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A EX do CEO

Author: Yana Shadow
last update publish date: 2024-08-05 06:33:45

No Grande Hospital Metropolitano Niguarda, em Milão, a mãe desesperada fazia uma prece silenciosa. O coração batia com força, e o nó na garganta parecia sufocá-la enquanto as lágrimas banhavam seu rosto. A culpa a corroía por dentro. Ela ficou tão dispersa enquanto pensava no ex que não se deu conta do que acontecia ao seu redor no ponto de ônibus.

— Senhorita Delacroix! — A doutora Spina chamou.

— Como está o meu filho? — Justine ergueu o rosto abatido antes de perguntar.

— Está em estado grave… Bryan teve múltiplas fraturas e uma hemorragia.

— Por favor, salve o meu filho, doutora! — Justine pediu em meio ao desespero.

— O seu filho precisa de uma transfusão, e não temos bolsas de sangue de RH nulo. Averiguei para ver se conseguia em outros hospitais ou pontos de coleta, mas é um tipo sanguíneo raro.

— Tem certeza, doutora?

— Já me certifiquei, senhora Delacroix.

— Ele não pode receber outro tipo sanguíneo?

— Senhora Delacroix, o sangue dourado possui hemácias que não contam com nenhum tipo de antígeno RhD, o que o torna muito especial e perigoso para o seu filho — a médica explicou. — O Bryan só pode receber transfusão de sangue desse mesmo grupo sanguíneo — pacientemente, a Dr.ª Spina detalhou. — Compreendeu?

— Sim, doutora! — A voz embargada pelo choro respondeu.

— Conhece alguém de sua família que tenha esse tipo sanguíneo, senhora Delacroix?

Concordando com a cabeça, Justine passou a mão pelo rosto para secar as lágrimas. Apenas cinquenta pessoas em todo o mundo possuíam o “sangue dourado”, e uma delas era o homem que desprezou Justine quando ela estava grávida.

Pelo filho, ela era capaz de qualquer coisa, até mesmo voltar ao inferno do qual escapou.

________

Em frente ao imponente edifício no centro de Milão, Justine fitou o enorme letreiro dourado e leu outra vez: “Compainha Harrison Giordano”. Já fazia mais de duas horas que ela tentava entrar, mas o segurança a barrou na entrada. Não restava outra alternativa a não ser aguardar o momento em que visse o ex-marido.

Uma chuva fina começou a cair; contudo, o desespero de uma mãe era mais forte. Justine tentou encontrar abrigo embaixo do teto do pequeno corredor que dava para a porta giratória na entrada do edifício. Os executivos a olhavam com desprezo, tanto na saída quanto na entrada.

— Essa é a ex do CEO da companhia. — Uma mulher cochichou ao contar a fofoca para outra. — Ela é a traidora — a voz anasalada falou com desdém.

Mesmo diante de todos os olhares condenatórios, Justine permaneceu firme em seu propósito. Não sairia dali até encontrar Kevin. Cansada, ela olhou para o topo do edifício; sabia que o ex-marido estava lá e, em algum momento, alguém informaria sobre a presença da ex do CEO.

________

Na sala da presidência da companhia, o homem alto ajeitou o blazer slim fit e ajustou o tecido preto aos músculos de seu peitoral e abdômen.

Ele tinha uma postura autoritária. Apesar da beleza da mandíbula e do queixo bem marcado, mantinha o semblante austero. Pegando o celular, ele abriu o aplicativo de mensagens e ouviu o áudio da noiva: “Querido, não se atrase para o jantar de ensaio do nosso casamento”.

— Estou a caminho, Beatrice. — Ele respondeu e apertou o botão para enviar a mensagem de voz.

Kevin passou as mãos pelos cabelos castanhos com reflexos loiros, jogando os fios lisos para trás. Ajeitou o colarinho da blusa de linho branca e desapertou o nó da gravata que parecia sufocá-lo. Casar outra vez era a última coisa que queria, mas, para ampliar os negócios da família, ele iria até o fim.

As batidas severas na porta fizeram-no franzir ainda mais o rosto. Virando-se, ele avançou até a porta em passadas largas e a abriu.

— O que foi desta vez, Alessandro? — O olhar inquisidor fulminou o assistente.

— Senhor Harrison, a sua ex voltou.

— Como ela ousa? — A testa vincou-se ainda mais.

— O segurança mandou Justine ir embora, mas ela continua parada na frente do prédio. Vou chamar a polícia.

— Não! — Kevin ergueu a mão direita, interrompendo-o. — Vou resolver essa situação de uma vez por todas.

Fechando os punhos ao lado do corpo, Kevin saiu de seu amplo escritório decorado com móveis clássicos.

No elevador privativo, ele mirou a carranca do homem com o rosto vermelho refletido no espelho. As veias de sua testa e pescoço estavam saltadas. Mentalmente, ele amaldiçoava o dia em que se apaixonou e fez de tudo pela mulher que o traiu. Quando saiu no saguão, os funcionários se afastaram, dando espaço para o chefe passar. 

