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Capítulo 6 - Jantar com a família.

Author: Tais Galvão
last update publish date: 2026-09-01 02:11:58

Eleanor sustentou o olhar, com os lábios contraídos em uma linha fina, antes de soltar um riso gélido.

— Firmeza é fácil de simular quando se tem dez milhões de motivos para isso, meu filho. O tempo dirá se o caráter acompanha o valor do cheque.

A alfinetada pairou no ar, pesada e cortante, mas Tiffany apenas sorriu com serenidade, sem recolher a mão que ainda permanecia firme sob a de Petter.

— O tempo é especialista em colocar cada um em seu devido lugar, Sra. Donovan — retrucou Tiffany com elegância impecável. — Inclusive aqueles que acreditam que o dinheiro pode comprar classe.

A tensão na mesa atingiu o ápice. Eleanor abriu a boca para responder, mas o olhar gélido e irrevogável de Petter a fez recuar, selando um silêncio incômodo pelo restante da noite.

O garçom aproximou-se para servir a sobremesa, mas o clima no salão privado do restaurante francês já estava irremediavelmente envenenado. Eleanor recusou o prato com um gesto indolente de cabeça, mantendo os olhos cravados em Tiffany como se tentasse decifrar uma equação indecifrável. Tiffany, por sua vez, continuou sua refeição com uma postura imperturbável. Ela levou a colher de mousse de chocolate à boca com a mesma calma de quem saboreava um chá da tarde casual, embora o aperto discreto dos dedos de Petter sob a mesa ainda lhe causasse pequenos arrepios na espinha.

Quando Petter finalmente solicitou a conta e sinalizou que a noite havia terminado, o alívio que percorreu os ombros de Tiffany foi quase perceptível. Eleanor ergueu-se com a soberba habitual, ajustando o xale de seda sobre os ombros aristocráticos.

— Não espero que você entenda a complexidade do sobrenome Vance, senhorita Gallagher — disse a matrona, enquanto o maître puxava sua cadeira. — Mas saiba que este jantar foi apenas uma cortesia social. Petter pode ser o CEO, mas a reputação desta família ainda é mantida por fundações muito mais antigas do que o seu contrato de trabalho.

— E eu respeito profundamente a tradição, Sra. Donovan — respondeu Tiffany, levantando-se e encarando a mulher mais velha nos olhos. — Especialmente a tradição de saber a hora exata de se retirar com dignidade. Tenha uma excelente noite.

Eleanor soltou um bufo indignado, girou sobre os saltos e caminhou em direção à saída, seguida de perto por seu motorista particular.

Ficando a sós no salão reservado, Petter soltou um longo suspiro, desabotoando o primeiro botão do terno e passando a mão pelo cabelo escuro. A armadura do grande executivo parecia apresentar pequenas trincas.

— Você não precisava ter sido tão condescendente — disse ele, embora a sombra de um sorriso provocativo ameaçasse surgir no canto de seus lábios. — Minha mãe vai remoer essa conversa durante semanas.

— Ela me provocou, Petter. E se há uma coisa que aprendi na vida, é que recuar diante de chantagem emocional só ensina o agressor a bater mais forte na próxima vez — retrucou Tiffany, pegando sua bolsa sobre a mesa. — Além disso, achei que meu papel esta noite fosse demonstrar que tenho fibra para estar ao seu lado.

Petter aproximou-se a passos lentos. A luz suave dos lustres de cristal refletia-se em seus olhos intensos. Ele parou a poucos centímetros dela, cortando o espaço pessoal entre os dois com uma naturalidade perturbadora.

— E você demonstrou. Até demais — sussurrou ele, a voz baixa e grave vibrando no peito. — Poucas pessoas no mundo têm a coragem de encarar Eleanor Donovan daquele jeito sem vacilar uma única vez.

— Talvez porque eu não tenha nada a perder — mentiu ela, sentindo a respiração desacelerar à medida que ele se aproximava ainda mais.

— Ou talvez porque você seja exatamente tão perigosa quanto aparenta ser — rebateu ele.

O trajeto de volta para a cobertura no sedã executivo ocorreu em um silêncio carregado de significados não ditos. O motorista mantinha o olhar fixo na estrada, enquanto no banco traseiro a distância física entre Tiffany e Petter parecia impregnada por uma atração magnética difícil de ignorar. As luzes da metrópole piscavam através dos vidros fumê, desenhando sombras e reflexos sobre o rosto esculpido dele.

