LOGINDiegoMais focado em encontrar Janaína e menos impulsivo, volto a dirigir minha caminhonete, enquanto Jackson e o sacristão observam cada travessa, cada vegetação e cada movimento suspeito pela janela, a fim de avistarem o sedã vermelho.Enquanto isso, Lene com o celular grudado no ouvido fala com conhecidos.Estamos no trajeto que dá para a praia do pescador, mas antes procuramos feito loucos em outros lugares. Paramos no porto, na balsa, nos postos de gasolina... Ninguém viu nada. As informações chegam desencontradas, confusas, desenhadas pelo medo ou pela ignorância: um diz que viu o sedã vermelho dobrando para a praia; outro jura que o carro seguiu rumo a Salvaterra. Cada pista me deixa sufocado pela sensação incômoda de impotência.A cada negativa, tenho vontade de xingar, gritar, me descabelar.Preciso encontrar Janaína. Preciso do seu amor e do seu sorriso que acalma a minha alma.A aflição começa a se apoderar de mim com mais intensidade até que entro em uma ruela poeirenta
JanaínaEstou chocada com os retalhos do meu vestido de noiva espalhados pelo chão. Sinto uma lágrima quente escorrer pela minha bochecha, mas engulo o choro no mesmo instante."Não. Não vou me entregar. Tenho que encontrar um jeito de sair daqui."Tenho seis horas a meu favor. Cada minuto conta.— Vou acabar contigo, sua perturbada! — murmuro entre os dentes.A risada debochada da Gláucia ecoa pelo galpão, mas, de repente, ela trava. Segura a respiração, arregala os olhos e passa a mão na barriga. Observo-a ficar pálida em questão de segundos, enquanto o suor frio começa a escorrer pela testa dela.— Oh, não... — ela choraminga, cobrindo a boca com as duas mãos como se quisesse conter o embrulho que vem do estômago.Depressa, ela corre em direção ao minúsculo banheiro no fundo do galpão. Curva-se sobre o vaso e começa a vomitar para valer.Não sei o que essa mocreia comeu, mas essa é a minha deixa.Trato de analisar tudo ao meu redor. A cadeira de madeira onde estou amarrad
Janaína — O quê? Não vou mandar foto do meu xibiu pra você não, Armando... Tá igual à Mata Atlântica!Essa fala maluca me faz recobrar o sentido.Não sei quanto tempo se passou. Minha cabeça dói e o gosto na minha boca é amargo e metálico. Abro os olhos devagar, mas a luz fraca e amarelada faz tudo girar.— Melhor ainda. Cobras vivem explorando matas. Só uma foto, vai... — A voz masculina invade o ambiente. Noto que rola ali uma conversa sem-vergonha por videochamada.— Ah, não, querido. Prefiro a Serra Pelada. Lá é que tá o ouro... Reviro meus olhos, enojada. Tento mover as mãos para massagear a cabeça, mas percebo que estou completamente imóvel. Meus pulsos estão firmemente amarrados para trás com uma corda áspera que fere a minha pele. Os meus tornozelos também estão presos às pernas de uma cadeira de madeira pesada.Olho ao redor, tentando me situar. O lugar é escuro, úmido e cheira a mofo. Paredes de madeira inacabadas, teias de aranha pelos cantos... É um galpão abandon
Diego Estaciono a caminhonete na calçada oposta ao hotel da Lea. Olho para o relógio e verifico que estou atrasado.Antes de descer do carro, ligo para Janaína. Dá na caixa postal.Não faz mal, se ela ainda não chegou no hotel, imagino que ela esteja no ateliê e não pode atender, mas vou saber disso agora.Guardo o celular e um sorriso bobo brinca no meu rosto. Anseio pela chegada de minha noiva para o nosso ensaio fotográfico.Lene e Jackson também vão para fazer o deles e o nosso itinerário será em alguns pontos turísticos de Soure.Atravesso e vou para a recepção do hotel. Cumprimento Lene e Jackson que estão, é claro, sendo vigiados pela Alfa. A beata faz crochê e fica de olho nos dois. Sentada num sofá e com um monte de novelo espalhado, interpreto que ela não dá vez para os turistas se sentarem ali. Em seguida, pergunto por Janaína achando que ela está conversando com dona Lea.— Pensei que ela estava com você. — Jackson responde unindo as sobrancelhas. — Não... Mas e
Janaína No dia seguinte, chego no ateliê para provar e receber o meu vestido de noiva.O sacristão chega mais atrás e se senta num sofá e pega um jornal para ler. Eu me acomodo em uma poltrona e aguardo a minha vez de ser chamada. Aproveito para fazer uma vídeo chamada. Mamãe aparece na tela. — Oi, mãe!— Oi, filha! Eu e o teu pai já compramos as passagens .— Ah, que bom! Estou com uma saudade!— E eu? — ela suspira, numa melancolia dramática de mãe que vê a filha voar longe. — O bom é que agora vou ter desculpa pra viajar bastante e visitar vocês aí na fazenda.— Ah, claro... a senhora sabe que a casa é sua.Ela faz uma pausa longa, analisa meu rosto clinicamente, e solta sem rodeios:— Agora me diz uma coisa, Janaína... por que tu tá tão magra? Não vai me dizer que tá fazendo alguma dieta maluca!— Não, mãe, longe disso. Deve ser ansiedade por causa da data... Acho que perdi uns três quilos sem nem perceber.— Ah, mas não mesmo! Vou já falar com a Jane. Ela tem que te obrig
DiegoA movimentação da Fazenda Magalhães me deixa com o coração transbordando de alegria. Ali estão reunidos os convidados que vieram prestigiar não apenas à inauguração do hotel, mas por um outro motivo especial. Já coloquei o anel de noivado no dedo de Janaína, firmando meu compromisso com ela, mas o padre fez questão que fosse oficializado diante de todos como segue o figurino dos fazendeiros de Soure.Então tá. Sem problemas. Minutos antes, minha mãe cortou o laço que simboliza a inauguração do hotel-fazenda Magalhães e agora me preparo para o que vem a seguir.O aroma do churrasco se espalha pelo ar e a área cheia dos convidados. Na varanda do hotel, enfeitada com chita colorida, cerâmica marajoara e arranjos de flor de laranjeira, a mesa parece não ter fim: caldeirada fumegando, caranguejada, frito de vaqueiro e uma quantidade perigosa de doce de cupuaçu com castanha, além de outras iguarias.Fred mantém a postura, afastado no jeito dele de ser, só ajustando a aba do







