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Capítulo 7 — O Preço do Trono

last update publish date: 2026-09-17 11:44:17

Capítulo 7 — O Preço do Trono

Ethan Vance

O som seco do taco de golfe acertando a bolinha ecoou pelo gramado impecável da propriedade Vance em Long Island. A esfera branca cortou o céu matinal e pousou a menos de dois palmos da bandeira vermelha fincada no buraco dezoito.

— Uma tacada medíocre para quem se gaba de controlar metade do fluxo de investimentos do país — a voz rouca e debochada de Arthur Vance quebrou o silêncio.

Virei o corpo devagar, apoiando o peso sobre o taco de titânio. Meu avô estava sentado confortavelmente no carrinho de golfe elétrico, usando uma boina xadrez ridícula e segurando um charuto cubano apagado entre os dentes, ignorando solenemente as recomendações da junta cardiológica que o acompanhava.

— Se eu colocasse a bolinha direto no buraco, o senhor passaria o restante da semana resmungando que comprei o fabricante das bolas para trapacear. — respondi, soltando um suspiro curto e entregando o taco ao caddie que aguardava alguns metros atrás.

Arthur soltou uma risada estalada que quase se transformou num pigarro seco. Aos setenta e oito anos, o velho patriarca da família Vance ainda tinha o olhar mais afiado do mercado financeiro nova-iorquino, mesmo que o corpo insistisse em lembrá-lo do tempo decorrido.

— Pelo menos eu estaria reclamando de algo vivo — ele rebateu, descendo do veículo com uma agilidade teimosa e caminhando na minha direção apoiado em sua bengala com cabo de prata. — Você tem trinta e quatro anos, Ethan. Com a sua idade, eu já tinha construído três terminais portuários, comprado duas siderúrgicas e colocado o seu pai e os seus tios para correr pelos corredores daquela casa. Você só tem prédios, relatórios contábeis e um escritório frio no septuagésimo andar.

— E um lucro líquido consolidado que triplicou nos últimos seis anos. — apontei, caminhando ao lado dele pela trilha de cascalho em direção à sede da mansão. — Achei que expansão de capital fosse a sua métrica favorita de sucesso.

— Dinheiro sem linhagem é apenas papel impresso esperando abutres para dividir os espólios no tribunal de inventários. — Arthur disparou, parando de repente e apontando a ponta da bengala diretamente para a altura do meu estômago. — A Vance Enterprises é um império, garoto. Mas impérios sem herdeiros viram ruínas arqueológicas. Quando é que você vai me dar um bisneto para que eu possa ensiná-lo a pescar antes de eu bater as botas?

Passei a mão pelo cabelo, sentindo a veia habitual latejar na minha têmpora. Essa conversa tinha se tornado um ritual dominical nos últimos três anos.

— O senhor não vai bater as botas tão cedo, Arthur. E filhos exigem uma esposa, estabilidade doméstica e tempo. Três coisas que não cabem na minha rotina no momento.

— Não cabem porque você é um teimoso de marca maior. — o velho resmungou, voltando a caminhar devagar. — A filha dos Bennett ainda j**a charme toda vez que cruza com você em galas beneficentes. Serena é de boa família, bonita, conhece as regras da alta sociedade...

— Serena Bennett é obcecada por status, vazia de ideias e só se importa com a coluna social da qual quer ser capa. — cortei sem hesitar, o tom gélido deixando claro o fim do debate. — Se o senhor quer tanto que alguém case com ela, proponha você mesmo. Acho que ela adoraria o seu anel de sinete.

Arthur soltou uma gargalhada alta que espantou os pássaros da árvore ao lado.

— Deus me livre. Aquela mulher fala como se tivesse uma colher de prata entalada na garganta. Eu teria uma síncope cardíaca na primeira semana de lua de mel. Mas você precisa escolher alguém, Ethan. O tempo passa rápido demais para quem só olha planilhas. Uma hora você acorda e percebe que construiu uma fortaleza inexpugnável, mas está completamente sozinho dentro dela.

Entramos na varanda envidraçada onde o café da manhã estava servido. O mordomo puxou a cadeira para o meu avô com deferência, enquanto eu me servi de café preto puro, sem açúcar, recusando qualquer alimento sólido.

As palavras do velho, por mais que eu detestasse admitir em voz alta, batiam em um ponto cego que eu vinha me esforçando para ignorar há muito tempo.

Seis anos haviam se passado desde aquela noite chuvosa no The Velvet Room. Seis anos de trabalho brutal, viagens internacionais, fusões agressivas que engoliram conglomerados inteiros e consolidaram meu nome como uma das figuras mais temidas e respeitadas de Wall Street. 