Ao entrarem no apartamento, o som abafado da porta blindada se fechando marcou o retorno à realidade do acordo. Ali dentro, não havia imprensa, nem conselho de administração, nem mães desprovidas de afeto. Havia apenas os dois e o peso de uma farsa que se tornava mais complexa a cada hora.

Tiffany caminhou até o bar da sala e serviu-se de uma taça de água mineral, tentando dissolver a tensão que ainda queimava em suas cordas vocais. Petter tirou o paletó, jogando-o displicentemente sobre o sofá de couro, e começou a dobrar as mangas da camisa social branca até os cotovelos.

— Você segurou minha mão sob a mesa — comentou Tiffany de repente, sem se virar para ele.

Petter congelou por uma fração de segundo antes de servir a si mesmo uma dose de uísque puro.

— Foi uma encenação necessária. Se minha mãe percebesse qualquer distanciamento entre nós, a farsa cairia por terra antes do fim da entrada.

— Ela falou em dez milhões — continuou ela, girando a taça entre os dedos e finalmente virando-se para encarar o homem que governava aquele império. — Como ela sabe o valor exato do nosso contrato, Petter?

O olhar dele tornou-se instantaneamente gélido, a postura relaxada desaparecendo para dar lugar ao homem de negócios implacável.

— O conselho tem vamentos e vazamentos. Há pessoas na minha diretoria que preferem ver esta fusão ruir a me ver no controle absoluto do grupo Vance. Minha mãe tem seus próprios informantes dentro da empresa.

— Então você tem um espião — concluiu Tiffany, cruzando os braços. — E esse espião sabe que a nossa relação é uma fraude financeira.

— Sabem que há um pagamento envolvido, mas não têm provas documentais — corrigiu Petter, dando um gole lento na bebida. — O contrato original está trancado no meu cofre pessoal, sob criptografia que ninguém nesta cidade consegue quebrar. Para todos os efeitos práticos, você é uma consultora altamente remunerada que se tornou minha noiva. Se alguém tentar usar esse valor contra nós, alegaremos que se trata de uma cláusula de exclusividade e gestão de imagem.

Tiffany caminhou até o centro da sala, parando diante dele.

— Você pensa em absolutamente tudo, não é? Cada movimento, cada risco, cada frase ensaiada.

— É a única razão pela qual continuo no topo, Tiffany — disse ele, ajeitando a postura e encarando-a com uma intensidade que parecia perfurar suas defesas. — Na minha posição, um único erro emocional pode custar bilhões. Eu não posso me dar ao luxo de ter pontos fracos.

— E eu sou um ponto fraco ou uma blindagem? — perguntou ela, a voz saindo quase como um desafio velado.

Petter deu um passo à frente, reduzindo o espaço até que o calor de seu corpo fizesse o pulso de Tiffany acelerar de forma incontrolável. Ele ergueu a mão lentamente, tocando com a ponta dos dedos o queixo dela, inclinando seu rosto suavemente para cima. O toque era surpreendentemente quente e firme, contrastando com o tom frio de suas palavras.

— No momento, Tiffany, você é a única pessoa nesta cidade que consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo.

A respiração dela travou na garganta. Por um segundo infinito, o olhar de Petter desceu para os lábios dela, e a tensão sexual entre eles tornou-se tão densa que poderia ser cortada com uma lâmina. Nenhum dos dois se moveu; o tempo pareceu congelar naquela sala escura, iluminada apenas pelo brilho distante dos arranha-céus da cidade.

No entanto, antes que a razão cedesse ao impulso, Petter soltou o queixo dela com a mesma rapidez com que o havia tocado, dando um passo para trás e recuperando a máscara de distanciamento profissional.

— Vá descansar — disse ele, a voz um tom mais grave do que o normal. — Amanhã às oito temos a reunião decisiva com os auditores da fusão. E desta vez, as perguntas serão muito mais difíceis do que as da minha mãe.

Tiffany engoliu em seco, tentando reprimir a onda de calor que ainda percorria suas veias. Ela assentiu em silêncio, ajeitou a postura e caminhou em direção ao corredor dos quartos. Mas ao alcançar a porta de sua suíte, parou e olhou para trás por sobre o ombro.

Petter continuava parado no mesmo lugar, a taça de uísque na mão, observando-a desaparecer na escuridão do corredor. A batalha contra a elite da cidade estava apenas começando, mas a verdadeira guerra, Tiffany percebeu com clareza aterrorizante, seria travada dentro daquele mesmo apartamento, contra o desejo perigoso que crescia entre eles.

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