LOGINVivian
A porta da mansão Braga se fechou atrás de Vivian com um som seco que ecoou pelo saguão vazio.
O silêncio dali não era diferente do silêncio que ela conheceu desde o primeiro dia como esposa de Eduardo.Os lustres cintilavam, os arranjos impecáveis nos aparadores exalavam um perfume caro e frio - mas nada ali parecia pertencer a ela.
Não havia fotos nas paredes. Não havia lembranças espalhadas. Uma memória se impôs, tão nítida que parecia acontecer de novo diante de seus olhos.Pouco depois de se mudar pra mansão Braga. O casarão era majestoso, mas frio — cada cômodo parecia mais um cenário de revista do que um lar. Vivian, cheia de entusiasmo, decidiu que poderia mudar isso.
Passou horas escolhendo flores frescas, almofadas coloridas, pequenas peças que trouxessem calor à sala principal. Queria criar um espaço onde ambos pudessem se sentir em casa, onde ele pudesse relaxar sem a pressão do mundo dos negócios.
Quando Eduardo chegou naquela noite, cansado do trabalho, encontrou-a posicionando um vaso com girassóis sobre a lareira. Ela virou-se para ele, ansiosa pela reação.
— O que acha? — perguntou, o sorriso brilhando como uma esperança.
Ele olhou em volta, e o silêncio durou segundos demais. Finalmente, sua voz cortou o ar:
— Tire isso daqui.O sorriso dela vacilou.
— Mas… eu pensei que a sala podia ficar mais aconchegante, menos… fria.Ele se aproximou, ajeitando a gravata com irritação.
— Vivian, esta casa foi decorada por um especialista. Não é uma vitrine de feira. Tudo aqui tem uma ordem, um propósito. Não precisamos desses enfeites ou almofadas para parecer uma casa de bonecas.Ela tentou argumentar, mas o olhar dele já havia encerrado a conversa. Na manhã seguinte, cada objeto que ela havia colocado desaparecera, levado pelos empregados.
Vivian entendeu a mensagem. Ali não havia espaço para o gosto dela, para o toque dela. Era uma mansão, sim. Mas jamais seria um lar.
- Quer que eu suba com você? - a voz de Alice trouxe Vivian de volta a realidade e quebrou o eco, mas não a tensão.
Vivian apenas assentiu, subindo as escadas com passos lentos, como se cada degrau fosse um adeus.No quarto, o vestido azul safira ainda refletia a luz suave do abajur, mas já não tinha nada de bonito. Vivian largou-o sobre a poltrona e começou a abrir o armário.
Três anos.
E tudo o que cabia na sua vida com ele eram duas malas pequenas.- Eu sempre soube - disse Vivian, a voz quase engolida pelo silêncio, enquanto dobrava com cuidado um vestido de verão que nunca chegou a usar. O tecido macio escorria pelos dedos como algo precioso... e inútil. - Que ele não me amava.
Alice, encostada ao batente da porta, hesitou antes de falar, como se temesse quebrar a frágil muralha que mantinha a amiga de pé.
- E por que você aceitou isso? Eu nunca entendi.
Vivian ajeitou o vestido dentro da mala, bem ao lado do álbum de fotos que passara noites montando e que Eduardo jamais folheou.
- Porque eu... sempre o amei - respondeu, com um riso curto, sem qualquer alegria. - E fui ingênua o suficiente para acreditar que um dia ele poderia sentir alguma coisa por mim também.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como se quisesse expulsar um nó que crescia na garganta, e continuou:
- Mas nunca imaginei... que eu era só uma pirraça. Uma vingança mesquinha contra o avô. - Sua voz falhou, mas ela prosseguiu, forçando-se a encarar a verdade. - Ou pior... contra uma ex.
Alice caminhou até ela, pousou a mão no ombro de Vivian, transmitindo força.
- Você merece mais que isso. Muito mais.
Vivian olhou para a mala quase fechada, sentindo o peso das memórias embaladas ali. Tudo o que ela construiu naquele casamento virou um fardo leve demais para segurar, e ainda assim, impossível de deixar para trás com facilidade.
- Essa casa nunca foi um lar - murmurou, quase para si mesma. - Era só um cenário onde eu encenava um amor que nunca existiu.
Ela olhou pela última vez para o vestido azul safira, agora amassado, estendido sobre a cama como uma promessa quebrada. Ao lado dele, repousava uma pasta com os documentos que formalizam o fim daquela vida que nunca foi sua.