Alguns dos executivos cumprimentaram-no, mas, naquele momento de fúria, Kevin não queria assunto com nenhum dos colaboradores de sua empresa; os passos duros de seus mocassins sobre o piso vinílico ecoavam até que ele atravessou a entrada principal do edifício.

Do lado de fora, Justine ergueu o rosto. O coração bateu com ferocidade quando olhos dourados e azuis se cruzaram. Justine segurou firme a alça da bolsa no segundo em que encarou a expressão tenebrosa do ex-marido.

— O que veio fazer aqui? — Ele vociferou a pergunta.

— O Bryan…

— Quem é esse? — Kevin a interrompeu. — Por acaso, esse é o seu novo amante?

O rosto de Justine ardia com o constrangimento. Alguns dos transeuntes observavam a cena, curiosos. Mais que depressa, o assistente se aproximou de Kevin, que se agigantou sobre a mulher de estatura mediana.

— Senhor, o seu motorista está lhe aguardando. — Alessandro indicou o Porsche estacionado do lado da calçada.

Passando as mãos no rosto, Kevin tentou recuperar a compostura.

— O Bryan é meu filho e…

— Escute bem, porque eu só vou falar mais uma vez. — Kevin sibilou as palavras entre os dentes cerrados. — Procure o Andrew. — Ele virou sobre os calcanhares, dando-lhe as costas antes de esbravejar: — Faça o favor de não me procurar mais!

O motorista abriu a porta do banco traseiro do Porsche para o chefe. Kevin sentou-se no banco, ajeitando a postura no estofado macio.

— Espere, por favor! — Ela correu e parou ao lado do carro, pondo-se de joelhos antes que ele fechasse a porta. — Ajude o meu filho!

— De quanto dinheiro você precisa para me deixar em paz? — Uma faísca de ódio passou pelo semblante do homem que a fuzilava com o olhar.

— Preciso apenas do seu sangue — a voz trêmula de Justine respondeu.

— Está louca, mulher! — O assistente proferiu e, então, tocou-lhe no ombro para afastá-la.

— Espere. — A voz rouca de Kevin ordenou, enquanto os olhos azuis reprovaram a atitude do assistente. — Para que você quer o meu sangue? — O olhar inquisidor de Kevin pousou em Justine.

— Bryan foi atropelado — o terrível nó na garganta quase a impediu de continuar a contar. Após uma pequena pausa, Justine prosseguiu: — O meu filho está morrendo — ela desatou em lágrimas enquanto tentava explicar. — Ele tem sangue com RH nulo, como o seu.

Em certo momento, a fisionomia de Kevin suavizou. O garoto tinha o sangue raro como o dele.

— Como pode insistir nessa mentira? — Descrente, Alessandro rebateu. — Pare de estorvar o senhor Harrison.

— Estou dizendo a verdade! — Levantando-se do chão, ela se justificou.

Passando pelo assistente do ex, Justine entrou no carro sem ser convidada.

— Saia daí. — Alessandro reclamou, pegando-a pelo braço magro para tirá-la do veículo.

— Kevin, farei qualquer coisa se você salvar a vida do meu filho. — Ela fez a promessa enquanto lutava com o assistente, que a puxou para fora.

— Saia logo, você está molhando todo o assento do carro do chefe. — Alessandro se intrometeu, tirando-a do carro e deixando-a na chuva.

Justine não sabia mais o que fazer. Kevin poderia usar aquilo para se vingar. Por um momento, ela temeu que o ex descontasse a raiva em seu próprio filho.

O assistente entrou no Porsche, fechando a porta do banco do carona em seguida. O motorista deu a partida no carro. Do lado de fora, Justine acompanhou o carro, batendo na janela.

— Prometo que voltarei para a França se o senhor doar um pouco do seu sangue para o meu filho. — Foi tudo o que Justine conseguiu falar antes de o Porsche acelerar. Em prantos, ela viu o carro se afastar.

“E se o garoto for realmente o meu filho?” A questão martelava no subconsciente de Kevin.

— Senhor Harrison, essa mulher está tentando ludibriá-lo, assim como fez da última vez. — Alessandro respondeu como se tivesse escutado os pensamentos do chefe. — Justine é ardilosa. Sei disso porque a deixei na mansão do Andrew Turner depois que o senhor a mandou embora.

— Cale-se! — Aborrecido, Kevin quebrou o silêncio.

Passando a mão na mandíbula apertada, ele olhou para trás da mesma maneira como fizera há anos, quando deixou Justine na chuva, depois que descobriu a traição. As recordações estavam em fragmentos; as peças espalhadas em sua memória juntavam-se lentamente, mas nenhuma delas evocava qualquer resquício de sentimento por aquela mulher. Contudo, o menino não deveria pagar pelos erros da mãe.

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