Minha pele se arrepiou. Antes que eu conseguisse perguntar, ele parou o carro no meio da estrada escura e se virou para me encarar.

Meu corpo enrijeceu quando ele se inclinou para frente, pousando uma das mãos contra o vidro perto da minha cabeça, me prendendo ali. Puxei o rosto para trás, em reflexo, mas o movimento só me deixou mais perto de sua boca. Ele umedeceu os lábios. Tocou a ponta do nariz no meu. Fechou os olhos, farejando devagar.

— Sinto o cheiro de medo, raiva, indignação... — sussurrou grave, por entre as presas. — Mas há algo mais.

Engoli em seco, os olhos presos naqueles lábios perto demais dos meus, o calor dele me envolvendo, meu corpo formigando em pontos sensíveis mesmo com o medo ainda latente sob a pele.

Ele inspirou fundo, soltando um rosnado perigoso que vibrou desde o peito.

— Você fede a sangue e desespero.

Quando seus olhos se abriram, as íris estavam profundas, em tons azul-acinzentados, o brilho da fera cintilava na superfície.

— Se transforme, princesa. — Ordenou, sem tirar os olhos de mim. — Deixe sua loba curar suas feridas.

Minha respiração travou.

Me remexi no banco, incomodada com a proximidade. Um grunhido baixo escapou de mim, a dor na lateral do corpo latejava a cada movimento, o gosto de sangue subia pela garganta, e minha visão começou a vacilar, tremulando nas bordas.

— Não. — Cerrei os dentes contra a dor.

Ele agarrou meu queixo, sem delicadeza, apertando a pele com força.

— Eu mandei se transformar! — A voz veio mais dura dessa vez, quase um rosnado.

O encarei fundo nos olhos, apesar do medo, mantendo o queixo erguido, desafiadora, mesmo fraca demais para me sustentar direito.

— Sinto muito estragar seu banco de couro com meu sangue indigno, Lycan. — Mantive o tom firme. — Mas não vou me transformar.

Ele riu baixo, um som grave, sem humor.

— Para uma Ômega magrela, você é tola demais. — O tom veio carregado de irritação. — Não teste minha pouca paciência. Transforme-se!

Respirei fundo, a pele fria pela perda de sangue, a cabeça pesando.

— Você não é digno de ver minha loba, Lycan! — soltei, friamente.

Apenas uma pessoa já tinha visto minha loba. O mesmo culpado pela minha ruína. Jurei à lua nunca mais permitir que minha fera emergisse à superfície. Nunca mais.

Seu maxilar se contraiu. Um lampejo atravessou seus olhos, não era raiva, era outra coisa, mais funda, algo que eu não sabia nomear. Por um breve instante, um meio sorriso tocou o canto de seus lábios antes de seus olhos se fixarem de volta nos meus.

— Você mudou...

As palavras me atingiram de um jeito que eu não soube explicar. Confusão tomou conta de mim, densa e desorientadora.

Eu mudei? Do que ele está falando? Nós já... nos conhecemos?

Mas antes que eu pudesse perguntar, o carro voltou a acelerar, deixando minha alcateia em chamas cada vez mais distante pelo retrovisor.

Minha visão escureceu nas bordas, o corpo pesando, a dor se transformando em um zumbido surdo por trás dos olhos.

A última coisa que registrei foi o cheiro dele, tão familiar e tão diferente ao mesmo tempo, madeira queimada e tempestade salgada, antes que tudo se apagasse por completo.

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