Eu tinha tudo o que o dinheiro e a influência podiam comprar: aviões particulares, coberturas nas principais capitais do mundo, lealdade comprada e respeito forçado.

E, no entanto, havia noites em que eu entrava na minha cobertura no Upper East Side e o silêncio do lugar parecia pesar toneladas sobre o meu peito.

Eu tentei, nos primeiros meses após aquela fuga, procurar pistas daquela mulher. Pedi discretamente ao chefe de segurança do hotel que puxasse os registros das câmeras externas, mas uma pane no sistema elétrico na madrugada da tempestade havia corrompido os arquivos da saída de pedestres. A conta do bar tinha sido paga em dinheiro vivo por mim. Não havia cartão de crédito dela registrado, nem um nome deixado na portaria.

A única prova material de que ela não tinha sido um delírio induzido pelo uísque repousava até hoje dentro do cofre embutido na parede do meu closet: o pequeno brinco de prata envelhecida com a pedra de esmeralda.

Eu havia saído com outras mulheres ao longo desses seis anos. Herdeiras elegantes, executivas bem-sucedidas, modelos renomadas. Mas nenhuma delas jamais conseguiu provocar aquela fagulha crua, aquele choque elétrico imediato que me tirou o ar no primeiro segundo em que aqueles olhos castanhos me encararam no balcão. Com elas, tudo parecia encenado, transações calculadas de imagem e vaidade.

— No que você está pensando com essa cara de quem viu um fantasma? — Arthur perguntou, partindo uma torrada ao meio e me encarando com os olhinhos miúdos e atentos por cima dos óculos de leitura.

Bebi um gole do café quente, sentindo o amargor queimar minha língua.

— Em trabalho. A equipe de novos projetos selecionou três firmas internacionais para a concorrência do projeto de retrofit arquitetônico da nossa nova sede em Manhattan. Mark colocou as propostas na minha mesa na sexta-feira.

— E alguma presta?

— Duas são as mesmas velhas corporações de Nova York que cobram fortunas para entregar caixas de vidro sem alma. — respondi, recostando-me na cadeira de vime. — Mas a terceira é um estúdio independente de Londres que vem ganhando todos os prêmios de vanguarda na Europa nos últimos dois anos. O portfólio deles é brilhante. Arrojado, minimalista, com um uso de iluminação natural que eu nunca vi por aqui.

Arthur deu um meio sorriso sarcástico.

— Então por que não assinou o contrato ainda?

— Porque a arquiteta titular é jovem demais para comandar uma obra orçada em quinhentos milhões de dólares. Ela vai vir a Nova York pessoalmente na próxima semana para fazer a apresentação do conceito para a diretoria. Quero ver se ela sustenta a pressão da mesa antes de colocar o nome da Vance nas mãos dela.

— Uma mulher audaciosa que peita velhos engravatados em Londres? — Arthur ergueu uma sobrancelha, visivelmente entretido. — Já gostei dela antes mesmo de conhecê-la. Garanta que ela seja bem tratada quando chegar.

— Ela será tratada com o mesmo rigor corporativo que qualquer outro concorrente. — retruquei, levantando-me e conferindo as horas no relógio de pulso. — Preciso voltar para a cidade. Tenho relatórios para revisar antes da abertura dos mercados amanhã cedo.

Arthur soltou um resmungo conformado enquanto eu me despedia com um toque firme em seu ombro.

O motorista já aguardava na entrada da propriedade com o sedã preto ligado. Entrei no banco traseiro, abri meu tablet e comecei a rolar os relatórios de análise de risco enviados pela controladoria. Mas, ao abrir o anexo com o dossiê da agência britânica, congelei por um breve segundo.

Na capa do documento institucional, impresso em letras elegantes e minimalistas, estava a marca: Collins Design & Architecture - London.

Um nome comum. Uma coincidência insignificante em um mercado globalizado.

Fechei a pasta digital, guardei o aparelho e encarei o asfalto cinzento que se estendia sob os pneus do carro rumo aos arranha-céus de Nova York.

O vazio ainda estava lá, latente no fundo da minha mente. Mas uma estranha inquietação, como o aviso sutil de uma tempestade se formando no horizonte, começou a pulsar nas minhas têmporas.

— Intuição ou ilusão? — murmurei pra mim.

Mantive os olhos no trânsito, seja o que fosse isso… eu sabia que estava prestes a descobrir. 

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