- Você o quê?Clara largou a caneta em cima da mesa como se tivesse queimado a mão.- Assistente especial - repetiu Marina, com um sorriso que tentava ser humilde mas saía triunfante. - Do próprio gerente geral.- Não é possível.- É possível, sim. Acabou de acontecer.Clara a encarou por um longo segundo, os olhos estreitados.- Como assim? Você não sabe nem servir água! Por que diabos ele te deu um cargo desses?Marina encolheu os ombros, afetando inocência.- Sei lá. Talvez ele tenha reconhecido meu talento.- Seu talento para o quê? Para bater em paredes?- Para organização. Para eficiência. Para... - Marina fez uma pausa dramática - ...coisas que você não entende.Clara deu um passo à frente, a indignação estampada no rosto.- Você só está trabalhando aqui por minha causa, sua ingrata!- E eu sou muito grata, viu? - Marina colocou a mão no peito, fingindo comoção. - Mas, olha, você trabalha aqui há anos e continua sendo secretária. Eu acabei de chegar e já fui promovida a assiste
Marina estava parada em frente à porta do escritório de Gustavo há pelo menos um minuto.Talvez dois.Talvez cinco.O coração batia tão forte que ela jurava que dava para ouvir do lado de fora. A mão, suspensa no ar, hesitava entre bater e fugir correndo de volta para o banheiro.Ele me chamou. Ele quer falar comigo. Ele vai me demitir. No primeiro dia. Vai me demitir porque eu bati numa parede de vidro na frente de todo mundo.Ela respirou fundo. Três vezes. Quatro.Bateu.- Entre - a voz veio seca, direta.Marina empurrou a porta e entrou.O escritório era amplo, iluminado por uma janela que ocupava a parede inteira. A vista lá de cima era impressionante, todo o complexo da Essência se estendia lá embaixo, os jardins bem cuidados, os caminhões de entrega, os funcionários minúsculos como formigas.Mas Marina não conseguia apreciar a paisagem.Seus olhos estavam fixos nele.Gustavo estava sentado atrás da mesa, o terno escuro impecável, os cabelos castanhos meticulosamente penteados.
Gustavo voltou para o escritório com a mente ainda girando em alta velocidade. Os relatórios, os prazos, o sistema fora do ar, o espião, as campanhas perdidas, as fórmulas roubadas, tudo se misturava em uma névoa densa que parecia apertar cada vez mais seus pensamentos como um torniquete em sua têmpora.A dor de cabeça, sua companheira constante, latejava ali, insistente, como se quisesse lembrá-lo do peso que ele carregava.Ele nem bem sentou na cadeira quando a porta se abriu novamente.Henrique entrou sem bater, como sempre fazia. O sorriso habitual estava ausente. No lugar, uma expressão de irritação mal contida, os lábios apertados, as sobrancelhas franzidas.- Você está pressionando demais os funcionários - disse Henrique, fechando a porta atrás de si com um clique seco. - Esse clima de caça às bruxas não é nada bom. As pessoas estão nervosas. Com medo. Isso afeta a produtividade.Gustavo não se deu ao trabalho de se levantar. Permaneceu na cadeira, os olhos fixos no irmão, aval
O banheiro corporativo da Essência Cosméticos era tão extravagante quanto o resto da empresa, mármore branco, iluminação indireta, torneiras de acabamento fosco. Mas Marina não estava em condições de apreciar o design de interiores.Estava encolhida perto do secador de mãos, tentando desesperadamente secar a jaqueta jeans encharcada.O barulho era ensurdecedor. O ar quente fazia seus cabelos voarem em todas as direções. E a água - a maldita água - parecia se multiplicar a cada segundo que passava.- Você é a pessoa mais desastrada do mundo - Clara disse, encostada na parede de mármore, os braços cruzados. - Primeiro dia de trabalho, e já se meteu em uma cena dessas.- Não foi minha culpa, foi só um pequeno acidente - Marina gemeu, ainda esfregando a jaqueta sob o jato de ar quente.- Não foi sua culpa? Você andou em linha reta em direção a uma parede de vidro!- Eu não vi o vidro!- É tudo transparente! O que você queria ver? Uma placa piscando "cuidado, parede"?Marina calou-se, porq
A sala inteira ria.Gustavo sentiu a irritação subir pela nuca como uma brasa acesa. Não sabia por que, mas vê aquela garota no chão... sua vontade era correr até ela para consolá-la.- Chega - disse ele. A voz não foi alta, mas cortou o ar como uma lâmina.O riso morreu instantaneamente.- Alguém vai ajudar aquela tonta, ou vamos ficar aqui rindo igual crianças no recreio? - Olhando para ela seu pensamento era: Como alguém conseguiu chegar à idade adulta se colocando em perigo a cada dia?Os funcionários se entreolharam, envergonhados. Ninguém se moveu imediatamente.No corredor surgiram os que faltavam para a reunião. Henrique apareceu acompanhado de Clara, que carregava uma pasta de couro, e que a soltou assim que viu a irmã no chão.- O que aconteceu aqui? - Henrique perguntou, ajudando Clara a levantar Marina.A expressão de horror no rosto de Marina foi rapidamente substituída por um misto de alívio e vergonha.- Marina! - Clara a puxou pelo braço, erguendo-a do chão. - O que vo
Gustavo voltou ao próprio escritório, com a mente a mil.O filho da amante tentando sentar na cadeira do herdeiro legítimo.As palavras de Henrique ainda ecoavam em sua mente, não porque doíam - a dor já era antiga, amortecida pelo tempo - mas porque provavam o que ele já sabia: o irmão não mudaria. Nunca mudaria. A empresa poderia pegar fogo, e Henrique estaria mais preocupado em proteger seu trono do que em apagar as chamas.Gustavo caminhou até a mesa. A vista da janela era privilegiada - todo o complexo da Essência se estendia abaixo, os caminhões de entrega entrando e saindo, os funcionários caminhando pelos jardins bem cuidados. Uma máquina bem azeitada. Pelo menos por fora.- Entre - ele disse, sem se virar, ao som da batida na porta.O Engenheiro de Segurança entrou, trazendo um tablet e uma expressão que Gustavo já conhecia bem: a de quem está prestes a entregar más notícias.- Sr. Gustavo, tenho o relatório que o senhor pediu.- E? - Gustavo se virou, encostando-se na borda







