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Outro Garanhão

last update publish date: 2026-08-22 09:44:50

​Janaína

​Finalmente o aniversário da Maria.

​Jane, a maior chef de cozinha de Soure, assumiu a cozinha da festa para preparar suas delícias inigualáveis. Logicamente, aproveitei a ocasião para cumprir meu trabalho fotográfico e tudo saiu conforme o desejado.

​ ​Avalio o resultado no visor da câmera. O pôr do sol do Marajó deu um toque poético a cada enquadramento.

Com um sorriso de dever cumprido, me dirijo ao casarão principal.

Se não houver imprevistos, precisarei de apenas mais cinco ou se
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    ​— O que você vê aqui hoje — Lili começa, apontando para o casarão —, o povo de Soure chama de cabaré. Mas para o Diego e o Bil, isso aqui sempre foi abrigo e amizade. Quando o Diego era um rapaz novo, teimoso, querendo largar tudo, fui eu quem puxou a orelha dele nesta mesma varanda para não abandonar os estudos. Fui eu quem deu conselho quando ele achava que o mundo devia servir a ele.​Enxugo uma lágrima com as costas da mão, escutando cada palavra em silêncio.​— E quando veio a pandemia... E o mundo fechou as portas e o meu pessoal aqui não tinha o que comer, não foram os "santos" da cidade que estenderam a mão. Foram esse garoto e o Bil. Eles bancaram esta casa sem pedir nada em troca. O Diego e o Bil sempre respeitaram cada mulher que pisou aqui dentro. A nossa amizade não é firmada por favores sexuais, e sim por mútuo respeito. Ele só tem olhos para você. Essa é a verdade.​Ao ouvir aquelas palavras, eu me desarmei. Lágrimas continuam caindo, agora de alívio. A tensão no meu c

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    Amanheceu. Espreguiço-me na cama, ainda com aquele sorriso bobo no rosto de quem vive um sonho.​Pego o celular, curiosa. Será que há alguma mensagem de bom-dia do Diego? Confirmo que não, mas a tela está cheia de notificações de um número desconhecido.​Uno as sobrancelhas e abro o aplicativo. Meus olhos crescem de espanto. São várias fotos, todas com data e hora registradas. Meu mundo cai em segundos.​Do dia em que assumimos o namoro até ontem, a Hilux do Diego aparece entrando no estacionamento privativo do cabaré da Lili. Sempre à tarde, algumas vezes com o Bil. Junto das imagens, uma mensagem de texto seca e direta:​"Todo fim de tarde ele bate ponto no cabaré antes de ver você. Abre o olho, inocente. kkkkkkkk"​Sinto o sangue fugir do meu rosto. Minhas mãos começam a tremer violentamente e a respiração fica curta. É uma dor incalculável, que mistura decepção e mágoa. As lágrimas deslizam quentes, embaçando a tela. Como ele pôde ser tão cruel?​Sem pensar em mais nada, ligo par

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    DiegoNo cantar do galo, converso com o Fred na área dos cavalos sobre o avanço das obras do hotel. Caso dê tudo certo, a inauguração acontecerá em um mês.​Ficamos bastante tempo montando estratégias para a inauguração, até que meu celular vibra no bolso. Peço licença ao vaqueiro, imaginando que seja a Janaína respondendo ao meu bom-dia, mas é o Bil." Será que caiu da cama, esse doido?"​— Alô! Diga aí, mano!​Bil, no seu jeito despojado, fala:​— Rapaz, tenho uma notícia maravilhosa pra te dar! Estou feliz da vida!​Alargo o sorriso:​— Não acredito! Conseguiu?​— Consegui, cara! — a vibração na voz dele é tocante. — Vou participar do concurso de DJs! Viajo amanhã de manhã.​— Sério?! Isso é o máximo! Vai ser em São Paulo, né?​— Sim! Mas não se preocupe, chego a tempo para a inauguração do hotel, beleza?Suspiro forte. Apesar da saudade, Bill merece realizar seus sonhos. ​— Ah, amigo, vou sentir tua falta, mas fico na torcida. Fique o tempo que for necessário... Já falou com a

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    O sol está se pondo e o clima na praça tá diferente hoje. Nem começou junho direito, mas o cheiro de milho assado já impregna nossas narinas, num claro convite para uma movimentação mais maciça dos apreciadores.​Bandeirolas coloridas balançam ao movimento do vento que vem do rio, amarradas de uma amendoeira a outra na praça. Alguns vendedores aguardam os visitantes e um carimbó de fundo é ouvido ao longe.​É neste clima que eu e Janaína passeamos pelo centro de Soure. Com uma semana de namoro, por onde a gente passa, deixamos um rastro de curiosidade. Vejo de canto de olho o povo se cotovelando e sei exatamente o que se perguntam: "Como aquela mocinha foi fisgada tão rápido pelo maior garanhão da cidade?"​Aff! Eles jamais vão entender e não sou eu quem vai dar explicação. Que tirem suas próprias conclusões; o importante é a minha felicidade. Tô apaixonado de tal forma que nada neste mundo me incomoda.​Andamos pelas ruas de mãos dadas, olhos nos olhos, trocando sorrisos faceiros no

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    Léa​(Uma cidade sem fuxico é só uma cidade-fantasma. H.S.)​Lene está na recepção do hotel fazendo o check-in de um casal de turistas, e eu aproveito para pegar um ar fresco na noite tranquila do centro de Soure.Me acomodo no meu banco preferido e consulto o relógio. ​Não demora cinco segundos e lá vai a Hilux do Diego cortando a rua no sentido da fazenda Monteiro. Curvo meus lábios num sorriso de "Aí tem!". ​Finalmente Soure renasceu das cinzas! O amor e a fofoca estão no ar!​Há três dias, mesmo sem confirmação oficial, Diego e Janaína se tornaram o assunto número um de Soure. Das mesas de dominó nos botecos às lavadeiras na beira do rio, não se fala em outra coisa.​Um gavião que se preze não perde o alvo, e o Diego nem deu tempo de a moça ser fisgada por outro. Mas a dúvida que paira em cada esquina é uma só: até quando esse namoro vai durar?​Para tirar a prova, saí hoje fazendo a minha ronda como quem não quer nada, atrás de quem pudesse me soltar uma fofoca quentinha.​De

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