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Capítulo 4

Autor: TJ
Me agachei e recolhi os pedaços do camafeu. Uma borda irregular cortou a ponta do meu dedo, e o sangue se infiltrou nos delicados entalhes da peça.

"Você abre mão de muita coisa só para manter a paz. Quando eu não estiver mais aqui, não deixe que tirem tudo de você. Guarde alguma coisa só para você."

Aquilo foi mais uma das coisas que a minha avó havia me dito.

Depois que ela morreu, não restou ninguém que me enxergasse como ela. Para todos os outros, eu era a filha que sabia cuidar de si mesma, aquela que nunca se machucava, nunca se sentia sozinha e nunca precisava ser escolhida em primeiro lugar.

No instante em que o pingente se estilhaçou, entendi que o único amor que algum dia me tinha pertencido inteiramente naquela casa havia sido tomado sem permissão e despedaçado aos meus pés.

— Natalie, eu juro que não fiz de propósito. — Disse Emma, entre soluços.

Minha mãe imediatamente a puxou para os braços.

— Não chore. Não foi culpa sua.

Então se voltou contra mim.

— Você precisava ir para cima dela daquele jeito? É claro que ela entrou em pânico.

— Eu não fiz isso. Ainda estava a dois passos de distância quando ela soltou o colar.

Ryan tinha entrado logo atrás de Emma. Ele olhou para o pingente quebrado e suspirou.

— Então mande consertar. As pessoas restauram antiguidades o tempo todo.

— A mamãe pegou sem pedir, e a Emma quebrou. Eu não tenho o direito de ficar chateada?

— E agora está quebrado. Fazer a Emma chorar não vai mudar isso. — Disse ele.

Ethan tirou um lenço do bolso e enxugou com delicadeza as lágrimas do rosto de Emma. Ninguém percebeu o sangue que escorria pelos meus dedos.

Fechei a mão em torno do camafeu quebrado. Em todas as outras vezes em que me magoaram, eu tinha tentado me explicar, acreditando que, se encontrasse as palavras certas, eles finalmente entenderiam. Mas, ali, sangrando, percebi que não tinha mais nada a dizer.

Guardei os pedaços no bolso e fui em direção à porta. A voz da minha mãe me acompanhou:

— Pois vá embora. Mas não espere que a gente saia correndo atrás de você. Continue tratando os outros assim, Natalie, e um dia não vai sobrar ninguém ao seu lado.

Não olhei para trás. Ela não sabia que eu não tinha a menor intenção de voltar.

Após chegar ao albergue, terminei de arrumar as poucas coisas que ainda tinha. Meu voo para Seattle partiria na manhã seguinte, e eu finalmente deixaria aquele lugar para trás.

À uma da manhã, a tela do meu celular se acendeu com uma mensagem de Ethan.

[A Emma não parou de chorar a noite toda. Até quando você vai continuar com isso?]

Mais mensagens apareceram. Minha mãe mandou que eu voltasse para casa e pedisse desculpas. Ryan disse que eu estava estragando uma semana que deveria ser empolgante para Emma.

Meu pai me lembrou:

[Família é saber a hora de deixar as coisas para lá.]

E foi o que fiz: deixei todos eles para trás.

Bloqueei todos os números, fechei o zíper da minha mala rachada e fui para o aeroporto antes do sol nascer.

No balcão de check-in, uma das rodinhas ficou presa na borda da balança de bagagem. Uma mulher de meia-idade que estava atrás de mim me ajudou a erguer a mala e colocá-la na plataforma.

— Vai se mudar para longe? — Ela perguntou enquanto olhava a etiqueta do meu voo só de ida para Seattle.

Assenti.

— Sua família não pôde vir se despedir?

Uma calma estranha tomou conta de mim.

— Eles tinham alguém mais importante de quem cuidar.

Depois que o avião subiu para além das nuvens, tirei o camafeu quebrado do bolso. Foi então que finalmente chorei.

Não foi por sentir falta deles. Chorei pela menina que eu tinha sido, aquela que acreditava que, se ficasse quieta, se esforçasse mais e pedisse menos, alguém finalmente se voltaria para ela e a amaria. Aquela menina já não existia.

Minha família achava que eu voltaria para casa, pediria desculpas a Emma e dormiria no depósito, aceitando aquilo como sempre tinha aceitado todo o resto.

Eles nem imaginavam que eu já estava a quase 4.800 quilômetros de distância. E, quando percebessem que eu não voltaria, eu já não pertenceria a ninguém além de mim mesma.
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